




A Me Secreta

Lee Wilkinson




ARGUMENTO:
Carolina se tinha prometido que um dia voltaria pela pequena Caitlin. Quatro anos depois, ia dar o primeiro passo para cumprir sua promessaia a uma entrevista de trabalho como babde Caitlin. At a tudo ia bem. Matthew a entrevistou e no a reconheceu, ou isso ela acreditara.
Mas entre eles havia um inconfundvel magnetismo. Possivelmente todos seus sonhos se fizessem realidade; mas no se imaginava que Matthew tinha outros planos

 


Captulo 1

Da janela de sua salinha, junto ao quarto das crianas, Caroline via a neve cair sobre Morningside Heights. Flocos suaves e ligeiros revoavam no cu escuro, depositando-se contra o vidro e cobrindo as rvores com um manto branco.
De repente, sentiu um calafrio. A neve sempre a fazia recordar. Trazia o passado de volta, com toda sua crueldade. O passar dos anos, no aliviaria a dor, no cicatrizariam as feridas emocionais como o tinham feito as fsicas?
No espelho estas j no se notavam e nem sequer podia as perceber com as pontas dos dedos. Certo que ainda estava um pouco demarcada, parecia mais velha para sua idade, mas, ironicamente, agora era quase uma beleza enquanto que antes s tinha sido meramente atraente.
Um golpe na porta interrompeu seus pensamentos.
-Espero no te incomodar -disse Lois Amesbury, sua chefe, sempre educada, alm de agradvel e amistosa-. Queria te dizer que j est decidido. Meu marido tem que se incorporar a seu posto no hospital de Burbeck antes de Ano Novo, assim partiremos para Califrnia durante as frias de Natal...
A possibilidade de mudar-se  costa oeste havia sido mencionada e comentada com antecedncia mas Caroline tinha procurado no pensar nisso.
Fazia mais de dois anos que os Amesbury, depois de ouvir parte de sua histria, arriscaram-se a contrat-la, uma mulher calada e de olhos tristes, como bab de suas gmeas, que agora tinham trs anos. Com eles se sentia segura e, embora no era feliz, estava relativamente a gosto. A mudana supunha uma grande mudana, uma separao que Caroline no desejava.
-Sentirei falta de Nova Iorque -continuou Lois, sentando-se frente a ela-, mas estou desejando exercer a advocacia em Oakland e seremos quase vizinhos de minha famlia. Minha me morre de vontade de ocupar-se das meninas...
Meninas que tinham servido para encher os braos vazios e o corao destroado de Caroline.
-Embora suspeite que as v mimar muito... -Lois percebeu a desolao que a jovem tratava de ocultar e calou bruscamente. Depois de uns segundos continuou com tom prtico-. Na realidade vim para te dizer que Sally Dowers me chamou para me perguntar se necessita de outro emprego. Conhece um rico homem de negcios que necessita uma bab de confiana e est disposto a pagar muito bom salrio.
<<Tem uma menina, aproximadamente da mesma idade que as minhas.  divorciado ou vivo, no estou bem certa. Embora isso no importe... a av se ocupava da menina, mas morreu subitamente faz uns meses. Acredito que a bab que contrataram no gostava da pobre nenm, que preferia estar com a governanta. Quando o pai descobriu o que ocorria ele despediu a bab; necessita de algum de confiana que possa comear imediatamente. Amanh estar em casa, se por acaso quer ir ver-lo.
-Mas eu no posso comear imediatamente. -protestou Caroline. Lois fez um elegante gesto de rechao com a mo.
-Hoje terminei de recolher meu material no escritrio; estarei em casa at que nos mudemos; se decidir aceitar o trabalho posso me arrumar sem problemas. Foste uma bno para ns e estou muito agradecida a ti. Por isso preferiria ver-te estabelecida antes que nos partamos.
<<Ele se chama Matthew Carran. Vive no edifcio Baltimore, na Quinta Avenida. Aqui tem o telefone e o endereo -disse, lhe passando uma folha de papel-. 
Bom, tenho que te deixar. Vamos a um concerto no Octagon Hall, a no ser que esteja nevando muito.
Embora Caroline aceitasse o pedao de papel automaticamente, no tinha ouvido uma s palavra desde o nome Matthew Carran.
Os batimentos do corao lhe ressonavam nos ouvidos, e uma profunda escurido ameaava a engolir. Quando a porta se fechou, inclinou a cabea e a ps entre os joelhos. Segundos depois, lhe aconteceu o enjo e se ergueu no assento. Era quase incrvel que o homem que necessitava de uma bab com urgncia fosse o nico para o qual no podia trabalhar.
Seria o mesmo homem? O endereo era diferente. Matthew era um nome bastante corrente mas Carran no, e todo o resto encaixava: Sim, tinha que ser ele.
Segundo suas ltimas notcias, a madrasta de Matthew cuidava de sua neta, um beb, e ele estava a ponto de casar-se. Mas parecia que agora estava vivo ou divorciado e, ao morrer a av, a menina tinha ficado em mos de uma bab. Com angstia, Caroline recordou as palavras de Lois Amesbury: Acredito que a bab no gostava da pobre nenm.
Caroline fechou os olhos com fora e se cravou as unhas nas palmas das mos, lutando contra as lgrimas. Desejou que sua situao fosse diferente, mas o certo era que em umas semanas estaria sem trabalho e sem casa.
Ou possivelmente no? Matthew no a relacionaria com o nome de Caroline Smith; quando a conheceu se chamava Kate Hunter. E no havia muitas possibilidades de que a reconhecesse fisicamente. Ela mesma se surpreendia quando passava ante um espelho e este lhe devolvia a imagem de uma estranha. Quando tinha vinte e dois anos pesava uns nove quilos mais, tinha o cabelo curto, loiro e encaracolado. Agora o usava comprido, liso e de sua cor natural, castanho cinzento. Naquela poca era jovem, fresca e de curvas sensuais. Agora era velha, se no em anos, sim em experincia, estava magra, quase ossuda, e seu brilho havia se extinguido.
No, no a reconheceria. Tinha sofrido tantas operaes de cirurgia plstica que nem sua prpria me a teria reconhecido.
Era muito arriscado. Ainda recordava seu olhar, o desprezo e condenao de sua expresso na ltima vez que se viram. Mas o intenso desejo de voltar a ver, a necessidade de conhecer sua filha, doa-lhe quase fisicamente.
No podia faz-lo. Seria uma loucura. Reabriria todas suas feridas e destroaria a escassa paz de esprito que tinha recuperado.
Mas conseguir esse trabalho de bab seria a resposta a todas suas oraes.

Nessa clara e fria manh, a Quinta Avenida estava transbordada de trfego e pedestres, suas brilhantes lojas e luxuosas vitrines rivalizavam com a luz do sol. Nas esquinas das caladas havia montes de neve suja e cinza, mas o Central Park parecia um paraso invernal e havia gente patinando no lago e na pista de gelo do Rockefeller.
Descobriu que o edifcio Baltimore tinha vista ao parque. De p no vestbulo de mrmore, sob um impressionante lustre, Caroline admitiu que estava se comportando como uma estpida. Mas a possibilidade de conseguir o mais profundo desejo de seu corao era mais forte que ela.
Depois de uma noite quase insone, depois de dar o caf da manh s gmeas, discou o telefone que Lois Amesbury tinha anotado, esperando, ansiosa, ouvir a voz de Matthew. Foi uma decepo escutar a voz de uma mulher com forte sotaque irlands, que se identificou como a governanta do senhor Carran. Caroline exps a razo de sua chamada e pouco depois a governanta voltou para telefone.
-O senhor Carran estar encantado de receb-la s nove e meia, senhorita Smith. H-me dito que venha de txi e lhe reembolsar a importncia.
Caroline tinha tempo de sobra e pensou que caminhar um momento a tranqilizaria, assim desceu do txi umas quadras antes de chegar a seu destino. Eram quase eram nove e meia quando, junto aos elevadores, teve que reconhecer que sua estratgia tinha falhado: tinha o estmago revolto e os nervos a flor da pele. Apertou o boto que a levaria ao apartamento da cobertura do andar sessenta e cinco. O rpido elevador comeou a mover-se ela tirou uns culos de aro escuro da bolsa e os ps. Embora j no os necessitasse para dissimular a cicatriz que tinha cruzado seu rosto, passando pelo nariz e elevando-se at o olho, preferia os usar. Eram algo atrs do que se ocultar. As lentes escuras alteravam a clara cor gua-marinha de seus olhos, deixando-o de um azul mais escuro; isso lhe proporcionaria uma migalha mais de confiana, que necessitava com desespero.
A governanta, de meia idade, abriu a porta e aceitou seu casaco, que pendurou no cabide do vestbulo.
-O senhor Carran a espera em seu escritrio -disse, olhando com aprovao o coque clssico, o vestido reto de l e as botas da recm chegada-.  aquela porta da esquerda.
Caroline cruzou o saguo, luxuosamente atapetado, com passo tremente. Bateu na porta e esperou.

-Entre.
Depois de quase quatro anos, a voz profunda e poderosa lhe resultou dolorosamente familiar. Tragou saliva; sua mo, recoberta de suor frio, escorregou na maaneta. Finalmente conseguiu abrir a porta e entrar no escritrio, cujas paredes estavam recobertas de livros.
Matthew Carran estava sentado atrs de uma brilhante mesa de escritrio, com uma caneta dourada na mo e um monto de papis ante si. No usava palet e havia afrouxado a gravata, como se lhe incomodasse o terno.
As mangas arregaadas de sua camisa deixavam ao descoberto uns braos magros e musculosos, matizados por um suave plo escuro.
Ao v-la ficou em p e ficou parado, sem falar, olhando-a de acima a baixo lentamente.
Parecia mais alto, os ombros ainda mais largos sob a camisa de riscas finas; mas o rosto anguloso e duro, o cabelo preto como o carvo e seus preciosos olhos verde dourado no tinham mudado.
Ainda que havia acreditado estar preparada, uma onda de emoo a inundou. A habitao comeou a dar voltas e a mesma sensao de enjo da tarde anterior ameaou a engolir. Agachou a cabea, mordeu-se o lbio com fora e se concentrou na dor para no perder o sentido.
-Ests bem? -perguntou ele.
-Sim... -disse, levantou a cabea e tragou saliva, notando o sabor salgado de seu prprio sangue-. Muito bem, obrigado.
-Quer sentar-se?
Ela, agradecida, afundou-se na cadeira e ele voltou a ocupar seu lugar atrs da mesa.
-Ests muito plida. Esteve doente? -perguntou com um tom de genuna preocupao.
-No -era a verdade e no acrescentou nada mais.
-Tomou muitos dias livres quando trabalhava para a senhora Amesbury?
-Combinamos que liberaria um dia da semana e os fins de semana alternados -replicou ela- e alguma que outra noite se fosse necessrio -acrescentou, embora nunca tinha feito uso dessa opo.
-Referia-me a dias por enfermidade e coisas assim.
-Nenhum. Tenho muito boa sade -agora, pensou.
-Se ests pensando em trabalhar para mim devemos nos conhecer melhor. O que pode me contar de si mesma? -inquiriu ele, depois de estudar o delicado rosto oval. Antes que ela pudesse replicar acrescentou-. Tem um sotaque agradvel, mas parece mais britnico que americano.
Caroline ficou rgida. No tinha contado nem com sua voz nem com seu sotaque.
-s inglesa? -perguntou ele impaciente, ao v-la duvidar.
-Nasci em Londres, mas tenho dupla nacionalidade.
-Me conte algo sobre seus pais -ordenou. Ela o olhou surpreendida-. A histria familiar de uma pessoa  importante -explicou ele.
Ele nunca chegou a saber algo sobre seu passado, assim responder no supunha nenhum perigo.
-Meu pai, nascido em Nova Iorque, era escritor e jornalista. Trabalhando em Londres conheceu a minha me, que era reprter fotogrfica. Casaram-se e eu nasci um ano depois. Vivemos em Londres at que completei quinze anos. Depois viemos para Nova Iorque.
 filha nica?
-Sim. O nico que lamento  no ter tido irmos.
-Ou seja que teve uma infncia feliz.
-Sim, muito. Suponho que um pouco bomia, mas sempre me senti cuidada e querida.
-Seus pais vivem ainda em Nova Iorque?
Caroline negou com a cabea.
-Estavam fazendo uma reportagem sobre um incndio em uma instalao qumica de Nova Jersey; houve uma exploso e morreram.
-Faz quanto tempo?
-Ocorreu durante meu ltimo ano de universidade.
-Importa-lhe me dizer que idade tens agora?
-Quase vinte e seis -respondeu ela, depois de duvidar ligeiramente. Pela expresso dele, compreendeu que ele tinha calculado muita mais idade.
-Quanto tempo leva trabalhando de bab?
-Desde que acabei a universidade -replicou ela, sentindo-se culpada ao mentir, mas esperando acabar assim com o interrogatrio.
O verde olhar de Matthew Carran percorreu seu rosto. Seus olhos sempre tinham tido o poder de acariciar ou fulminar. Agora, como se tivesse adivinhado que mentia, s podiam descrever-se como glaciais. Depois de um instante de silncio, mudou o rumo das perguntas.
-Agora lhe exigem que use uniforme?
-No -disse ela. Lois Amesbury tinha estado a favor de uma certa informalidade em sua relao de trabalho.
-Teria alguma objeo a usar um?
Caroline, desgostada pela idia, mas consciente de que no seria conveniente diz-lo, mordeu-se o lbio.
-No - respondeu.
-O que a impulsionou a converter-se em bab?
-Eu gosto de crianas -disse. Era a verdade, sempre tinha gostado delas.
-Possivelmente pensa que ser bab  uma forma fcil de ganhar a vida -sugeriu ele, com voz sedosa.
-Nunca pensei isso -resmungou ela, ferida-. Ser bab no  uma forma fcil de ganhar a vida. Simplesmente  o trabalho que eu mais gosto.
-Que qualificaes tens, alm de de gostar de crianas?
-Fui aprovada em todos os cursos exigidos de educao, cuidado e dieta infantil.
-Que duas coisas voc diria que so as mais importantes na vida de uma criana?
-Segurana e carinho -respondeu ela sem duvid-lo.
Durante um instante pareceu que uma intensa emoo o invadia, mas se desvaneceu rapidamente, deixando seu magro e moreno rosto vazio de expresso. Caroline, incapaz de olh-lo nos olhos, olhou-lhe as mos. Eram magras, bonitas e musculosas, de dedos longos e com unhas bem cuidadas.
-Fumas?-perguntou ele, de repente.
-No - piscou ela.
-Bebes?
No.
-Mas, sem dvida,... haver algum homem em sua vida?
Era quase como se a estivesse acossando e ela desejou intensamente no ter ficado nessa situao.
-No.
-Vamos, por favor... -disse ele, estreitando os olhos.
-No sabia que ter um homem em minha vida fosse um requisito -espetou ela, deixando-se levar por seu gnio. Um segundo depois, amaldioou sua estupidez. Por que se enfrentar a Matthew Carran quando queria esse trabalho com desespero?
-Me sobra sarcasmos, senhorita Smith -replicou ele, com dureza.
-Sinto muito. Mas, no acredita que tenha direito a minha vida privada?
-Todo mundo tem direito a sua vida privada. S quero me assegurar de que a sua no entrar em conflito com suas obrigaes. Quando a av de Caitlin morreu, tive que contratar uma bab e cometi um grande erro... -com os lbios apertados e duros, continuou-. No tenho inteno de cometer outro.
Caitlin, pensou Caroline, com o corao a ponto de estalar. Tinham-na chamado de Caitlin. A tenso havia recoberto seu rosto de uma fina camada de suor; ao notar que os culos escorregavam os empurrou para cima.
-Por que usa culos?
A pergunta, um ataque rpido como o de uma serpente cascavel, desconcertou-a.
-Perdo?-balbuciou.
-Perguntei-lhe que por que usa culos.
-Porque... porque os necessito.
Ele se levantou, inclinou-se para ela e, sem pedir permisso, tirou-lhe o culo. Rgida pela impresso, tentou manter a calma enquanto ele olhava atentamente seus claros olhos gua-marinha.
Ansiedade, dor, solido, tristeza... fosse o que fosse o que viu neles no refletiu em seu olhar nem um pice de compreenso nem de ter-la reconhecido. Caroline agradeceu a seu anjo da guarda, quem quer que fosse. Prematuramente, j que um segundo depois Matthew levantou os culos e olhou atravs delas.
-Por que necessita uns culos que no so mais que vidro colorido? -perguntou. Os devolveu e ela os ps apressadamente.
-Eu... pensei que seria melhor parecer um pouco mais velha -gaguejou, sem saber o que dizer.
-Parecer mais velha no a converte em melhor candidata -grunhiu ele, com voz glida.
A tenso estava lhe provocando uma cansativa dor de cabea e, convencida de que nunca conseguiria o posto, sentiu-se vazia e desesperada. Comeou a erguer-se, desejando escapar desses olhos desumanos.
-Bom, se tiver decidido que no sou a pessoa adequada...
-Por favor, sente-se -ordenou ele secamente-. No decidi nada semelhante. Sentou-se, tremente e ele continuou-. Enquanto voc vinha para c tive uma longa conversa com sua atual patroa...
Fez uma pausa, como se quisesse manter a incerteza; com cada segundo que passava Caroline ficava mais nervosa.
-Comunicou-me que ests com eles h mais de dois anos e me deu muito boas referncias -comentou- Para quem trabalhou antes? -perguntou, justo quando Caroline suspirava com alvio.
-Antes?
-Antes da senhora Amesburry.
Ela compreendeu, muito tarde, que ao lhe dizer que era bab desde que havia deixado a universidade havia se colocado em uma boa confuso.
-Bom, eu... -gaguejou.
-Suponho que no se lembra? -insistiu Matthew. No pensava lhe dar nem uma pausa.
-Com o senhor Nagel -improvisou ela, odiando mentir, mas sabendo que no tinha outra opo-. Cuidei de seu filho quando sua mulher os abandonou..
-E?
-Ela voltou e se reconciliaram, assim j no me necessitavam -disse ela. Notou que ele olhava as mos, que ela se retorcia com nervosismo, e fez um esforo para acalmar-se.
-Tem carta de recomendao do senhor Nagel?
-Temo... acredito que a perdi.
Ele lhe lanou um olhar ctico que deixou bastante claro que no acreditava em nenhuma palavra. Caroline notou que um rubor de culpa invadia suas bochechas.
-Suponho que seria satisfatria, ou os Amesbury no a teriam contratado -disse ele, e comeou a golpear a mesa com a caneta-. Muito bem, se Caitlin esteja de acordo, o posto  seu, com um ms de experincia -anunciou. Ela o olhou, os plidos lbios entreabertos; srio, continuou falando-. Estou disposto a lhe conceder o mesmo tempo livre que tinha em seu emprego anterior e, se seguir aqui depois do perodo de teste, duas semanas de frias pagas. O salrio ser de... -mencionou uma quantidade muito generosa - e desfrutar de uma sute muito confortvel ao lado do quarto da menina.
Ela ficou calada, e seguiu olhando-o fixamente. 
-Pareces surpreendida. J no quer o trabalho? -perguntou com brutalidade.
-No... no  isso... No esperava que me oferecesse isso.
Por que no? 
-Deu-me a impresso de que no lhe agradava.
-Nunca acreditei necessrio que eu gostasse da bab -reps ele com ironia. Ao ver que ela se ruborizava intensamente continuou falando-. Quo nico importa  que goste a Caitlin.  uma menina alegre e boa, bastante adiantada para sua idade. Agora est a cargo de minha governanta, a senhora Monaghan, e segundo esta a menina no d nenhum problema. Ainda assim,  muito trabalho. Assim, se tudo for bem e aceitar minha oferta, quero que comece amanh.
-Com uniforme? -perguntou Caroline, sem poder evitar certa aspereza em seu tom.
-No ser necessrio -respondeu Matthew depois de uns momentos de deliberao. Olhou-a nos olhos-. Antes de seguir adiante, tem alguma pergunta a me fazer?
Ela, com a cabea feita um torvelinho, no respondeu.
-J est a par de tudo? -insistiu ele.
-S sei o que me contou a senhora Amesbury -conseguiu balbuciar.
-E o que lhe contou  senhora Amesbury? -inquiriu ele. Soava incomodado, como se suspeitasse que tinham estado fofocando sobre sua vida.
-S que  vivo ou divorciado e que sua filha tem uns trs anos.
-Temo que isso no  muito exato. No sou vivo nem divorciado...
Assim devia seguir casado... Casado com Sarah...
-E Caitlin no  minha filha. Minha me morreu pouco depois de eu nascer; meu pai voltou a casar-se quando eu tinha nove anos. Sua segunda mulher tinha um filho de trs. Caitlin  filha de meu meio-irmo -fez uma pausa-. De fato, nunca estive casado.
-Oh, mas eu acreditava que... -Caroline calou abruptamente, mordendo a lngua.
-O que voc acreditava, senhorita Smith?
-Nada... seriamente -negou ela com a cabea. Os olhos de Matthew brilharam atrs de suas espessas pestanas e acreditou que ia insistir, mas ele mudou de tema.
-Bom, se no tem nenhuma pergunta possivelmente gostaria de dar uma olhada em sua habitao e conhecer Caitlin.
Caroline se levantou, agitada, e tentou controlar sua febril excitao, enquanto Matthew avanava para ela. Era alta para ser mulher, media um metro setenta, mas ele que superava o metro e oitenta, parecia domin-la como uma torre.
De repente, ela comeou a tremer; ao levantar o olhar para o rosto moreno, a fora de seus sentimentos por ele a desestabilizou de tudo.
Depois de tanto tempo, tinha tido a esperana de no ver mais que um homem que tinha conhecido e amado no passado, algum sem importncia; tinha rezado por que fosse assim. Mas no, seu instinto seguia clamando que aquele homem era a outra metade de seu ser, quem a completava e convertia em um todo.
-Agora que ficou claro que no necessita dos culos, poderia tirar-los - sugeriu ele-.  uma pena esconder uns olhos to belos -acrescentou secamente, como se suas palavras fossem algo menos um elogio. Incapaz de pensar em uma razo para negar-se, Caroline os tirou e os guardou na bolsa sem olh-lo, tentando ocultar seus sentimentos.
Ele abriu a porta, ps uma mo na cintura dela e a guiou brandamente para a sala de estar.
V-lo a tinha impressionado profundamente e o contato de sua mo, embora ligeiro e impessoal, resultou devastador; ficou sem respirao e lhe acelerou o pulso.
O apartamento de Matthew, apesar de sua amplitude e elegncia, tinha um ar caseiro e acolhedor. Havia vrios brinquedos atirados sobre o tapete e diante da janela se via um cavalinho de madeira, montado por uma boneca de pano com tranas amarelas.
-O quarto de brinquedos e o dormitrio da menina esto por aqui -disse, conduzindo-a atravs de um arco a outro vestbulo-. E, se aceitar o trabalho, ests sero suas habitaes - completou, empurrando uma porta.
A luxuosa sute, composta de salinha, dormitrio, banheiro e uma mini cozinham, estava mobiliada com um gosto excelente e contava com todos os equipamentos modernos. Ela teria aceitado o trabalho embora lhe tivessem oferecido um poro infestado de ratos. Agora tudo dependia de Caitlin e Caroline se sentiu desesperanada. Como podia esperar que uma menina to pequena, que j tinha passado por uma bab que no gostava, aceitasse a uma desconhecida?
-Agora, se quer conhecer Caitlin...
Matthew se dirigiu para a cozinha, grande e arejada, onde a senhora Monaghan vigiava  menina enquanto preparava caf.
A pequena, vestida com uma camiseta de algodo de manga longa e um babador de cores vivas, estava deitando a uma boneca em um carrinho. Quando entraram, levantou a cabea e correu para abraar-se s pernas de Matthew.
-Diga ol  senhorita Smith -pediu ele, lhe revolvendo o cabelo escuro-. Se formos agradveis com ela, provavelmente vai viver aqui, para te cuidar -explicou, com voz de conspirao.
Caitlin se soltou e se voltou para olhar com solenidade a recm chegada. Caroline ficou de ccoras e sorriu tremente  menina, com o corao a ponto de estalar. Era uma criatura preciosa, com a pele rosada como um pssego, covinhas nas bochechas e bonitos olhos azul esverdeado, emoldurados por longas pestanas. Durante uns segundos, olharam-se sem falar.
-Voc quer vir me cuidar? -perguntou Caitlin com sua aguda voz infantil.
-Certamente que sim. Ver, estive cuidando de duas meninas que tiveram que ir viver a outro lugar e eu adoraria ter outra menina a quem cuidar -conseguiu responder Caroline, com voz rouca.
Caitlin considerou a resposta um par de segundos, partiu correndo e voltou em seguida com um urso de pelcia marrom de expresso agressiva, que levava um cachecol a listras, vermelhas e verdes.
-Este  Barnaby -disse, pondo o urso nos braos de Caroline.
-Ol, Barnaby.
- um menino.
-Um urso com muito carter, j o vejo. Ele se incomodar se lhe der um abrao?
-Gosta que o abracem -confiou Caitlin, apoiando-se no joelho de Caroline.
-Tambm gosta de tirar a sesta no meio da amanh -sugeriu Matthew, olhando para a governanta.
-Vamos, lindinhos -disse a senhora Monaghan levantando a menina e o urso nos braos-.  hora de tirar um soninho.
Quando o trio partiu, Matthew ps uma mo sob o cotovelo de Caroline e a ajudou a levantar-se.
-Obrigado -disse ela-. Teria me gostado estar com Caitlin um momento mais -acrescentou, tentando ocultar sua decepo.
-Ters tempo de sobra no futuro.
-Quer dizer que...? -perguntou ela, sem dar crdito a seus ouvidos.
-Quero dizer que Caitlin gostou de voc.
-Como sabe?
Durante um instante, os olhos verde dourado se suavizaram com um olhar risonho.
-S as pessoas de quem gosta de verdade chegam a conhecer Barnaby. Aceita o trabalho?   
-Sim... claro que sim -exclamou ela com alegria.
-Ento, tomaremos um caf e a levarei para casa dos Amesbury para que recolha suas coisas. Assim poder instalar-se esta tarde e comear a trabalhar amanh.
Caroline quase no podia acreditar em sua boa sorte; mas, inclusive enquanto se congratulava, uma voz de precauo lhe recordava insistentemente que no podia deixar-se cegar pela alegria. Estar ali era perigoso. Cada minuto que passasse em companhia de Matthew aumentava o risco de delatar-se; devia evit-lo o mximo possvel e rezar para que nunca suspeitasse de sua verdadeira identidade.



Captulo 2

 - Boa noite e que Deus te abenzoe -disse Caroline, agasalhando Caitlin e Barnaby. 
- Papi j chegou?
Matthew levava duas semanas de viagem de negcios, e retornava essa noite, bem a tempo para o Natal.
-No, no chegar at muito tarde. Mas se dormir como uma menina boa, quando chegar lhe direi que entre para te dar um beijo.
-Conta-me o conto do sapo? -suplicou Caitlin. Estava cansada e lhe fechavam os olhos.
-Bom, mas s se o escutar com os olhos fechados -concordou Caroline, derretendo-se de amor.
Obediente, a menina fechou os olhos e se meteu o dedo polegar na boca.
Caroline, sentada no beira da cama e fracamente iluminada por um abajur com forma de coelhinho, comeou o conto que, depois de um ms, converteu-se no favorito de Caitlin.
-Havia uma vez um prncipe muito bonito...
-Como se chamava?
-Chamava-se Matthew...
Essa parte havia se convertido em uma rotina; sempre a mesma pergunta, a mesma resposta e os mesmos risinhos porque, a primeira vez, quando Caroline perguntou Como voc acha que se chamava? Caitlin tinha escolhido o nome de Matthew sem duvidar.
-Bom, uma bruxa m tinha convertido ao pobre Matthew em sapo e a nica forma de quebrar o feitio era que uma bela princesa o beijasse. Uma manh, quando saltava pelo bosque.
Era um conto de sua infncia e Caroline o sabia de cor. As palavras lhe soavam relaxantes, familiares, permitiam que sua mente se pusesse a voar... Parecia incrvel que s tivesse transcorrido um ms desde que Matthew insistiu em lev-la a Morningside Heights para pegar suas coisas.
Enquanto ele falava com Lois Amesbury ela fez a bagagem, todas suas posses cabiam em uma mala, e havia se despedido das gmeas. Com a perspectiva de cuidar de Caitlin, despedir-se da famlia no foi to terrvel como temia.
A senhora Monaghan tinha sido a amabilidade em pessoa e Caroline se integrou perfeitamente na vida do apartamento de cobertura. Para seu alvio, no ouviu nenhum comentrio sobre a prometida de Matthew e cada dia tinha estado cheio de uma felicidade que no tinha esperado voltar a encontrar. Embora desse a Caitlin todo o amor e ateno que necessitava, tentava evitar que a menina passasse a depender dela por completo; sabia que o futuro era incerto.
Foi uma bno, ao menos isso se dizia, no ver muito a Matthew depois dos primeiros dias. No princpio ele a vigiava atentamente, como um gato a sua presa, mas quando comprovou que havia ganho o afeto e confiana da menina, dedicou-se a pr ao dia montanhas de trabalho atrasado, antes de empreender sua viagem a Hong Kong.
Sem sua dinmica presena o apartamento parecia vazio, falta de vida, calidez e intensidade. Embora Caroline se sentisse mais segura quando ele estava longe, tambm ansiava v-lo, ouvir sua voz e saber que estava ao alcance da mo...
-E a bela princesa disse Sapo de pernas torcidas, sapinho, abre a porta, suplico-lhe isso.
Caitlin havia adormecido, assim Caroline calou, tirou-lhe a mo da boca brandamente e, depois de agasalh-la, deu-lhe um beijo na bochecha. Acendeu o intercomunicador, para ouvir a menina se ela despertasse, e com um terno sorriso nos lbios se voltou para a porta; assustada, deu um pulo.
A alta figura que se apoiava na soleira se endireitou.
-Sinto muito -desculpou-se Matthew, zombador-. Assustei-te?
-Eu... Ns, no espervamos que chegasse em casa to cedo -gaguejou ela, perguntando-se quanto tempo estava escutando.
Ainda estava usando um terno escuro, de trabalho, e seu fino rosto parecia tenso, como se a viagem tivesse sido muito intensa inclusive para sua energia inesgotvel. Caroline desejou lhe dar um quente abrao de boas-vindas mas, conforme o pensava, notou um brilho perigoso em seus olhos, que a alarmou. Entrou na habitao e ela tentou escorrer-se para fora, mas ele a agarrou pela mo.
-No v...-disse. Agachou-se para dar um beijo na testa de Caitlin e conduziu Caroline de volta ao quarto de brinquedos, onde brilhava uma lmpada-. Temos um assunto pendente.
-Um assunto pendente? -ela, alarmada por sua expresso e pela crescente tenso, tentou soltar-se. S conseguiu que a presso se acentuasse, tanto que acreditou que ia quebrar-lhe os ossos. Ele se aproximou.
-Suponho que a bela princesa tem que beijar ao pobre sapo, no? -sugeriu com voz sedosa, aproximando-se dela.
-No  mas que um conto que agrada a Caitlin -disse ela com rapidez, tentando dominar o pnico que se produziu sentir-se abandonada.
-Ah, mas os contos tm que ter um final feliz, e se tivermos em conta que sou o protagonista...
Seu rosto estava a s uns centmetros de distncia. Ela olhou sua boca, austera mas sensual, e recordou com entristecedora claridade a sensao que podia provocar sobre a sua. Uma traioeira onda de calor percorreu seu corpo.
-No acredito que me possa considerar uma bela princesa -respondeu com muita dificuldade.
-Pode ser que no seja uma princesa, mas sem dvida  o suficientemente bela -disse ele, com tom de aborrecimento.
-Oh, por favor, Matthew... -gemeu ela, aterrorizada do que poderia ocorrer se a tocasse. Ele ignorou sua splica, tomou seu rosto entre as mos e esmagou a boca contra seus lbios.
Sua mente ficou em branco e sentiu que se derretia; se no tivesse estado apoiada contra a parede, teria cado ao cho. O roar de sua pele, seus beijos, isso era o que ansiava desesperadamente.
Quando ele levantou por fim a cabea, ela demorou uns segundos em recuperar a estabilidade e em dar-se conta de que ele respirava com agitao, como se acabasse uma corrida. Sabia que s a tinha beijado deixando-se levar por um inexplicvel ataque de ira, e sentiu grande satisfao ao comprovar que o beijo no o tinha deixado totalmente frio.
-Ora, ora, ora... -balbuciou ele, com certa dureza na voz-. Quem teria suposto que uma bab de aspecto to rgido fosse capaz de tanta paixo?
-Por favor, me deixe partir -suplicou ela, aterrorizada de que sua reao houvesse lhe trazido lembranas que era melhor esquecer-. No tem nenhum direito de me tratar assim.
-Posso alegar que me provocaste? -ps-se a rir, burlando-se dela-. Quer que te prometa no voltar a te tocar?
-Preferiria que o fizesse, senhor Carran.
-Por que to formal? Faz um momento me chamou de Matthew.
-Sinto muito... no era minha inteno... estava nervosa -disse, com uma pontada de medo.
Ele ainda lhe segurava o rosto entre as palmas das mos, e deslizava os polegares de um lado a outro de suas bochechas em um gesto que, mais que uma carcia, era expresso de sua ira.
-Me diga, senhorita Smith, se for impossvel para mim no te tocar, o que far?
Ela desejava responder que partiria, mas a idia de estar longe de l fez que lhe encolhesse o corao.
Iria?
De algum jeito devia ter adivinhado que nunca iria voluntariamente, pensou ela agitada, e estava lhe provocando de propsito.
-No acredito que isso fosse bom para Caitlin. Acaba de acostumar-se a mim, e uma menina de sua idade necessita uma certa estabilidade -apontou.
Como se a meno de Caitlin lhe houvesse devolvido a prudncia, Matthew deixou cair as mos e deu um passo para trs, com a expresso controlada e fria. Caroline se dispunha a correr para sua habitao quando voltou a det-la.
-No desaparea -ordenou-. Quero falar contigo. J jantaste?
-No.
-Ento podemos jantar juntos e falar enquanto comemos.
-Normalmente janto na cozinha, com a senhora Monaghan. Pareceria-lhe estranho que eu...
-Ela no est livre s sextas-feiras de noite?
Era certo. Essa manh tinha comentado sua inteno de passar a noite com sua filha casada.
-Em qualquer caso, se sentir-se mais a gosto na cozinha, reunirei-me ali contigo depois de tomar banho e trocar de roupa -disse Matthew com ironia, sem apartar os olhos do expressivo rosto de Caroline.
Tinha recuperado sua habitual atitude fria e disciplinada, e ela se perguntou o que tinha provocado esse ataque de ira, essa necessidade de domin-la e ridiculariz-la. No podia ser s por ter utilizado seu nome em um conto de fadas. Sentiu um calafrio. Ele nunca tinha tentado dissimular o fato de que no lhe agradava, mas fazia um momento quase pareceu odi-la. E apesar disso a tinha beijado como um homem arrebatado pela paixo.
Na cozinha havia comida preparada, e enquanto esquentava o guisado de frango no microondas e punha a mesa, assaltou-a outra grande dvida: Do que queria falar Matthew? O ms de experincia quase tinha terminado, tinha decidido livrar-se dela? No, no podia ser isso. Caitlin a tinha aceitado, ele sabia e, alm disso, necessitava de uma bab. Ento, o que? Tinha descoberto sua verdadeira identidade? No, nesse caso a teria despedido imediatamente.
Recordava com toda claridade o olhar de dio profundo que lhe dirigiu naquela noite, quando, com os lbios apertados, disse-lhe sem levantar a voz, mas com fria devastadora Quero que saia de minha casa na primeira hora da manh. No quero voltar a ver-te nunca mais. Tremendo, tentou apartar a dolorosa lembrana. Isso ocorreu muito tempo atrs, e pertencia a um passado que procurava esquecer.
O rudo da maaneta a sobressaltou e o corao lhe deu um tombo ao v-lo. Havia colocado uma camisa plo de cor verde oliva e umas calas esportivas; estava muito atraente mas, ao mesmo tempo, impunha com sua presena. Sua forma de mover-se, arrogante e provida de uma graa quase felina, combinada com seus impressionantes olhos, sempre a tinham feito pensar em uma pantera negra. Sentiu que a boca ficava seca.
-Por que s uma taa? -perguntou ele, tirando uma garrafa de vinho branco da geladeira, enquanto ela tirava o guisado do forno.
-No estou acostumado a beber -reps ela.
-J sei que isso  o que disse mas, desta vez, no lhe terei isso em conta -disse ele com os olhos nublados de ira, ou impacincia. Aproximou-se de outra taa e serviu vinho nas duas. Ela ps uma tigela de arroz branco e uma salada sobre a mesa e tomou assento frente a ele. Com toda autoridade, ele encheu os dois pratos.
Durante um momento comeram sem falar at que ela decidiu quebrar o silncio para recuperar um ambiente de normalidade.
-Tiveste uma boa viagem?
-Soa como se fosse uma esposa amorosa -balbuciou ele, com uma careta.
-Sinto muito. S tentava ser agradvel.
-Enquanto que eu fao justamente o contrrio? -apontou ele, cnico. E dando um desses giros repentinos que pareciam destinados a incomod-la, acrescentou-. O dia que te contratei mencionei que Caitlin era filha de meu meio-irmo.
Embora era mais uma afirmao que uma pergunta, exigia uma resposta, assim que ela assentiu com a cabea.
-No me perguntou onde ele est -disse. Viu-a empalidecer at adotar um tom cinzento-. Pergunto-me porqu.
-No me pareceu que fosse de minha incumbncia -reps ela, escutando o eco de sua prpria voz ricocheteando em sua cabea uma e outra vez.
-Direi-lhe isso de qualquer modo. Hoje faz trs anos que morreu em um acidente. Por isso estou de to mau humor...-explicou. Ela o olhou paralisada, incapaz de falar, como se estivesse mortalmente ferida-. Espero que possa me perdoar.
-Sim,  obvio. Sinto muito -conseguiu murmurar Caroline depois do que pareceu uma eternidade.
-Suponho que no tiveste nenhum problema com Caitlin enquanto estive fora -comentou ele, voltando a encher as taas.
-No, nenhum. Sentiu tua falta, certamente, e perguntou por ti todos os dias.
-Chama-me papai?
-Sim
-No a desanimei porque espero poder adot-la.-sem trocar de tom de voz, continuou -Fez algum plano especial para amanh?
-Plano especial?
- o aniversrio de Caitlin.
Caroline tragou saliva, tentando reagir ao golpe.
-Eu, no sabia. Ningum o mencionou -balbuciou e ao ver que o rosto de Matthew se endurecia com ira, acrescentou - Era disso do que querias me falar?
-Entre outras coisas. Mas primeiro falaremos disso.
-Amanh, quando a levar  creche, falarei com as mes de seus amigos e tentarei organizar uma festa pela tarde, com bolo e... -sugeriu.
-No ser necessrio. Antes de sair de viagem, organizei uma festa em um McDonalds, com bolo, mgico e todo o resto. Convidei mais ou menos uma dzia de amigos de Caitlin.
Caroline se sentiu como se a tivesse esbofeteado, e voltou a tragar saliva.
-Sinto que no me mencionasse isso antes... Nem sequer lhe comprei um presente de aniversrio.
-No h nenhuma necessidade de que lhe compre nada.
-Eu gostaria de faz-lo.
-Muito bem. Se quer escolher algo, tome a manh livre. Estarei em casa todo o dia.
-Obrigado -respondeu ela com secura. Depois, como se no tivesse nenhuma importncia, perguntou-. Voc a levar  festa?
-Sim. Tinha pensado em lev-la. Por que? Quer tomar todo o dia livre?
-No, era s uma pergunta.
Caroline se levantou e, dissimulando sua decepo, recolheu os pratos. Quando ele rechaou com um gesto o bolo de chocolate, levou a cafeteira  mesa.
-Tem algum plano para as frias? -perguntou ele enquanto ela enchia as taas.
No.
-Bem. Pensava passar o Natal longe daqui.
-Ento, quer que fique aqui com Caitlin?
-No, quero que as duas venham comigo. Sou dono de um clube de campo e de um centro termal em Clear Lake.
Caroline ficou gelada.
-Estiveste alguma vez em um centro termal?
-No... No sei nada desse tipo de lugares.
-Ento j  hora de que conhea um. Sabes nadar?
-No -mentiu ela, invadida pelo pnico.
-Ento ser a oportunidade perfeita para que aprendas.
A idia de voltar para Clear Lake, onde tinha sido to feliz, encheu-a de angstia.
-No parece que voc goste da idia -comentou Matthew, notando sua reao.
-Paga-me para que cuide de Caitlin, no para que aprenda a nadar -protestou ela, dizendo o primeiro que lhe veio  cabea.
-No ano que vem Caitlin saber nadar;  melhor que tenha experincia para poder acompanh-la.
Caroline se deu conta de que falava sobre o ano seguinte como se contasse com ela, e sentiu uma onda de satisfao.
-Mas algum ter que cuid-la enquanto eu...
<<Algum o far.  um centro familiar. Alm da equipe de profissionais, h enfermeiras e babs. No ano passado inauguramos uma creche e um centro de atividades infantis. Assim as crianas se entretm, as babs habituais podem sair de frias -olhou-a zombador - e os pais desfrutam. O sistema foi minha idia e eu gostaria de comprovar pessoalmente como funciona -com tom sarcstico, acrescentou-: Quer dizer, se no ter nenhuma objeo.
-No, no tenho nenhuma objeo -aceitou ela. O que menos desejava no mundo era acompanhar Matthew a Clear Lake, mas trabalhava para ele e no podia negar-se.
-Bem. Ento est decidido. Pode estar preparada amanh depois da festa? Na idade de Caitlin viajar de carro  muito aborrecido, mas se o fizermos de noite dormir grande parte da viagem.

Quando saram de Nova Iorque, a ltima hora da tarde, levava um bom momento nevando. Flocos brancos cobriam as caladas, aderiam-se a luzes e edifcios, e se acumulavam com forma de chapu pontiagudo sobre os semforos. As estradas estavam limpas e a viagem, no jipe que Matthew tinha preferido a seu Jaguar habitual, foi cmodo e pouco problemtico.
Tal e como ele havia predito, Caitlin, recm banhada e em pijama, dormia profundamente em um saco de dormir. Durante um longo momento, o silncio s se viu interrompido pelo rudo do limpador de pra-brisas.
Caroline olhava os flocos de neve sem v-los na realidade; pensava na festa de aniversrio. Tinha posto em Caitlin um vestido de festa e laos combinando, que ela mesma tinha comprado nessa manh. Quando Matthew chegou para pegar a menina s havia dito Ora, ests preciosa, e isso aliviou seu desgosto.
-Caro pode vir tambm? -perguntou Caitlin.
-Por que te chama de Caro? -espetou ele, com voz desgostada.
-Eu o sugeri -admitiu Caroline.
-No achas  nana seria mais apropriado?
-Pensei que possivelmente tivesse chamado assim a sua av... algumas crianas o fazem -explicou ela, apurada.
-Pode vir, papai?-insistiu Caitlin.
-Quer que ela venha?
A menina assentiu com fora.
-Tem algo melhor a fazer? -perguntou Matthew, pousando seus olhos verdes no rosto de Caroline.
-No, eu adoraria ir -reps ela com entusiasmo; a possibilidade de assistir a fez to feliz que esqueceu sua precauo habitual.
A festa foi um grande xito. Se Caroline tivesse notado a freqncia com que Matthew olhava para ela, em vez de Caitlin, teria se alarmado; mas estava to ensimesmada olhando  menina, que o nico momento difcil foi quando uma das empregadas a chamou senhora Carran e percebeu o olhar gelado de Matthew.
-Voc gostou da festa? -perguntou ele irnico, como se tivesse adivinhado seus pensamentos.
-Oh, sim. Sempre gostei de festas infantis -respondeu ela com rapidez, tentando no mostrar sua emoo-. Ver suas carinhas e suas reaes  fascinante.
-Acreditei que possivelmente, ao ter que estar atenta a tanta crianas, teria-te arrependido de ir.
-Oh, no, eu adoro.
-Ainda acho que deverias ter usado uniforme - falou ele mordaz-. As pessoas acharam que eras a me de Caitlin
Caroline ficou calada.
-J estivestes antes em Clear Lake? -perguntou ele, dando uma sbita mudana a conversa.
-No -mentiu ela, inspirando profundamente.
-A paisagem  preciosa, com bosques, montanhas e mananciais de gua quente.  muito popular entre os nova-yorquinos; por isso decidi construir o centro termal -com um ligeiro tom depreciativo continuou -  Permite que os entediados cidados, ou ao menos os acomodados, relaxem e se deixem mimar em um ambiente pitoresco.
-Soa um pouco... depreciativo.
-O lago me encanta, mas o ambiente do clube sempre me parece abafado, para no dizer claustrofbico. Faz poucos meses puseram a venda uma velha casa que eu gostava e decidi comprar-la. Assim, quando tiver acabado com as reformas, terei um lugar realmente meu onde poderei ir quando necessitar escapar da cidade.
Caroline relaxou e comeou a respirar com regularidade, mas a calma s durou um instante.
-Meu meio-irmo tambm gostava de escapar-se da cidade, mas s ficava em um hotel ao norte do lago. Estava ali de frias quando conheceu a mulher que se converteu em sua esposa. Acredito que tiveram um encontro no vestbulo do hotel. Foi amor a primeira vista, ao menos da parte dele. Estava louco por ela
Caroline, dolorida, perguntou-se por que razo Matthew lhe contava isso. Parecia que estava  atormentando-a de propsito.
-Embora suponha que no tinha nem idia de como era ela em realidade... -acrescentou Matthew com amargura e aborrecimento-. O certo  que a me de Caitlin no tinha nem escrpulos nem moralidade.
Caroline se estremeceu. Estava claro que, apesar do passar do tempo, Matthew ainda odiava a sua cunhada. Ele ps um ponto final  conversa ligando o rdio; o som de Ponte Sobre guas Turbulentas encheu o carro.
Caroline, vazia e emocionalmente esgotada, apoiou a cabea no assento e fechou os olhos. Devia ter adormecido; quando abriu as plpebras entravam no luxuoso centro termal que viu pela primeira vez quatro anos atrs.
Naquela poca havia uma tormenta de neve; agora vislumbrou uma cena de serena beleza. A neve cobria tudo com um suave manto de brancura e alguns flocos revoavam brandamente em sua queda para o cho, mas o cu estava quase limpo. Da zona central partiam vrios caminhos bem iluminados e ante a porta principal havia uma rvore de Natal enorme, enfeitada com bolas brilhantes.

Caroline ficou surpresa quando Matthew, em vez de dirigir-se  entrada principal, tomou um caminho para a esquerda e parasse ante um chal de madeira de um s andar, ligeiramente afastado do resto.
-Algo vai mal? -perguntou ele secamente, ao ver a surpresa em seu rosto.
-No... Imaginava que nos alojaramos em seu apartamento no edifcio principal.
-Como sabe que tenho um apartamento no edifcio principal? -perguntou ele, sua voz soou tranqila mas letal.
-Bom, no, no  que saiba, claro... Mas imaginei...-gaguejou ela, e calou. 
-O certo  que acertaste -admitiu-. Disponho de uma sute, mas s tem dois dormitrios; teria tido que compartilhar um com Caitlin. Ou comigo -Caroline se ruborizou profundamente e ele acrescentou com ironia-. Eu no gostei da primeira opo e acreditei que voc no gostaria da segunda.
Matthew abriu a porta e saiu do carro. Ela, incmoda e alarmada por seu estpido engano, seguiu-o.
Caitlin, firmemente segura ao assento que compartilhava com Barnaby, seguia dormindo. Matthew levantou ambos com cuidado e os levou a chal, a um pequeno quarto com mobilirio infantil. Depois, enquanto Caroline a deitava, saiu para pegar a bagagem.
Caroline acendeu o intercomunicador, baixou a luz do abajur ao mnimo e, depois de beijar a avermelhada bochecha da menina, saiu  bonita zona de estar. No centro da habitao, situado a um nvel mais baixo, havia um sof coberto com suaves almofadas, frente  lareira j acesa. A um lado havia uma moderna cozinha francesa, com uma geladeira bem abastecida.
Caroline tirou-se o casaco e o pendurou atrs de uma das portas corridas do vestbulo, ainda desconcertada. Tinha esperado um bulioso hotel, e a idia de estar ali a ss com Matthew lhe parecia maravilhosa e inquietante ao mesmo tempo; para no dizer perigosa. Desde sua volta de Hong Kong, ele estava muito estranho, sempre parecia a ponto de explodir.
Recordou suas palavras ...se me resultar impossvel no te pr as mos em cima... e tremeu. S tinha que beij-la ou toc-la uma vez, e estaria perdida...
A primeira vez que o viu, embora tivesse uma certa relao com outro homem, apaixonou-se perdidamente por ele. Matthew satisfez seus desejos mais profundos e primrios, e quando recordou a intensidade de sua resposta quando lhe fez amor, sua testa se cobriu de suor e lhe umedeceram as palmas das mos. A intensa atrao tinha sido mtua. Havia-a possudo com urgncia apaixonada, mas sem deixar de ser amvel, carinhoso e profundamente terno.
Entretanto, parecia que, com o passar dos anos Matthew tinha desenvolvido uma veia de crueldade e no duvidou nem por um momento que a destroaria em pedaos, emocionalmente falando, se lhe desse a mnima oportunidade.
A porta se abriu e Matthew entrou carregado de malas, com flocos de neve derretendo-se em seu cabelo escuro. Deixou a mala dela no dormitrio mais prximo ao da menina e depois foi guardar suas coisas e as de Caitlin.
A viagem tinha sido longa e Caroline, supondo que ele gostaria de beber algo, ps gua a ferver. Estava enchendo a cafeteira quando ouviu seus passos. Levantou a vista e se olharam nos olhos em silncio.
-Preparo-te um pouco de jantar? -perguntou nervosa.
-No espero que cuide de mim, alm de cuidar de Caitlin -reps ele com brutalidade.
-No  nenhum incmodo -ruborizou-se ela.
-Nesse caso, obrigado.
Ela preparou uns sanduches de presunto e queijo; ele se sentou no sof com os cotovelos apoiados nos joelhos, contemplando as chamas. Tinha um olhar sombrio e reconcentrado que no augurava nada bom. Caroline colocou a cafeteira e os sanduches em uma bandeja e os levou a mesinha, depois se deu a volta, batendo-se em retirada.
-Aonde vais? -exigiu ele.
-Estou um pouco cansada -reps timidamente-. Pensava ir  cama.
-Sente-se e toma um caf e um sanduche.
-No tenho fome, e o caf me tirar o sono.
-Ento fique e converse comigo -ordenou ele. Caroline se mordeu o lbio e se sentou na outra ponta do sof.
-Do que quer falar? -De ti. Eu gostaria de saber por que vai por a dizendo que  a senhorita Smith.
-Porque  meu nome -respondeu Caroline, quase sem flego.
-Senhorita... por que, se j fostes casada?
- O que te faz pensar que estive casada? -perguntou ela com voz estridente, plida como um lenol.
-Recorda o dia que te levei para pegar sua bagagem? Enquanto fazia a mala, a senhora Amesbury me mostrou tua foto com as gmeas, de quando comeou a trabalhar para eles. Est sentada com uma menina em cada joelho... -explicou. Ela o olhou fixamente, os olhos escuros de medo-. No se v muito o rosto, usa culos e tem a cabea encurvada, mas as mos esto bem enfocadas e se v claramente uma aliana.
Ela a tinha tirado para sempre pouco tempo depois.
-Me conte algo de seu casamento -insistiu ele.
-No h muito que contar -comeou ela, com voz quebradia como o gelo-. Os dois ramos jovens e no durou muito.
-Onde est seu marido agora?
Caroline, a ponto de mentir e dizer que a tinha abandonado, titubeou. E se Lois Amesbury lhe tinha contado o pouco que sabia dela?
-Meu marido morreu -admitiu com esforo.
-Que necessidade tem uma respeitvel viva de apresentar-se como senhorita Smith?
-Decidi esquecer o passado e recuperar meu nome de solteira. Agora, se me perdoar, estou muito cansada -antes que pudesse det-la, ficou em p e partiu apressada.
Embora escapar assim no fosse o mais adequado, no pde evit-lo. Estava emocionalmente exausta, no agentava mais.
Depois de tanta intensidade emocional, a Caroline foi impossvel conciliar o sono e se revolveu na cama at que a alvorada iluminou o cu e se ouviu o primeiro canto dos pssaros. Ento, exausta, dormiu profundamente durante uma hora; despertou com um sol brilhante e o agradvel aroma a caf recm feito.
Tomou banho, colocou umas calas de l justas e um suter de cor creme e foi  rea de estar.
Matthew, com uma toalha atada aos quadris e uma mecha de cabelo escuro sobre a testa, cozinhava o caf da manh enquanto Caitlin compartilhava cereais e fruta com o ursinho Barnaby. 
Lhe deu uma olhada, advertindo seu ar de cansao e as escuras olheiras que rodeavam seus olhos gua-marinha.
-Bom dia -saudou-a com voz relaxada e quase amistosa, parecia que o mau humor do dia anterior havia se dissipado-. Dormiste bem?
-Muito bem, obrigado -mentiu ela-. Sinto no ter despertado antes.
-No  problema -rechaou ele-. Estamos de frias.
Caroline pensou que, se falavam corretamente, ela no o estava. Deu a Caitlin um beijo de bom dia e, ao levantar a cabea, captou o satrico olhar de Matthew e se ruborizou. Entretanto, ele no fez nenhum comentrio.
-Havia-te dito que h uma piscina especial para principiantes? -perguntou-lhe. Ela moveu a cabea negativamente-. Pedi a nosso melhor monitor que esteja disponvel para te dar a primeira aula depois do caf da manh.
-No tenho traje de banho -desculpou-se Caroline, compreendendo imediatamente que isso no serviria.
-Poder escolher um -reps ele com um tom que no admitia rplica-. No se preocupe -acrescentou, cortante-, possivelmente tenha habilidade natural para aprender.
Assim que acabaram de tomar o caf da manh Matthew levou Caroline ao complexo termal, que contava com vrias piscinas azuis, situadas em vrios nveis, assim como com sauna e jacuzzi.
L fora brilhava o sol e fazia um dia precioso. Uma camada de gelo bordeava o lago azul, as rvores pareciam estar recobertas com uma capa aucarada, e a neve cobria as colinas por completo.
Dentro, a salvo dos rigores invernais, o ar era quente e uma praia de areia branca, com palmeiras e arbustos em flor, criava a iluso de uma ilha tropical. Todo o entorno dava uma impresso de sensualidade refinada.
Matthew apresentou Caroline ao bonito monitor que os esperava, deu uma olhada aos trajes de banho que havia em exposio e, enquanto ela escolhia, foi levar Caitlin e Barnaby ao centro de atividades. Quando retornou, ela tinha posto um modesto traje de banho de uma pea, estampado com laranjas e limes sobre fundo branco, e um roupo combinando.
Ela tinha a esperana de que Matthew se unisse aos nadadores experimentados em alguma outra das piscinas, mas no foi assim.
-Pode ir na frente. Reunirei-me contigo assim que me tenha trocado -ordenou ele.
O loiro e bonito monitor, Brett Colyer, saltou dentro da piscina e esperou enquanto ela descia lentamente pelos degraus. Caroline sempre tinha desfrutado da natao, e se animou ao sentir a gua sedosa e fresca a seu redor. Brett comeou a lhe explicar as diferentes braadas. Ela o escutava pela metade, quando chegou Matthew. Havia colocado um traje de banho negro, tinha o cabelo um pouco alvoroado e estava muito atraente. Consciente de que a olhava atentamente, tentou comportar-se como uma principiante e seguir as instrues de Brett: flutuar de costas e depois tentar dar umas braadas.
-Um progresso excelente, senhorita Smith.  voc uma nadadora nata -disse Brett com entusiasmo quando, depois de instrui-la pacientemente durante um momento, conseguiu nadar um pouco.
-Me alegro de ouvi-lo -interveio secamente Matthew, que acabava de nadar um par de voltas-. Acredito que j esta bem por hoje. Obrigado, Brett -acrescentou, depois de dar uma olhada ao relgio. Caroline lhe agradeceu e o professor se afastou da piscina.
-Vou vestir-me e irei ver Caitlin, quero me assegurar de que est passando bem -informou-a Matthew.
-No deveria ser eu a faz-lo? Ao fim e ao cabo, para isso que me paga.
-De momento te pago para que aprenda a nadar. Pode ficar na parte pouco profunda e tentar nadar um par de voltas mais, voltarei em seguida.
Apesar de que nadar tinha evocada muitas lembranas dolorosas, tambm a fez recordar quanto gostava desse esporte. Estava desejando nadar crawl, a velocidade de corrida, mas teve que conformar-se fazendo voltas lentamente.
De repente, ouviu um grito e viu um menino esquadrinhando a gua na zona de saltos. Estava claro que algo ia mal. A monitora loira j no estava ali e no havia ningum perto. Caroline completou a volta a toda velocidade, saiu da piscina e correu para o menino.
-O que acontece?
- meu irmo... -choramingou-. Ela no lhe deixou pular do trampolim mais alto, assim quando ela partiu, voltou s escondidas. Acredito que se machucou, e eu no nado muito bem... -explicou atropeladamente.
Caroline inspirou profundamente e se atirou  gua de cabea. Um menino de uns nove ou dez anos subia  superfcie nesse momento, tossindo e engasgando-se.
-Te deite de costas -ordenou-lhe, segurando-o. O menino obedeceu; Caroline lhe ps uma mo sob o queixo e o rebocou at a beirada-. Ests bem? -perguntou depois de ajud-lo a sair.
-S sem flego -murmurou-. Mas minha me vai me repreender quando souber.
-No achas que mereces uma reprimenda? Fizestes algo muito estpido. Poderias ter te machucado muito.
-Suponho que sim - admitiu arrependido.
-Mas no creio que tua me fique chateada por muito tempo. Se alegrar de que no te tenha acontecido nada - o consolou Caroline, ao ver sua tristeza. E nesse momento apareceram dois meninos um pouco mais velhos.
-Ol, Vincy, ests bem? -perguntou um deles.
-Queres ir ao tobog de gua? -sugeriu o outro.
Caroline, compreendeu que j no fazia nenhuma falta e se dirigiu para a cabine onde havia deixado sua roupa. No princpio, no viu  Matthew. Estava suspirando de alvio quando o descobriu no terrao, olhando-a fixamente. Quanto tempo ele estaria ali? Se havia visto o ocorrido, saberia que havia mentido.
Ele desceu as escadas e se aproximou a grandes passadas. Ela o esperava tensa, temendo o golpe final.
-Ao princpio no te via -disse ele com amabilidade-. Pensei que havias ido trocar de roupa.
-Ia agora mesmo -reps ela, abaixando a cabea para que no lhe visse o rosto-. Caitlin est bem?
-Contente como um passarinho. Lhe perguntei se queria vir para comer com ns mas prefere ficar e  comer com as outras crianas.
-Ah... -ainda que em parte queria estar a ss com Matthew, sabia muito bem o perigo que podia ser.
-J que estamos a ss -disse Matthew suavemente-, sugiro que subamos de carro at o topo e desfrutemos da paisagem.
-Queres vir?
-Sim, claro. H muitos casas l em cima, assim que a estrada est acostumada estar limpa. J ver que a vista do primeiro mirante, embora no est muito acima,  impressionantes. Depois podemos parar no Sky Windows e comer algo -disse Matthew. Caroline, com o corao rapidamente e oscilando entre a alegria e o alarme, no respondeu-. Irei pegar o carro e te esperarei l fora -concluiu ele.
Caroline tomou banho e se vestiu o mais rapidamente possvel, secou-se o cabelo com o secador, enrolou sua sedosa cabeleira castanha em um coque e correu para o carro.



Captulo 3

O ar frio a surpreendeu e sentiu um calafrio. Matthew, que a esperava de p com as mos nos bolsos, deu-se conta e abriu rapidamente a porta de passageiro. Tinha deixado o motor ligado e o carro estava quente quando iniciaram a viagem. O jipe subia pela ladeira nevada sem nenhuma dificuldade.
Quando chegaram ao mirante, pde comprovar que a vista, tal e como Matthew tinha prometido, era impressionante. Mas Caroline, muito atenta ao homem que havia ao seu lado e sufocada de excitao, quase no pde desfrutar dela.
Tomando seu tempo, seguiram pela estrada at chegar ao complexo do Sky Windows, situado em uma espcie de patamar. Alm do restaurante giratrio, contava com uma zona de butiques e bares e com um largo terrao, onde os veranistas podiam sentar-se ao sol e desfrutar de uma taa de vinho. Nesse momento o terrao estava deserto e coberto por um tapete de neve.
Quando saram do carro, Caroline notou que a luminosidade da manh estava desaparecendo e que o cu comeava a cobrir-se de nuvens pelo horizonte.
O restaurante circular parecia cheio mas, depois de saudar Matthew por seu nome, o chefe dos garons os conduziu a uma mesa reservada, junto  janela.
-Quer um Martini seco? -ofereceu Matthew. Perguntando-se por que teria escolhido precisamente essa bebida, Caroline esteve a ponto de recha-la, mas pensou melhor. E se lhe estava estendendo uma armadilha?
-Eu adoraria -reps com calma.
-Claro, que se preferir outra coisa... -Matthew arqueou uma sobrancelha ligeiramente, como se tivesse notado que duvidava-. Uma vez conheci algum que odiava o vermute.
-No, no, eu adoro -assegurou ela, falsamente.
As bebidas chegaram rapidamente e, tentando no estremecer de asco, Caroline deu uns goles  sua enquanto estudavam o menu e pediam a comida.
O tom de Matthew ao dizer  Uma vez conheci algum que odiava o vermute a tinha intranqilizado ainda mais. Parecia que tentava lhe fazer morder o anzol. Tensa e preocupada, sentindo-se como se fosse uma pea de uma intensa partida de xadrez ou de uma batalha de inteligncia, esperava que ele fizesse o seguinte movimento.
Enquanto comiam, Matthew, como se notasse a ansiedade de sua acompanhante, manteve a conversa leve e impessoal, falando com conhecimento sobre a zona e sua instvel climatologia.
-Esta zona tem um clima muito distinto da parte leste... -interrompeu-se e perguntou-. No estou te aborrecendo?
Ela negou com a cabea. Relaxada e feliz por poder escutar sua atraente voz e observar seu magro e anguloso rosto, teria seguido ali sentada toda uma vida.
-Por que esta zona em particular?
-Porque, como Buffalo, est perto de um lago. s vezes sofremos tempestades de neve inesperadas; tormentas de neve que obstruem as estradas, isolam s pessoas em suas casas e paralisam tudo...                
Inconscientemente, ficou rgida. Conhecia essas tormentas de neve. Uma delas tinha mudado sua vida por completo. Nesse momento chegou o caf, e ela aproveitou a oportunidade para trocar de tema.
-Viveste sempre em Nova Iorque?
-Meu pai trabalhava no servio diplomtico e quando era pequeno viajvamos muito. Nasci em Washington, eduquei-me em Oxford e vivi em Paris uma temporada. Quando voltei para os Estados Unidos, descobri que eu gostava desta zona. Agora, claro, venho com freqncia. Trouxe a minha namorada vrias vezes -acrescentou com despreocupao-, sobretudo no inverno. Sara  uma excelente esquiadora.
Falava como se Sara ainda fosse parte de sua vida. Caroline, com a taa na mo, ficou paralisada. Estava trabalhando um ms para Matthew e era a primeira vez que mencionava Sara.
-Por que essa cara de surpresa? -perguntou ele, com um brilho em seus olhos verdes.
-No sabia que estavas comprometido -disse ela com dificuldade.
-Na original entrevista de trabalho que tivemos,  deu-me a impresso de que contava com que fosse casado.
-Bom, eu... suponho que eu imaginei isso porque a senhora Amesbury me disse que eras divorciado ou vivo...
-Como j disse ento, nem um nem outro. De fato, j nem sequer estou comprometido
Caroline sentiu um alvio doentio. No estava segura de poder trabalhar para ele e v-lo casado com outra mulher, nem sequer para estar com Caitlin.
-Tinha planos de casamento mas minha namorada, quer dizer, minha ex-namorada, mudou de idia umas semanas antes. Pode ser que uma das razes fosse que eu queria adotar Caitlin quando casssemos. Possivelmente, no ltimo momento, Sara decidiu que no podia cuidar da filha de outra mulher.
- No, impossvel, no podia ter sido isso!
-Parece que no ests de acordo. No esquea que nem todo mundo gosta de crianas tanto como a ti -disse, custico. Caroline, profundamente ferida, no interveio-.  obvio, a av de Caitlin a queria com loucura.
-Muito... -franziu o cenho-. Grace adorava a seu filho e quando ele morreu s ficou Caitlin, assim, em certo sentido, asfixiava  menina com seus cuidados. Inclusive depois de sofrer o primeiro enfarte, quando lhe recomendaram que tomasse as coisas com tranqilidade, negou-se a contratar uma bab e insistiu em ocupar-se ela sozinha de tudo.
-Caitlin deve sentir a falta dela -disse Caroline com voz grave.
-As crianas tm muita capacidade de recuperao, graas a Deus, e Caitlin  bastante extrovertida e independente, mas acredito que j sofreu muitas mudanas -terminou a taa de caf antes de continuar-. Quando te perguntei o que considerava o mais importante na vida de uma crianas, disse: Segurana e carinho.... Estou de acordo contigo e, a partir de agora, custe o que custar -seu rosto se escureceu-, penso dar a ela toda a estabilidade que necessita...
-Querem mais caf, senhores? -perguntou um garom.
-No obrigado -Caroline negou com a cabea.
-No, a conta, por favor -Matthew olhou seu relgio de pulso e em seguida a Caroline-. Mais melhor  que nos ponhamos em marcha, ou no poderemos ver nada mais antes de que escurea.
Enquanto conversavam o restaurante se foi esvaziando, e quando Matthew pagou a conta eram quase os ltimos.
Em contraste com a brilhante iluminao do edifcio, o cu estava cinza e triste. Levantou-se vento, e uma rajada de neve lhes golpeou o rosto enquanto iam para o carro. Os poucos carros que saam do estacionamento se dirigiam para baixo.
-Possivelmente seja melhor que voltemos j -sugeriu ela com apreenso.
-Acredito que temos tempo de chegar a Prospect Point. De l se pode ver a cascata Bright Angel -disse ele, olhando o cu plmbeo. Embora intranqila, ela se disse que seria uma tolice discutir; Matthew conhecia bem o clima da zona.
Quando chegaram a sua meta no havia um s carro  vista. O cu parecia ainda mais ameaador e a estrada estava coberta com uma capa de neve recm cada. Mas, inclusive atravs da neve, que caa com fora, Bright Angel estava espetacular. Caroline, sob o guarda-chuva que Matthew tirou do carro, ficou ensimesmada.
-Ficaria aqui durante horas, mas deve ser tarde e estou comeando a ficar com frio -disse, e comearam a lhe bater os dentes.
-Sim, acredito que  hora de descermos -Matthew lhe abriu a porta do carro e a ajudou a subir, depois fechou o guarda-chuva e o jogou no porta-malas.
O caminho se fez muito comprido, o vento se converteu em uma tempestade de neve. Multido de flocos revoavam ante as luzes do carro e o limpador de pra-brisas, rpido e potente, no podia manter o vidro limpo.
-Acredito que est piorando -Caroline no podia ocultar seu desgosto.
- verdade -Matthew estalou a lngua-. Mas no h razo para preocupar-se.
Ele soava completamente despreocupado.
-No seria mais seguro parar? -insistiu ela, recordando o precipcio de mil e oitocentos metros que ladeava a estrada.
-No na estrada. Se a tormenta continuar, poderamos ficar presos no carro e morrer congelados.
-No podemos nos refugiar em algum lugar? 
- isso que eu pretendo. Quase chegamos. 
-No Sky Windows?
-No. Fecham todo o complexo durante a noite. 
-Oh... H um hotel na estrada? 
-Temo que no  nada to adequado.
-Onde ento?
-Recorda que te contei que tinha comprado uma casa nesta zona? E que a estava reformando...? Sim,
aqui estamos...
O carro abandonou a estrada e comeou a subir. Caroline no via mais que neve, mas depois de percorrer uns cem metros, Matthew girou e parou o carro. No se via nenhuma luz.
-Quer dizer que no h ningum? -a voz de Caroline soou estridente e assustada.
-De momento no. Contratei a governanta anterior e a seu marido, mas esto de viagem, vo passar o Natal e Ano Novo com seus familiares. Tinha operrios at ontem; esto instalando um sistema de calefao novo, assim que o lugar parecer um caos. Mas ao menos estaremos resguardados durante a noite.
-Mas, o que acontecer com Caitlin? -perguntou Caroline preocupada. No pde evitar que sua voz refletisse o pnico que lhe produzia ficar isolada com Matthew em uma casa vazia.
-No te preocupes; a cuidaram bem. Deixei instrues para que, se parecesse que amos chegar tarde, a bab de mais experincia, Gladys, a deitasse e ficasse com ela at a nossa volta.
Saiu do carro, ajudou Caroline a descer e, rodeando-a com um brao, a conduziu at o alpendre. Se ouviu o barulho de uma chave, se acendeu uma luz e entraram em um amplo vestbulo. A casa, que parecia bastante grande, era de um s piso.
-Por aqui -a guiou.
Chegaram a uma espaosa sala com cozinha, comodamente equipado. Ao fundo havia um aquecedor a lenha. Apesar de que se notava que estavam fazendo obras, a primeira impresso era muito acolhedora.
Matthew se aproximou do aquecedor, acendeu um fsforo e comeou a alimentar o fogo. Ela ficou parada, indecisa, e ele se voltou e a olhou.
-Logo se aquecer, podes tirar o casaco -disse. Ela obedeceu, e ele aproximou uma poltrona do aquecedor -. Sente aqui -sugeriu-. Enquanto vejo quais dormitrios esto habitveis prepararei uma bebida quente. Ests com cara de quem precisa de uma.
Se sentiu presa e indefesa. Tiritando, considerou o estranho que era que, apesar do passar do tempo e de quanto ela havia mudado fisicamente, seguia existindo uma forte qumica sexual entre eles. A teve desde o primeiro momento; intensa e irresistvel, havia perdido a razo, e todas as reservas. Mas enquanto ele s sentiu desejo, ela o olhou e se apaixonou perdidamente.
Por Tony, em troca, nunca conseguiu sentir mais que afeto e uma certa pena. Havia tentado no recordar o passado, mas de repente no pode mais, suas recordaes a invadiram como uma mar...
Recordou sua graduao, e sua solido depois da morte de seus pais. Saiu da universidade sem ter um lar e quase sem dinheiro, mas convencida de que desejava ser bab.
Desde menina sempre a haviam chamado de Kate e seu nome completo, Caroline Caitlin Smith-Hunter, lhe pareceu muito comprido quando comeou buscar trabalho. Decidiu esquecer o Smith, o sobrenome de solteira de sua me, e chamar-se Kate Hunter.
Kate descobriu muito cedo que no era fcil encontrar trabalho. Embora muitas famlias solicitavam uma bab, todas queriam a algum com experincia. Uma amiga da faculdade lhe ofereceu alojamento temporrio mas, como se sentia em dvida e o apartamento era minsculo, ao final decidiu aceitar algo.
Ofereceram-lhe um posto como administradora no Hotel Gresham, em Adoga, ao norte de Clear Lake, e Kate se mudou para l. Ali, uma manh de novembro, tropeou-se com o homem mais bonito e romntico que j tinha conhecido.
Magro, com o cabelo preto e encaracolado, olhos cor de avel, e um rosto fino e sensvel, parecia um poeta. Apresentou-se como Tony Newman e a convidou para almoar. Se deram muito bem e nessa noite, quando ela terminou de trabalhar, levou-a ao teatro. Esse foi o primeiro dia de muitos. Embora ele vivia e trabalhava na cidade de Nova Iorque, viajava ao norte quase todos os fins de semana, porque gostava de escapar da cidade.
Logo descobriu que era veemente e nervoso, e que tinha uma veia profundamente melanclica, que ocultava sob seu encanto superficial. Isso fazia que fosse ainda mais fascinante e misterioso.
Quando chegaram as frias natalinas, Tony reservou uma habitao no hotel para que pudessem passar juntos o maior tempo possvel; em janeiro lhe pediu que se casasse com ele. Ela o rechaou com a desculpa de que era muito cedo para formalizar a relao, mas ele continuou pressionando-a por carta e por telefone, cada vez com mais insistncia. Durante sua visita seguinte lhe deixou claro que no gostava que a importunasse.
-Sinto muito, Kate, tentei ser paciente, de verdade...-desculpou-se ele.
Em um sentido, ao menos, era verdade e o aborrecimento de Kate desapareceu. Alm de ser uma agradvel companhia, era amvel, carinhoso e a respeitava. Tinha-a abraado e beijado muitas vezes mas, a diferena de muitos dos homens que tinha conhecido, nunca tinha tentado que fosse com ele  cama. Estava-lhe agradecida por isso; porque, depois de uma experincia muito desagradvel quando s tinha dezessete anos, receava os homens.
-Se ao menos concordasse a te comprometer comigo -suplicou Tony. Tinham mais ou menos a mesma altura e Tony apoiou a testa contra a dela. Ela sentiu uma ternura quase maternal, mas no estava disposta a aceitar enquanto a insegurana a dominasse.
-Prefiro no me comprometer at estar segura de meus sentimentos.
-Se depois decidir mudar de idia, entenderei-o.
-Acredito que  melhor esperar. Entre outras coisas, mal nos conhecemos -objetou ela, movendo brandamente a cabea de lado a lado.
-Como podemos nos conhecer melhor quando vivemos to longe um do outro? -queixou-se ele-. Se viesse a Nova Iorque... Uma vez me disse que voc gostava de Nova Iorque.
-Eu gosto. Mas necessito de um trabalho e  um lugar onde viver.
-Escuta. Grandalho, meu irmo mais velho,   construtor, e suas posses na cidade so considerveis... -Tony, que dava a impresso de estar ressentido com seu irmo e de reverenciar-lo ao mesmo tempo, sempre o chamava de Grandalho -. E se lhe peo que  encontre um trabalho para ti em um de seus hotis ou em seus escritrios? Eu trabalho para ele, inclusive poderamos conseguir trabalhar juntos se ele...
-No, no me parece bem -interrompeu ela com deciso-. Se voltar a Nova York, eu gostaria de encontrar algo eu mesma.
-Quando tens o prximo fim de semana livre? -perguntou Tony depois de dar um suspiro.
-O final de semana que vem.
-Ento vem para conhecer a minha me -disse, tomando-a pela mo. - Grandalho est viajando, assim que  uma oportunidade ideal. Podes ficar dois ou trs dias e assim os conhecers.
-Mas, tua me... ?
-Minha me ficar encantada! Desde que acabei a universidade est me chateando para que eu encontre uma noiva -se apressou a contestar. Kate o olhou em  dvida-. De verdade,  como a maioria das mes. Est desejando que me case e lhe d netos. Vem, por favor. Receber-te com os braos abertos.
-De acordo -concordou Kate, sem convico-. Mas no deixe que ela faa uma idia equivocada.  s uma visita amistosa. No prometo nada.
Na sexta-feira seguinte ia a caminho de Nova Iorque. O senhor Wallace, diretor do hotel, e sua esposa, a chefe de pessoal, iam visitar seu filho, e se ofereceram a lev-la.
Estavam no fim de maro mas o inverno tinha sido especialmente rigoroso e ainda fazia muito frio. A viagem foi muito boa at que comeou a nevar copiosamente. Levantou-se um forte vento e em questo de minutos se encontraram no meio de uma tormenta. Quase tinha escurecido, e as luzes do carro no chegavam a penetrar a densa cortina de neve. De repente, o senhor Wallace se desviou para a direita.
-Acredito que esta  a estrada que leva a centro termal de Clear Lake -explicou, interrompendo o protesto de sua esposa-. Se o for, pode ser que encontremos uma habitao para passar a noite.
-E se no for? -perguntou a senhora Wallace com voz tremente. Ningum respondeu.
Tinham avanado ao redor de um quilmetro quando viram luzes atravs da neve e todos suspiraram aliviados ao chegar  entrada do que parecia o edifcio principal. Tiraram a bagagem e entraram. A rea da recepo era imensa; o cho estava atapetado, havia inumerveis tigelas cheias de flores frescas, mveis opulentos e vrios lustres.
O senhor Wallace explicou a situao a elegante mulher que se encontrava atrs do balco circular da recepo.
-Assim, se voc tivesse uma habitao para a senhorita Hunter e outra para ns...
-Posso lhe oferecer uma habitao dupla para voc e para sua esposa, senhor Wallace, mas temo que no temos nada livre para voc, senhorita Hunter. Mas, por certo, pode utilizar um sof de uma das salas de estar.
Kate estava a ponto de lhe agradecer e aceitar; quando ouviu uma voz grave e categrica a suas costas que se dirigia a recepcionista.
-Acredito que poderemos lhe oferecer algo melhor, senhorita Deering.
Kate se deu a volta e viu um homem alto, de costas largas, vestido com roupa informal de bom corte. Tinha o cabelo preto e seus olhos, beirados por espesso clios, eram de uma assombrosa cor verde dourada. A rigor, no podia dizer-se que era bonito, mas a dureza de suas feies fazia que seu rosto fosse extremamente atraente, tanto que Kate no podia deixar de olh-lo fascinada.
Alm de ser de aparncia agradvel, tinha um ar de poder e autoridade inata que, como ela no demorou para comprovar, atuava como um potente afrodisaco.
-Sou Matthew Carran -apresentou-se, e se voltou para a recepcionista-. Por favor, se encarregue de que algum leve o senhor e a senhora Wallace a sua habitao.
-Voc me acompanha, senhorita Hunter? -sugeriu. Agachou-se para recolher sua mala e quando se ergueu seus olhos se encontraram e sorriu.
O feitio foi instantneo, parecia coisa de bruxa. Se o era, ele tambm tinha cado sob seu feitio; ela o notou nos olhos.
Confundida e enrubescida, seguiu-o at uma porta que, ao abrir-se, deu passagem a uma luxuosa sute. Entraram em uma elegante sala de estar, e Kate reconheceu um dos quadros, um Monet.
-Isto parece um apartamento particular.
-Sim .
-Seu? -adivinhou.
-Correto -disse ele com um grande sorriso que quase a derreteu.
A razo a preveniu de que, excetuando uma atrao passageira, Matthew Carran no poderia interessar-se por ela; repreendeu-se duramente por estar comportando-se como uma tola e tentou recuperar o controle. Em primeiro lugar, ele devia ter quase trinta anos, assim era muito provvel que estivesse casado. Era uma idia francamente desagradvel, mas que no podia ignorar.
-Sua esposa no se incomodar de receber a um hspede inesperado?-disse, sem poder evit-lo.
-No estou casado -respondeu ele, movendo a cabea de lado a lado.
-Suponho que s o diretor do centro, no? -perguntou rapidamente, para ocultar o alvio que lhe produziu
sua resposta.
-Sou o dono -replicou com simplicidade.
-Ah -exclamou. Devia ser muito rico. Isso o situava por completo fora de seu nvel. Tragando a desiluso, Kate decidiu que era melhor sab-lo. Assim no se faria falsas iluses de chegar a conhec-lo melhor.
Ele abriu uma porta que dava a um dormitrio muito bem mobiliado, com banheiro.
-Acredito que se sentir cmoda aqui.
-No me estar cedendo sua prpria habitao? -perguntou ela incmoda.
-No. Meu dormitrio  o que est a seguir -com um brilho nos olhos, acrescentou-. Mas o seu tem uma boa tranca.
-No acredito que precise utiliz-lo -replicou ela com calma, ao compreender que tentava tomar o cabelo.
-Tens sotaque britnico no?
-Sim, nasci na Inglaterra, mas vivo nos Estados Unidos h alguns anos.
-Imagino que o temporal lhes pegou desprevenidos. De onde vm?
-De Adoga, amos a Nova Iorque. Mas teria sido impossvel chegar esta noite.
-E tambm amanh, temo. Teremos um temporal. Acabo de ouvir que j h muitas estradas fechadas e algumas linhas telefnicas no funcionam. Tudo vai ficar paralisado ao menos vinte e quatro horas.
Deveria haver-se sentido incomodada, zangada por estragar seu fim de semana. Em troca, sentiu uma agradvel excitao ao pensar que poderia ficar no luxuoso apartamento de Matthew Carran um dia mais.
-Ento  uma sorte que no nos tenhamos ficado presos no carro -comentou atropeladamente, ao notar que ele a olhava.
-Todos os invernos ocorre a algum. Se tiverem tomado as precaues adequadas, resgatam-nos a tempo -com o rosto srio acrescentou-, mas a ajuda est acostumada chegar muito tarde para os pouco precavidos.
-Acredito que o senhor Wallace est acostumado a viajar no inverno -Kate se estremeceu-. Mesmo assim, tivemos muita sorte de estar perto daqui.
-Certamente que sim -assentiu ele-. Agora, se me perdoar, tenho alguns assuntos pendentes, assim deixarei que se instale -foi para a porta e uma vez ali se voltou-. Quer jantar comigo esta noite?
-Obrigado, eu gostaria -disse ela, com o corao desbocado.
-Enquanto isso, pode utilizar as instalaes do centro. Possivelmente gostaria de relaxar-se no salo de beleza: uma sesso de aromaterapia ou uma massagem?
-Bom, no sei...
-Se no lhe atraem esse tipo de coisas e preferir fazer um pouco de exerccio, h uma academia muito bem equipada e vrias piscinas.
-Nadar um pouco seria maravilhoso, mas no trouxe traje de banho -lamentou-se ela.
-Verei o que posso fazer -sorriu, e saiu da habitao.
Foi como se apagasse a luz. Mas iam jantar juntos. S essa idia a consolou e a encheu de jbilo.



Captulo 4

Uns cinco minutos depois estava na salinha, olhando os livros das estantes, quando bateram na porta. Abriu-a e se encontrou com um jovem que tinha um pequeno pacote na mo.
-O senhor Carran me pediu que lhe trouxesse isto, senhorita Hunter -disse, e sem lhe dar tempo de que o agradecesse, partiu.
Dentro do pacote encontrou um precioso traje de banho preto, exatamente de seu tamanho. Perguntando-se onde o teria encontrado, foi tirar uma toalha da mala.
De caminho  piscina comprovou que era um centro grande com todo tipo de comodidades, entre as quais se inclua uma fileira de lojas especializadas em artigos de luxo e de presente. A vitrine de uma boutique mostrava uma coleo de trajes de banho de desenho parecidos com o que levava consigo. Eram impressionantemente caros.
A academia parecia estar muito concorrida mas, em troca, no havia muita gente na rea das piscinas. Kate se trocou em uma das cabines e quase deu um pulo quando se viu no espelho. O traje de banho se adaptava a sua magra mas curvilnea figura com perfeio, e ficava sensacional.
Aproximou-se da piscina grande, atirou-se  gua e comeou a nadar a braadas. Tinha percorrido um tero de comprimento quando sentiu uma ligeira salpicadura e viu uma escura cabea junto a ela.
-Decidi me esquecer dos negcios por hoje e reunir-me com voc -disse a atraente voz de Matthew Carran.
Ela se estremeceu de alegria.
-Quer dizer, se no h nenhuma objeo, senhorita Hunter.
- obvio que no -disse ela, com a respirao agitada-. No preferiria me chamar de Kate?
-Estarei encantado, se voc me chamar de Matthew.
-Obrigado por me emprestar o traje de banho -disse ela.
-No  um emprstimo,  um presente...
-Obrigado, mas no posso aceitar... -comeou ela, acalorada.
- cortesia do centro termal.
-Oh... Bom, muito obrigado.
-Tambm oferecemos trajes de banho ao senhor e  senhora Wallace mas, como no so bons nadadores, preferiram um convite para jantar no restaurante -anunciou ele, notando que ainda parecia um pouco incmoda.
Nadaram em silncio durante um momento, at que ele deu uma olhada a seu relgio submersvel.
-Gostaria de descansar um momento e tomar uma taa antes de ir jantar?
-Sim, estaria muito bem -assentiu ela, nadando para os degraus.
Matthew nadou para a beira da piscina e saiu com impulso. Quando ela terminou de subir os degraus a esperava com um par de roupes brancos.
Ela notou, nervosa, que tinha um corpo forte, esbelto e bem formado; era largo de costas e estreito de quadris. Sua pele azeitonada parecia suave, e tinha um ligeiro plo escuro nas pernas e no peito.
Dirigiram-se a uma mesa a beira da piscina e assim que se sentaram um garom se aproximou apressadamente.
-O que gostaria, Kate? -perguntou Matthew. Ao v-la duvidar, sugeriu- Um Martini seco, possivelmente?
-No obrigado. Eu gosto de genebra mas odeio o vermute.
-Nesse caso, que tal um gim tnica?
-Perfeito.
Enquanto bebiam a taa relaxante, ele fixou o olhar em sua mo esquerda, nua.
-Pelo que vejo, no ests comprometida.
No.
-Nem sequer sem que seja oficial? Ela negou com a cabea.
-Ento vive com algum?
-No.
-No h ningum... digamos... especial? Ela duvidou, perguntando-se se devia tentar explicar-lhe sobre Tony, mas decidiu no fazer-lo.
-No, no h ningum -contestou.
Sem dar-se conta, na ltima hora havia servido para aclarar todas suas dvidas e incertezas. Nunca havia sentido, nem sentiria, uma atrao como aquela por Tony. Passasse o que passasse entre Matthew e ela, sabia com segurana que nunca se casaria com Tony; tinha que dizer-lo o quanto antes. Provavelmente deveria chamar-lhe por telefone.
Mas, no, Matthew havia dito que os telefones no funcionavam e, depois, no podia ser to covarde. Quando as estradas estivessem limpas devia ir ver a Tony e dizer-lo frente a frente. Ainda que nunca lhe havia prometido nada, sentiu pena e certa culpa por ter que ferir-lo.
Outra taa? -ofereceu Matthew-. Ou preferes dar outro mergulho? -sua voz soava despreocupada e feliz, como se a resposta que lhe havia dado fosse justo a que desejava. Kate sentiu que seu nimo se levantava de todo e se tirou o roupo.
-Tartaruga  o ltimo que chegar ao outro lado! - o desfiou.
Os dois romperam a gua ao mesmo tempo e comearam a nadar crawl. Kate havia sido a campe de sua faculdade e, embora Matthew ganhou, lhe agradou ver respeito e admirao em seu olhar.
-So quase sete e meia. Ests com vontade de jantar? -perguntou ele, depois de nadar umas quantas voltas a seu lado. Kate assentiu e ele saiu da piscina e lhe ofereceu a mo. Foi como receber uma descarga eltrica.
De p, ela lhe chegava ao queixo. Levantou a vista at ele. Diminutas gotas de gua brilhavam em seus escuros e espessos clios. Antes que pudesse olhar para outro lado, seus brilhantes olhos verde dourado se encontraram com os dela. A magia foi mtua. ficaram parados, olhando-se aos olhos como se estivessem enfeitiados, durante o que pareceu uma eternidade.
Finalmente foi Matthew quem rompeu o silncio.
-O balnerio est lotado e os restaurantes estaro cheios, gostarias que jantssemos em meu apartamento? -sugeriu, com voz rouca.
No princpio parecia uma pergunta simples mas, apesar de estar totalmente encantada, Kate se deu conta de que as conotaes iam muito mais  frente. Nem por um momento lhe ocorreu dizer que no. Era o adequado. Era inevitvel.
-Sim -disse, com a voz to rouca como ele. Compreendeu, com alegria, que podia comprometer-se ao que fosse sem hesitar.
Kate se vestiu e passou um pente pela cabeleira ondulada e voltaram juntos para sua sute. Era hora de jantar, e os amplos corredores estavam cheios de gente que ia e vinha dos diversos restaurantes e de pequenos grupos que comentavam a inclemncia do tempo.
Para Kate e Matthew, imersos em sua prpria nuvem, era como se no existisse ningum mais; embora caminhavam discretamente separados, nesse momento no havia amantes mais unidos que eles dois. De vez em quando sorriam um ao outro, sorrisos de cumplicidade, como se compartilhassem um segredo maravilhoso.
Quando chegaram  privacidade do apartamento, ele a abraou e a beijou com suavidade, selando o pacto que no tinham chegado a expressar com palavras. O roar de seus lbios foi to embriagador como o vinho, e teria estado disposta a prolongar o abrao, mas ele a soltou depois de um beijo.
Aturdida de felicidade, se aconchegou no sof enquanto ele fechava as cortinas e punha uma msica suave.
Encomendaram o jantar e pouco depois e se sentaram frente ao fogo, com os pratos apoiados nos joelhos.
-Quem so os Wallace? Como  que viaja com eles? -perguntou ele enquanto jantavam.
Ela o explicou, sem mencionar a razo pela qual ia a Nova Iorque. Depois, com desgosto, quase com sentimento de culpa, perguntou-se se deveria contar-lhe tudo. No podia suportar a idia de que se arruinasse a noite. Quando lhe perguntou se tinha noivo, ela no tinha sido totalmente honesta, e se ele se zangasse porque lhe tivesse mentido, embora s fosse por omisso? Enquanto hesitava, resistindo a danificar esse momento to feliz, ele trocou de tema, e perdeu a oportunidade de explicar-se.
Terminaram de jantar e Matthew apagou as luzes, sentou-se junto a ela e lhe passou o brao pelos ombros. Seguiram ali, olhando danar as chamas e escutando o dueto amoroso de Madame Butterfly. Quando a bela e emotiva msica finalizou, ele a pegou pela mo e, como se fosse o mais natural do mundo, levou-a para a cama.
Em seus anos de universidade, Kate tinha tido vrios namorados, mas nunca um amante. Nem sequer se havia sentido tentada. Agora, embora era a inocncia personificada, seguiu-o desejosa, disposta a entregar-se por completo.
Ele, por sua parte, fez-lhe amor no s com paixo, mas tambm  com ternura e com uma especial considerao por seus sentimentos de mulher. Depois, ainda entre seus braos e com a cabea apoiada em seu ombro, Kate teve a certeza de que nunca tinha sido to feliz em toda sua vida.
Na manh seguinte, despertou com a mesma sensao de bem-estar e plenitude; quando lhe ofereceu seus braos, entregou-se a eles como se nunca tivesse desejado estar em outro lugar.
Tomaram o caf da manh tarde e com tranqilidade, depois ligaram a televiso para ver um boletim informativo sobre o estado das estradas e um relatrio meteorolgico que confirmou que tinha deixado de nevar e que o vento tinha diminudo.
-Assim que limpem as estradas, eu tambm tenho que ir a Nova Iorque. Tenho uma reunio importante em Wall Street na segunda-feira... -disse Matthew com tom de pena-. Mas duvido que haja muito movimento ainda -acrescentou, mais alegre.
Logo ficou claro que tinha razo, no havia nada de movimento, e provavelmente a situao no mudaria em vinte e quatro horas.
-Como temos outro dia de graa, sugiro que o aproveitemos ao mximo -disse ele sorridente- J andaste alguma vez em um patim de neve a motor?
-No.
-Me acredite,  divertido.
-Acredito em ti -assegurou-lhe.
-Queres prov-lo?
-Certamente que sim.
-Ento, vamos -convidou ele, com voz jubilosa.
Ao afirmar que era divertido Matthew havia simplificado e ela, encantada, desfrutou como peixe na gua. Sentada atrs dele, no pequeno mas potente patim de neve, ria a gargalhadas enquanto atravessavam o bosque ao que parecia uma velocidade vertiginosa.
Na ltima hora da tarde, depois de um dia de idlio, voltaram e se sentaram no cho diante do fogo. Torraram bolos de po, que untaram profusamente com manteiga antes de com-los.
Kate, chupando os dedos gordurosos, afirmou que essa comida simples era mais deliciosa que o salmo defumado ou o caviar e, rindo-se, Matthew confirmou sua opinio. Se o dia tinha sido maravilhoso, a noite foi ainda mais; por isso, quando despertou pela manh ficou desiludida ao descobrir que estava sozinha na cama. Havia um recado na mesinha que leu imediatamente.

Kate. Querida.
Sa na primeira hora para me unir na busca de um esquiador que se perdeu. Quando voltar temos que falar. Matthew.

Perguntando-se do que quereria falar com ela, e desejando que fosse o que esperava, tomou banho e se vestiu. Acabava de passar o pente por seus curtos cachos loiros quando bateram na porta. Era o mesmo jovem que lhe tinha entregue o traje de banho.
-Bom dia, senhorita Hunter. O senhor Wallace me pediu que lhe comunique que as estradas principais esto limpas e que estaro preparados para partir em dez minutos.
-Oh... -exclamou ela desconcertada- Obrigado. Por favor, lhe diga que me reunirei com eles em seguida.
Para no lhes fazer esperar, encheu a mala de qualquer maneira e escreveu uma nota a Matthew para lhe explicar que se ia: 
... mas estarei de volta a Adoga na tera-feira pela tarde. Acrescentou com carinho, Kate e seu nmero de telefone.
Entristeceu-a no despedir-se em pessoa, mas o melhor seria comunicar a verdade a Tony o quanto antes possvel. Depois, se o que Matthew pretendia era falar de um possvel futuro em comum, poderia escut-lo com a conscincia tranqila.
Tinham passado as mquina de limpar neve e, embora perigosa, a rota estava limpa. S pararam brevemente para comer e teriam chegado a Nova Iorque na primeira hora da tarde se no fosse porque, nos subrbios de Wilham, um pequeno povoado, o carro deu um par de puxes e poucos metros depois parou de todo.
Era domingo e a nica garagem do povoado estava fechado. Por sorte, havia um pequeno motel muito perto e, suspirando por sua m sorte, reservaram habitaes para a noite. Ali os telefones funcionavam e, enquanto os Wallace chamavam a seu filho, Kate fez o mesmo com Tony.
-Houve uma tormenta de neve, e ficamos isolados.
- o que tinha imaginado -falou Tony nervoso.
Quando lhe disse que tinham voltado a ter problemas, agitou-se mais ainda-. Me diga onde est e irei te buscar. 
No, srio... -rechaou ela. Tinha to ms notcias para ele, que isso era quo ltimo desejava-. Sairemos assim que o carro esteja arrumado. 
-Quando ser isso? 
-Provavelmente pela manh, assim que te verei pela tarde -disse. Sem lhe dar tempo a discutir, apressou a despedida e desligou o telefone.
Na segunda-feira pela manh o mecnico trocou a bomba da gasolina e iniciaram a viagem antes de comer. Mesmo assim, quando o txi amarelo deixou Kate  porta de uma bela casa de pedra marrom da rua Sessenta e Cinco Leste, comeava a anoitecer.
A criada estava ocupando-se da mala e do casaco quando Tony chegou apressadamente ao vestbulo, seu magro rosto denotava ansiedade.
-Querida! Tinha comeado a pensar que no chegaria nunca mais.
Pegou-a pela mo e a conduziu at a luxuosa sala. - Uma elegante e magra mulher de cabelo cinza e traos patrcios esperava com um sorriso e os braos entreabertos.
-Mame, esta  Kate -apresentou Tony com orgulho, enquanto Kate recebia um abrao de boas-vindas. Soava como um menino que estivesse mostrando um trofu recm ganho.
-Como est voc, senhora Newman? -saudou Kate, um pouco incmoda..
-Meu primeiro marido se chamava Newman; morreu quando Tony tinha um ano e me casei com Charles quando Tony tinha trs... -interrompeu-se-. Mas, estou divagando... O que quero dizer  que no seja formal, por favor. Me chame de Grace -deu-lhe outro abrao-. Levo tempo desejando conhecer a namorada de Tony; quando se casarem eu gostaria que me chamasse de mame.
Kate se voltou para Tony com um olhar de recriminao.
-Est de viagem desde sexta-feira, deve estar esgotada -disse Tony atropeladamente-. Vou te mostrar seu quarto para que descanse um momento antes do jantar.
-At quando ficars? -perguntou Grace.
-Tenho que voltar amanh na primeira hora, trabalho na quarta-feira pela manh.
-Oh, que lstima! -simpatizou Grace-. Mas tudo ser muito mais fcil quando mudar a Nova Iorque. Tony me disse que estavas preocupada em encontrar um trabalho e alojamento, mas estou segura de que meu enteado pode te encontrar algo, embora seja temporrio. E se quer viver aqui, ser bem-vinda.
- muito amvel -disse Kate com voz afogada-.Mas eu...
-Vamos, querida -urgiu Tony, dirigindo-a para a porta-. Primeiro te instale e depois falaremos.
-Pedirei a Mary que te leve um ch -disse Grace, tocando uma campainha que havia sobre o suporte da lareira.
-Como pudeste? -exigiu Kate, assim que a porta do dormitrio se fechou atrs deles-. Permitiste que sua me acredita que tudo est decidido, e no o est absolutamente.
-Mas poderia estar -disse ele com entusiasmo-. S tem que dizer sim.
-No posso -replicou claramente-. Sinto muito, no tenho palavras para expressar quanto o sinto, mas no posso me casar contigo.
-No ests falando a srio. Ests zangada comigo por me adiantar aos acontecimentos.
-Sim, estou zangada contigo -admitiu-. Complicaste as coisas para todo mundo. Mas o digo a srio. Agora sei que no te quero como se quer a um marido. Gosto de ti mas, como compreender, isso no  importante.
-Para mim  -discutiu teimoso-. No desejo uma grande paixo.
-Mas eu sim -interveio Kate.
No seja boba, querida -parecia surpreso, quase horrizado -.  muito sensata e equilibrada. Se algum te oferecesse uma grande paixo, sairias correndo.
Estava claro que acreditava que era sempre to tranqila e desapaixonada como a imagem que mostrava ante o mundo. Kate se mordeu o lbio. Se ele soubesse!
-Tenho razo, no? -insistiu.
-No importa se a tem ou no. O que importa  que tem que aceitar que no posso me casar contigo e...
ouviu-se uma batida na porta.
-Deve ser Mary com o ch -Tony no pde ocultar seu alvio. - Deixarei-te para que te relaxe... -disse, embora o que queria na realidade era que lhe passasse o aborrecimento-. O jantar  s sete e meia... E, Kate, por favor, no diga nada que possa desgostar a mame. Possivelmente tenha mudado de opinio pela manh. Sem lhe dar tempo a responder, abriu a porta para a criada e se escapuliu.
Kate, preocupada e nervosa, bebeu o ch, perguntando-se o que podia fazer. As mentiras a incomodavam, embora fossem temporrias, e se a me de Tony seguia com a mesma atitude durante o jantar, a situao ia ser muito incmoda.
Serviria de algo soltar a verdade de supeto? No, no podia faz-lo. Embora tudo fosse culpa de Tony, devia-lhe uma certa considerao. Possivelmente o melhor seria falar o menos possvel e lhe deixar a tarefa de explicar-se quando ela tivesse partido.
Algum tinha subido sua mala, assim que colocou um singelo vestido de coquetel de cor preta e, muito a contragosto, s sete e quinze desceu para sala. Tony a recebeu com entusiasmo, mas seus olhos denotavam preocupao.
-O que quer beber, querida?
-Um xerez seco, por favor.
-Charles, meu segundo marido, sempre opinou que o xerez era um aperitivo muito civilizado para antes de jantar -aprovou Grace-. Claro que, como estava no servio diplomtico, viajava com freqncia, e quando ramos recm-casados passamos muito tempo na Inglaterra e no continente. Embora havia uma grande diferena de idade entre seu filho e o meu, os dois meninos... -interrompeu-se ao ver que se abria a porta-. Ah, aqui vem meu enteado. Matt, vem conhecer a namorada de Tony.                                       
Kate se deu a volta e se encontrou olhando diretamente aos verdes olhos verde de Matthew Carran. O choque foi enorme, e mtuo.
Matthew foi o primeiro em recuperar-se, mas passaram vrios segundos antes de que aceitasse a mo que ela tinha estendido automaticamente.                                    
-Encantado, senhorita...
-Hunter -apontou Tony, Kate estava muda e paralisada-. Kate Hunter.                                                           
-Muito prazer, senhorita Hunter.                                  
-Estou segura de que no  necessria tanta formalidade -interveio Grace-. Kate logo ser parte da famlia -como se tivesse notado a tenso existente, apressou-se a continuar-. Passou um bocado para chegar at aqui. Primeiro ela e o casal com quem viajava ficaram isolados pela neve, depois o carro estragou e tiveram que passar a noite em um desagradvel motel...
Ningum fez nenhum comentrio, e, sem saber o que fazer. Grace decidiu optar pelo prtico.
-Temos tempo para tomar uma taa antes do jantar...
-Vou jantar fora -replicou Matthew abruptamente-. Se me perdoarem, tenho que ir me trocar.
-O que lhe passar? -perguntou Tony, sem dirigir-se a ningum em particular, quando a porta se fechou atrs de seu irmo.
-Pode ser que a reunio no banco no fosse bem  - aventurou Grace-. Embora no est acostumado a deixar que essas coisas lhe afetem -voltou-se para Kate e lhe pediu desculpas-. Lamento que Matt tenha sido um pouco seco. Mas, por favor, no deixe que isso te incomode. Ests plida como uma morta- falou, preocupada.
Era uma descrio muito adequada, Kate se sentia como se lhe tivessem atravessado o corao com uma adaga.
-Estou bastante cansada -conseguiu murmurar.
No  de estranhar! E amanh tem outra viagem pela frente. Pobrezinha. Assim que jantemos deve te deitar.
Durante o jantar, Kate comeu como um autmato, ainda, em estado de choque. Embora tentou atuar com normalidade e participar da conversao, depois no recordava nem do que tinham falado. Desesperada para ficar a ss, tentava agentar, fosse como fosse, at poder retirar-se a seu dormitrio. Assim que retiraram o caf, Grace, obviamente preocupada com ela, foi em sua ajuda.
-Se quiser subir j, faa-o, querida. J teremos tempo para nos conhecer e falar sobre o casamento na prxima vez que vier -abraou-a-. Agora que j temos quebrado o gelo, espero que venhas viver conosco quando te mudar  cidade. Assim Tony e voc poderiam estar juntos. Mas j o falaremos em outro momento, quando no estiver to esgotada. Boa noite, querida.
-Boa noite -respondeu Kate com voz forada-, e muito obrigado.  muito amvel.
-Boa noite, anjo -disse Tony com cautela, vendo que seguia zangada, e lhe deu um beijo na
bochecha.
-No vais acompanhar Kate at o dormitrio? sugeriu sua me.
-No  preciso, de verdade -protestou Kate e, despedindo-se de novo, saiu apressada.
J no dormitrio, sentou-se sobre a cama, esmagada de desespero. Como lhe podia ter arriscado sua sorte nesse caso? Tinha sido uma estpida ao no dizer toda a verdade a Matthew. Se lhe tivesse falado de Tony, nada daquilo teria ocorrido.
Mas agora era muito tarde. Ele acreditava que Tony e ela estavam comprometidos e que tinha enganado a seu noivo deliberadamente. Quando se tinham olhado, tinha percebido o frio desprezo e a amarga condenao nos seus olhos..
Movendo-se como se fosse uma velha, tomou banho e se deitou. Embora o dormitrio tinha calefao central ela, aconchegada sob o edredom, tremia, dominada por um frio intenso e uma desolao to profunda que no lhe permitia nem sequer chorar. O ansiado sono se negava a chegar e seguia acordada, olhando cegamente a escurido quando a porta se abriu e fechou brandamente.
-Quem est a? -sentou-se de repente e procurou o interruptor do abajur de noite.
Antes de que o encontrasse, a luz se acendeu. Piscou e viu Matthew de p, apoiado na porta. Ainda usava terno e gravata borboleta mas, apesar de seu elegante traje, parecia perigoso, tinha os lbios esbranquiados e estava furioso. Sentou-se na beira da cama e ela, assustada, ficou sem respirao.
- No tem nada que temer -disse, com um desprezo fulminante-. Agora que sei que tipo de mulher s, no sujaria as mos contigo.
-Por favor, Matthew, me escute... 
-Com quem dormiste ontem  noite? -cuspiu. 
Ela fez uma careta de dor.
-No te culpo por pensar o pior. Sinto muito... 
-Nem a metade do que eu sinto -interrompeu ele grosseiramente-. s uma excelente atriz, Kate. Enganou-me por completo com seu ar de inocncia. Cheguei a pensar que tinha encontrado a mulher que procurava.--com os olhos frios como o gelo, acrescentou-. Grande impresso descobrir que no s mais que uma vagabunda.
No sou! -engasgou-se ela.
- Que outra coisa se pode chamar uma mulher que se deita com um homem ao qual acaba de conhecer enquanto est de viagem para encontrar-se com seu noivo? 
- Mas no foi assim! Se me deixasse te explicar... 
-No vim para ouvir desculpas. Vim para deixar algo muito claro. No te casar com Tony.
-J lhe hei dito que no vou casar-me com ele. 
Alegra-me saber que ainda fica um pouco de vergonha. Ou  simplesmente porque descobri? 
-O disse antes de saber que estavam aparentados -desesperada, continuou-. Pediu-me muitas vezes que me casasse com ele, ou que ao menos me comprometesse, mas nunca aceitei. Quando me suplicou que devia conhecer a sua me, concordei, mas lhe deixei muito claro que isso no significava que fosse dar o sim... Ainda no estava segura e depois de te conhecer, compreendi que no podia me casar com ele; o disse assim que cheguei. 
-Ento, por que Grace te apresentou como sua noiva? 
Com uma sufocante sensao de impotncia, Kate tentou explicar.
-Porque, apesar do que lhe disse, fez-lhe pensar que estvamos comprometidos. Quando me dei conta, zanguei-me com ele. Mas me suplicou que no dissesse nada que a desgostasse... Suponho que tinha a esperana de que mudasse de opinio.
A cnica expresso de Matthew deixou bem claro que no acreditava em uma palavra.
-Quero que saia desta casa na primeira hora da amanh -disse com suavidade letal-. No quero voltar a
te ver nunca mais. E a partir de agora, deixa Tony em paz. Se no o fizer, verei-me forado a
lhe contar o que ocorreu entre ns. E outra advertncia mais. Eu sou quem controla o dinheiro.
Se pensava te casar por dinheiro, te esquea. Nem Grace nem Tony tm dinheiro prprio; ele depende de mim para ter casa e trabalho...-ameaou. 
No era estranho que s vezes Tony parecesse ressentido com seu irmo, pensou Kate vagamente.
- Acaba de encontrar o rumo nas Empresas Carran -continuou Matthew- e me desgostaria ter que despedi-lo -resmungou. Deu-lhe as costas e abandonou a habitao, fechando a porta atrs de si.
Consciente de que era incapaz de permanecer ali um minuto mais, Kate saltou da cama. Soluando, soluos secos e incontrolveis que lhe apertavam a garganta, vestiu-se e refez a mala to rapidamente como pde. Continuando, arrancou uma pgina de seu dirio e rabiscou uma nota para Tony.

Querido Tony,
Tudo acabou entre ns. Tem que aceitar que no posso me casar contigo, e recorda que nuca disse que o faria.
Sinto muito se feri a ti ou a sua me. Por favor, no tente entrar em contato comigo. Me esquea.
Kate.

Apoiou o pedao de papel sobre o abajur, colocou o casaco, apagou a luz e, com a mala na mo, desceu as escadas sigilosamente. Iluminada pelo fraco e esverdeado resplendor da luz de segurana do vestbulo, abriu a tranca da porta principal com as mos trementes e saiu  fria noite.
Quando chegou  calada, um txi passou ante a porta. Antes de que levantasse a mo, o taxista a viu e parou imediatamente. Entrou no carro, tremendo como uma folha.
-Ests doente? -perguntou o taxista, olhando por cima do ombro.
-S tenho frio.
-Aonde vamos?
-Por favor, me leve a hotel econmico mais prximo -os dentes lhe batiam com tal fora que lhe resultou difcil articular as palavras.



Captulo 5

Na manh seguinte Kate voltou para Adoga e tentou retomar o fio de sua vida. Todos os dias se levantava, tomava banho e vestia, para seu trabalho com a eficincia habitual, comia, falava com as pessoas e inclusive sorria. Mas se sentia morta, como se sua fora vital tivesse se extinguido e s  fora de vontade conseguia suportar essa pardia de vida.
As semanas passaram lentamente e, em vez de sentir-se melhor, perdeu o apetite e lhe custava manter no estmago o pouco que conseguia ingerir. Determinados aromas lhe provocavam nuseas, e no suportava nem o ch nem o caf. Em vrias ocasies, tinha tido que abandonar uma reunio de administrao para correr ao banheiro a esperar, tremente e plida, que lhe passasse o enjo. A terceira vez que ocorreu, ao voltar para a reunio teve que enfrentar-se  senhora Wallace que, com olhos de suspeita e desaprovao, comeou a fazer perguntas.
- Ainda se encontra mal, senhorita Hunter? O que voc acha que pode ser? 
-Uma espcie de gripe estomacal, suponho -disse Kate.
-Est durando muito tempo. Se eu fosse voc, iria ao mdico -com malcia, acrescentou-. Vejo que seu noivo no vem ultimamente. 
-No -  disse preferindo no pensar em Tony.
Em lugar de deix-la em paz, tinha telefonado e escrito repetidas vezes. Rasgou suas cartas sem chegar a abrir-las e, depois de desligar o telefone cada vez que ouvia sua voz, pediu que no lhe passassem mais chamadas dele.
Seu mal-estar continuou, e o fim de semana seguinte o teste de gravidez deu positivo.
-No tem voc..... companheiro? -pergunto o mdico, vendo que o resultado a tinha pego despreparada.
-No -disse ela inexpressiva. 
-Mas sabe quem  o pai? 
-Sim.
-Assim, ele poder ajud-la?
-No tenho inteno de lhe pedir ajuda.
-No  fcil criar um filho sozinha; suponho que sabe que h outras opes. Estaria disposta a entreg-lo em adoo?
-No. Me arrumarei de algum modo -replicou. Era o filho de Matthew e desejava ficar com ele. Pela primeira vez em semanas, um fio de calidez comeou a dispersar a cinzenta neblina que envolvia seu esprito.
Nessa tarde, sentada em sua habitao, tentou decidir o que fazer. Se o mal-estar continuava, seria impossvel ocultar que estava grvida. A senhora Wallace j o tinha adivinhado. Kate suspirou. O futuro imediato se via muito negro. Tinha muito pouco dinheiro, e lhe seria difcil seguir trabalhando quando avanasse a gestao. Sabia que  senhora Wallace no gostava que suas empregadas ficassem grvidas.
Possivelmente o melhor seria voltar para Nova Iorque. Por certo que poderia encontrar algum trabalho e uma habitao. Mas, o que faria quando no pudesse seguir trabalhando? Como poderia manter a seu filho?
Enquanto analisava todas as possibilidades, tentando no se desesperar, bateram na porta e, sem lhe dar tempo a reagir, Tony entrou na habitao. Estava magro e abatido, com o rosto tenso. No havia dvida de que estava passando muito mal.
-Por favor, Kate. Tenho que falar contigo -sua voz soava chorosa. 
-No servir de nada -replicou ela cansada-. Por mais que falemos, ns terminamos. No posso me casar
contigo.
- porque no me quer?
-No se pode amar por obrigao.
-Disse que me tinha carinho.
-E  certo. Mas o carinho no  suficiente.
- tudo o que peo. No desejo um amor apaixonado.
-Olhe, embora te quisesse, no poderia me casar contigo.
-Me d uma razo.
-Estou grvida de outro homem -espetou, a ponto de estalar. Ele piscou, tentando sobrepor-se  surpresa. 
-Ser melhor que se sente -sugeriu cansada. Ele se afundou na cadeira mais prxima e colocou a cabea entre as mos.
-Quem  ele? -perguntou um momento depois. 
-No penso em te dizer isso.
-Voc o ama?
-Sim.
- Vais te casar com ele?
-No.
-Por que no?
-No quereria casar-se comigo.
-H-lhe dito sobre o beb? -Tony levantou a cabea.
-No.
- Vais lhe dizer?
-No. Tudo terminou entre ns. Foi s uma... uma loucura passageira.
-Pensa em ter a criana? -perguntou Tony, dando um suspiro
- obvio que vou ter-lo. 
-Como vais manter-lo?
-No sei -admitiu ela-. Mas j me ocorrer algo -depois de uns segundos, ao ver que ele calava, acrescentou-. J sei que deve ser um golpe duro para ti, e deve te parecer que...
-Parece-me um milagre -interrompeu ele, com o rosto excitado-.  a resposta a minhas preces. Kate, por favor, te case comigo e te prometo que nunca voltarei a mencionar a esse homem. Diremos a todo mundo que o beb  meu. Eu me ocuparei de vocs. Seremos uma famlia...
-No, no poderia. Acabaria te arrependendo - rechaou ela, perguntando-se por que razo estaria disposto a aceitar o filho de outro homem.
-No me arrependeria.
-Isso  o que diz agora, mas imagine que mais adiante mude de opinio. No seria justo para ti.
-Mas  o que quero. Se concordasse em te casar comigo, solucionariam-se muitos problemas... seria o melhor para todos. Necessito-te, Kate.
-Pela ltima vez: h razes suficientes para que seja impossvel que me case contigo.
Possivelmente notou o tom terminante de sua voz. Que punha fim a suas esperanas, porque de repente se ajoelhou ante ela, e agarrou suas mos com angstia e impotncia evidentes.                                                       
-Por favor, me escute. Vou te dizer algo que nunca jamais contei a ningum...

Quinze dias depois se casaram pelo civil. Foi uma cerimnia singela, a qual s assistiram a me de Tony, seu primo Derek, que voou do Canad para ser o padrinho, e as testemunhas imprescindveis.
Grace, encantada de que o casamento se celebrasse to cedo, tinha sido a amabilidade em pessoa. Quando Kate chegou a Nova Iorque, ajudou-a a encontrar  uma habitao em um hotel econmico e um trabalho temporrio como recepcionista de um dentista. Tony no tinha lhe comentado sua ruptura, e se lhe pareceu estranho que Kate desaparecesse to cedo naquela manh, sem sequer despedir-se, evitou diz-lo.
Kate, embora esperasse o pior, havia sentido um grande alvio quando Matthew, possivelmente por respeito a sua madrasta, comportou-se decentemente. Embora deixasse claro que se opunha ao matrimnio, no exps suas razes, nem despediu Tony. Aliviou-a ainda mais que ele se preocupasse de estar na outra lado do mundo no dia do casamento.
Tanto Tony como sua me tentaram convencer Kate de que fosse viver na casa de Matthew, mas ela se negou. Inclusive a cruzar a soleira.
-Sei que, por alguma razo, Grandalho e voc no simpatizaram um com o outro -disse Tony-, mas te asseguro que quase no o vers. Alm disso  seria muito caro encontrar algo decente.
-Quero que vivamos em nossa prpria casa. No me importa se for um chiqueiro, e estou disposta a trabalhar enquanto possa para colaborar com o pagamento do aluguel. 
-Desgosta-me que tenha que trabalhar, sobretudo em seu estado. Quero que voc e nosso beb vivam em um lugar agradvel...-protestou Tony, preocupado.
Quando compreendeu que no conseguiria convenc-la, comearam a procurar uma moradia que pudessem permitir-se. Um par de dias antes do casamento encontraram um sombrio apartamento mobiliado, no ltimo andar de um bloco prximo ao rio Hudson, e se mudaram depois de casar-se.
Seu trabalho temporrio finalizou, e Kate conseguiu trabalhar de garonete em um restaurante econmico. Trabalhava muitas horas. Pagavam-lhe mal e estava de p todo o dia. Tony, preocupado por ela, rogou-lhe que o deixasse. 
-Necessitamos do dinheiro -rechaou ela.
-No posso suportar que trabalhe assim quando deveria estar descansando... me deixe que fale com Grandalho. No  um ogro, e se soubesse o que ocorre estou seguro de que...
-Se pedir ajuda a seu meio-irmo, partirei-me e no voltarei nunca mais -ameaou Kate. Isso bastou para calar-lo.
Servir mesas era exaustivo e Kate sempre estava cansada. Mas no se queixava, os mal-estares da gravidez tinham acabado e se contentava com isso.
Tony, fazendo honra a sua palavra, nunca voltou a mencionar ao pai da criana. Comportava-se sempre como se o beb fosse dele e, como um menino pequeno com um segredo, morria de vontade de dar as boas novas a sua me. Kate, com o corao em um punho, fez-lhe prometer que esperaria ao menos dois meses. Assim, quando a criana nascesse, poderiam dizer que era prematuro. Consciente do que Matthew opinava dela, no queria que tivesse a mnima suspeita de que a criana fosse dele.
Kate seguia amando-o como no primeiro dia. Rememorava freqentemente o breve tempo que tinham passado juntos, s vezes, entre sonhos, voltava a sentir essa doce felicidade, essa maravilhosa sensao de estar entre seus braos.

-Tome cuidado de no te queimar -advertiu Mattew -Est muito quente.
Durante um segundo ou dois, seguiu sonhando, presa no passado. Levantou os olhos, suaves e imensos, para ele. Ento, voltando bruscamente para a realidade, encontrou-se de novo na casa isolada pela neve, sentada ante o aquecedor. Matthew, de p, oferecia-lhe uma fumegante taa de ch.
-Obrigado -aceitou-a com lerdeza  e apesar da advertncia, esteve a ponto de derram-lo.
-Faz um instante parecia radiante de felicidade. No que pensava? -perguntou, com voz distinta a normal.
-Na... nada em particular -gaguejou ela.
Pareceu que Matthew ia insistir mas mudou de opinio, aproximou outra cadeira ao aquecedor e tomou sua prpria taa.
Caroline, ainda evitou cuidadosamente olh-lo enquanto se bebia o ch, percebia que ele no separava os olhos de seu rosto nem um instante e se perguntou se sua inteno era intimid-la. Se o era, estava o conseguindo. Inquieta pelo escrutnio, moveu-se incmoda, torturada pela sensao de estar presa.
Se tivessem descido antes de que o tempo piorasse... Matthew conhecia a montanha e o clima da zona
muito bem. Como podia ter cometido um engano assim? E se no era um engano? Era possvel que o tivesse planejado? Possivelmente teria insistido em seguir at Prospect Point sabendo que o tempo ia piorar, com a inteno de que ficassem presos a ss.
Essa idia lhe provocou um pnico sufocante. Agarrou a taa com fora e tentou controlar-se; sabia que, de outro modo, s poderia precipitar a confrontao que tanto temia.
-Parece nervosa -disse ele irnico-.  por estar aqui a ss comigo?
-No estou nervosa.
-Mentirosa -ele se burlou brandamente. 
-Por que diz isso? 
-Bom, ou  uma mentirosa ou uma tola, e no acredito que seja tola.
-Insinuas que tenho razes para estar nervosa? inquiriu levantando o queixo. 
- muito possvel que sim.
-Est tentando me assustar.
-Por que ia eu fazer isso? -perguntou ele, com uma careta sarcstica.
-Porque voc no gosta de mim.
-Acreditas que o fato de eu no gostar  razo suficiente? 
-H alguma outra?
-Talvez desfruto te vendo me olhar com esses olhos enormes e cheios de apreenso.
-Te converteste em um sdico -acusou ela, sem parar para pensar no que dizia.
-Me converter... Ento no acreditas que sempre o fui?
-No tenho nem idia -disse agitada-. Pode ser que eras um menino cruel que desfrutava fazendo mal a qualquer ser mais dbil...
-No -disse, negando com a cabea-. Meu desejo de fazer mal  relativamente recente, e  por culpa de...
Ela viu o perigoso brilho de seus olhos verdes e se estremeceu.
-No prefere adivinh-lo?
Estava rindo-se dela, sabia. Tinha que seguir o jogo. Tragou saliva.
-As mulheres?
-Uma em concreto.
-Sua ex-namorada? -sugeriu ela, sem muita esperana.
-Sara era muito simples para provocar esse tipo de sentimentos. No, pensava em uma mulher que conheci em Clear Lake. Uma mulher chamada Kate -explicou, e fez uma careta-. No era especialmente bonita, seno fascinante e misteriosa. Parecia possuir uma estranha calidez e inocncia, uma espcie de luminosidade interior  - sua voz se endureceu-. Mas seu ar de inocncia era to falso como ela mesma. Resultou no ser mais que uma vagabunda. Tem idia do que  pensar que encontraste a perfeio e sofrer uma desiluso assim? perguntou. 
Sua amargura fez que Caroline se sentisse como se a estivessem esfolando.
- Mesmo assim, no podia tirar-la da cabea. Sua lembrana me perseguia. No podia trabalhar, nem comer, nem dormir. Era uma loucura. Quando conheci Sara e nos comprometemos, disse-me que estava a ponto de me curar. Mas ela, com tpica intuio feminina, adivinhou que havia outra mulher.Ainda que nunca lhe dissesse quem era, e lhe deixei claro que tudo tinha acabado entre ns, no acreditou em mim. Por isso acabou rompendo o compromisso; achava que seguia obcecado...E tinha razo. At agora, Kate  como uma enfermidade, uma febre recorrente contra a qual no tenho defesas. Embora no te pareas em nada com ela, por alguma estranha razo, voc me recorda ela.
Caroline, paralisada, sentia-se como se a tivessem amarrada  cadeira com barras de ferro. Matthew se levantou e, agarrando-a pelos ombros, fazendo-a ficar em p.
-Possivelmente por isso te beijei na outra noite. Por isso disse que possivelmente no pudesse suportar no te tocar -murmurou, olhando-a nos olhos. -Agora que estamos a ss, sei que no posso.
Na ltima noite que havia passado com ele foi um encantamento de luz e doura aquela vez era magia negra e amarga, mas o feitio era igualmente potente. Desejou seu amor ento e o desejava agora, ainda com mais intensidade, depois de tantos anos vazios. Recordou desconsolada que ele no sentia amor, s uma obsesso da qual no podia livrar-se.
Matthew inclinou a cabea para beij-la; apartou o rosto bruscamente e seus lbios lhe roaram a bochecha.
-Me deixe em paz -sussurrou, levantando as mos para apart-lo.
-No sei por que pe essa cara de susto -espetou, custico. No s uma inocente virgem. Estiveste casada.
-Isso no tem nada que ver. No quero ocupar o lugar de um fantasma do passado. Parece-me degradante que faa amor comigo s porque te recordo a... a outra pessoa.
- uma mulher de carne e osso, no um fantasma, e se isso te faz feliz, prometo-te dizer seu nome enquanto te fao amor...
-No quero que me toque -interrompeu ela agitada.
-No o diz a srio -com uma mo lhe tirou os grampos do cabelo, ps a outro sob seu queixo e levantou seu rosto para ele.
-Por favor, no... -seu protesto se apagou quando ele pousou os lbios em sua boca, com beijos suaves como plumas, at deter-se brandamente em um canto. Seu corpo inteiro ficou tenso e, aterrorizada por sua prpria reao, engasgou-se -. Srio! No quero que me faa amor.
-Isso  mentira -reps ele com calma-. A primeira vez que te beijei, poderia ter te levado para cama. Nisso te pareces muito com a Kate.
Deslizou as mos sob o pulver de l e rodeou suas costas, atraindo-a para ele com uma mo enquanto com a outra procurava a suave curva do seio. E atravs da fino tecido do suti, acariciava-lhe um mamilo.
-Sim quer que te faa amor, verdade? -ronronou contra sua bochecha.
Desejou dizer que no, tinha que dizer que no, mas o amava tanto que sua garganta resistia a dizer semelhante mentira. Enquanto o tentava, ele a beijou, fazendo que entreabrisse os lbios; o beijo se fez mais profundo soube que estava perdida, j no havia salvao possvel.
Ele a beijava com paixo, como se levasse anos desejando faz-lo. Caroline percebeu sua intensidade e isso alimentou a chama de seu prprio desejo. Comeou a tremer violentamente.
Notando sua reao, ele se afastou um momento para apagar a luz; depois a deitou sobre o grosso tapete que havia ante o aquecedor e a despiu ao resplendor do fogo, que dava a sua cremosa pele uma textura rosada. Matthew se tirou a roupa e se deitou junto a ela, apoiando-se em um cotovelo. Nesse momento, um tronco se assentou, provocando uma labareda e uma chuva de fascas que iluminou seu rosto, convertendo-o em uma mscara demonaca.
De repente, teve medo dele. Podia ser muito cruel, tinha-o sido. Recordava-lhe Kate, e ele odiava a Kate, tinha confessado seu desejo de lhe fazer mal... Gemeu, um som suave que se ouviu perfeitamente apesar da tormenta que continuava no exterior.

-No faas essa cara -disse ele com aspereza, interpretando corretamente o pnico de sua expresso.
-No... no posso evit-lo -sussurrou. Ele estendeu a mo e lhe apartou uma mecha de cabelo da bochecha com certa ternura.
-No tenhas medo. No te farei mal, nem farei nada que no deseje que faa.
Apesar de tudo, acreditou, e quando comeou a beijar-la e a acarici-la se relaxou; suas clidas mos a fizeram sentir um prazer  que recordava de antigamente. Desejava tocar-lo a sua vez, deslizar as mos por esses largos ombros, e brincar com o escuro plo que salpicava seu peito, mas temendo ser descoberta, ficou quieta.
Enquanto suas mos a acariciavam, seus lbios deixaram um rastro de beijos ardentes desde o ombro at o seio, onde se  detiveram. Embora ele fazia amor como se tivesse todo o tempo do mundo, ela percebia que estava fazendo um grande esforo para controlar sua excitao. Ele nunca tinha pretendido que lhe agradasse, e muito menos que lhe importassem seus sentimentos. Por essa razo, quase esperava que a tomasse rapidamente para satisfazer prprio prazer, sem preocupar-se com ela.
Mas, com pacincia e destreza, excitou-a at que comeou a desej-lo com nsia.
Quando se acomodou entre seus quadris, rodeou-lhe o pescoo com os braos e afundou o rosto em seu pescoo. Ele notou sua reposta e a amou com tal fora e paixo, que uma tormenta de sensaes engoliu a ambos, deixando-os esgotados e serenos.
- uma mulher de silncios eloqentes... O que pensa, Caroline? -perguntou ele pouco depois, examinando seu rosto.
Recordava que ele tinha prometido dizer seu nome quando lhe fizesse amor. E o tinha feito. Mas o nome que gemeu, com o momento culminante de paixo, foi Kate. No quis mencion-lo, e negou brandamente com a cabea.
-Se no querer me dizer o que pensa, me diga como se sente.
Ele se tinha assegurado de satisfaz-la, e seu corpo estava deliciosamente relaxado.
-Surpreendida e agradecida -replicou, sem pens-lo.
-Por Deus, mulher -estalou ele-. Acaso imaginava que ia comportar-me como um bruto egosta que s se ocupa de seu prprio prazer?
-No se tivesse estado fazendo amor a algum... a algum que te importasse. Mas eu..., pensei que s queria me utilizar.
-Pois no tem feito nada para me impedir disso.
-No podia te parar -protestou ela-. Tentei lutar...sabes bem.
-Mas lutava mais contra ti mesma que contra mim. Terias me parado com um s no, se o houvesse dito a srio -objetou ele. Caroline, admitiu com seu silncio que era certo-. Quanto tempo faz que perdeu a seu marido? -perguntou.
-Faz mais de dois anos -respondeu vagamente, alarmada pela pergunta.
-Tiveste algum amante aps?
-No.
-Por que no? s uma moa com necessidades e instintos naturais.
-Nunca conheci a ningum que me importasse o suficiente -disse, com voz afogada.
-Quer dizer que s iria  cama com algum que te importasse?
Caroline compreendeu, muito tarde, aonde conduzia esse interrogatrio.
-Bom, no... no exatamente. O que queria dizer  que nunca me senti suficientemente atrada por ningum.
-At agora? -insistiu ele. Considerando o dito, era uma concluso bastante razovel e Caroline no contestou-. Deve ter querido muito a seu marido, no?
-Tinha-lhe muito carinho -Caroline, em vez de limitar-se a assentir, disse a verdade.
-Carinho? Matthew arqueou uma sobrancelha com cinismo.-No me parece que isso seja suficiente.No me sentiria nada adulado se uma mulher dissesse que me tem carinho -Matthew sorriu amargamente. 
-No acredito que tenha do que preocupar-se -cuspiu ela. Imediatamente se arrependeu de suas palavras. Por que no podia dominar sua lngua, em vez de deixar que Matthew a provocasse. Mas, surpreendendo-a, ele comeou a rir.
-Alegra-me saber que ainda resta um pouco de esprito. Ao princpio estava magra, plida e abatida, como se a vida te houvesse golpeado, mas neste ltimo ms ganhaste um pouco de peso e perdeste esse olhar de desolao. Me diga, Caroline, s feliz trabalhando para mim? 
-Eu gosto de cuidar de Caitlin -respondeu com cautela. Algo no tom de sua voz a tinha alarmado. 
-Que farias se, por alguma razo, tivesses que partir ?
-Procuraria outro trabalho -disse com calma, embora semelhante idia a aterrorizava.
-O fogo est muito  baixo -disse ele abruptamente, notando o ligeiro arrepiou que a tinha percorrido-. Ser melhor que te vista.
Incmoda de repente, envergonhada por sua nudez, recolheu a roupa apressadamente e, com a cabea encurvada, comeou a colocar-la. Embora no se arrependia de ter aproveitado esses momentos de felicidade, ao dissipar a euforia e sentia tranqila e temia as conseqncias de sua imprudente ao. Mas no havia remdio, j estava feito.
Quando por fim levantou a cabea, viu que ele tambm estava vestido. Parecia preocupado e sombrio, enquanto jogava troncos no aquecedor .A seguir, acendeu a luz. 
-Tens fome? H um monto de conservas.
-Quer que prepare o jantar? -perguntou Caroline. No tinha fome, mas precisava ocupar-se com algo. -Ontem voc o preparou  e me defendo bastante bem com um abridor de latas -rechaou Matthew-. Sugiro que te relaxe junto ao fogo enquanto esquento um guisado.
Suas palavras, embora amveis, no tinham o menor rastro de calidez. Caroline se mordeu o lbio e voltou a sentar-se. Consciente de que seguia olhando-a, tentou no levantar o rosto, mas ele a atraiu como um m.
-Arrependida? -perguntou secamente. Ao perceber o brilho de seus olhos chorosos. Ela ia responder que no, mas hesitou e respondeu com uma pergunta.
-Deveria estar?
-Possivelmente os dois devamos estar.
O desejo secreto de que o prazer compartilhado tivesse suavizado sua atitude para com ela morreu. Soava aborrecido, como se sentisse desprezo tanto por ela como si mesmo.
Foi uma tolice acreditar que seus sentimentos poderiam mudar. Sabia desde o comeo que no lhe agradava e, alm disso, ele tinha reconhecido que s a desejava porque recordava a uma mulher que odiava mas que seguia obcecando-o.
Estava perdendo partida dupla.
Estava cansada e emocionalmente esgotada. Quando Matthew ps a comida na mesa, era quase incapaz de manter-se erguida na cadeira.
-Na realidade no quero nada -murmurou- Prefiro ir diretamente  cama.
-Deveria comer algo antes. Notei em que quase no comeste ao meio-dia. Com apenas um aquecedor para nos esquentar, e sem calorias, passars frio durante a noite.
Sem foras para discutir, levantou o garfo e se esforou em tragar um pouco de guisado, surpreendentemente bom.
Comeram em silncio. S se ouvia o crepitar dos troncos e o rudo da tormenta, que seguia lanando neve contra as janelas. Apesar d seus esforos, Caroline s comeu a metade de sua poro quando comearam a lhe fechar os olhos.
-Ser melhor que durma -disse ele secamente. Mostrarei-te o nico dormitrio habitvel. Pus um par de mantas a mais nas camas, assim espero que faa suficiente calor... 
Seguiu-o pelo corredor a uma habitao que tinha duas camas. 
-H um banheiro no dormitrio, mas desgraadamente no h gua quente.
-E voc...? hesitou ela.
-J virei, quando recolher e encher a estufa de lenha.
Lavou-se rapidamente com gua fria, tirou-se as calas e o suter e em roupa de baixo, meteu-se na cama e tapou-se. Estava esgotada mas, arrepiada depois de sua visita ao banheiro e com os ps gelados, era incapaz de dormir. Uma meia hora depois chegou Matthew. Seguia aconchegada sob as mantas completamente acordada, tentando no tremer de frio.
-No ests dormindo -perguntou ele, como se pudesse ouvir seu sofrimento. Ela no podia lhe ver o rosto, mas sua voz soava preocupada.
-No.
-Por que no?
-Tenho frio.
-Ser melhor que te deite comigo -disse Matthew. 
Ouviu-se o ranger da cama. Surpreendida, Caroline no se moveu. 
-No se preocupe, no tenho ms intenes. Mas far menos frio se compartilharmos a cama-. Bom, vem ou no? acrescentou com impacincia. 
-Sim, por favor -sussurrou ela, sem foras para resistir a seu oferecimento. Cruzou o cho gelado e se meteu na cama junto a ele, tomando cuidado de no toc-lo. 
-No  de se estranhar que no consigas dormir; est como um bloco de gelo -.disse ele, estendendo  uma mo para toc-la. Aproximou-a at o calor de seu corpo nu e lhe fez apoiar a cabea contra seu peito-. Agora tenta te relaxar.
Envolta entre seus braos, sentindo o forte batimento de seu corao sob a bochecha, dormiu em menos de um minuto.



Captulo 6

Caroline se esticou e descobriu que era de dia e estava sozinha na cama. Sentou-se e olhou pela janela; tinha deixado de nevar e dava a impresso de que faria um bom dia. Asseou-se, vestiu-se e se dirigiu  cozinha, onde a recebeu o agradvel aroma de caf recm feito. Matthew estava vestido e preparava panquecas.
-Como pode ver, o temporal terminou, a tira-neve j passou, assim podemos voltar depois que comermos -disse-lhe, voltando-se para ela.
-Sim, eu gostaria de sair o quanto antes se por acaso Caitlin...
-Caitlin estar perfeitamente bem- interrompeu -. Se preocupa com ela como se fosse sua me, em vez de sua bab -acrescentou com tom seco.
De novo, seu humor tinha mudado.
-Sou sua bab, pagam-me para que eu me preocupe.
-Pagam-lhe para que d satisfao, profissionalmente falando. Embora ontem  noite teve bastante xito em outras reas -acrescentou com ironia, e observou como suas bochechas se avermelhavam.
Caroline se mordeu a lngua para no responder. No serviria de nada comear uma briga. Com seu humor azedo e seu controle, ele ganhava todas.
-O caf da manh est pronto quando quiser -disse ele, servindo as panquecas. Com um olhar de recriminao, sentou-se silenciosa  mesa.
O cabelo castanho lhe caa sobre os ombros e seu rosto ovalado seguia ligeiramente ruborizado. Matthew, observando-a jogar mel sobre as panquecas, pensou, surpreso, que estava muito bela. Seus amendoados olhos cor de gua-marinha estavam emoldurados por longos clios. Tinha a pele perfeita, quase translcida, como uma aquarela, mas sua boca e queixo insinuavam carter e fora. Ela levantou a vista e  encontrando-se com seu olhar, ruborizou-se mais ainda.
-Ests muito diferente com o cabelo solto -comentou ele-.Deixe-o sempre assim, prefiro-o.
Ela preferia o ar de formalidade que lhe dava o coque, mas, para no discutir, se calou.
Tomaram o caf da manh em silncio, Caroline limpou a mesa e saram ao branco resplendor do exterior. Matthew fechou a porta e a ela escapou um suspiro. Tinham passado muitas coisas desde que a abriu, coisas que no podia esquecer nem desfazer, que tinham alterado sua relao irremediavelmente. Ele a tinha utilizado como uma espcie de vacina, para imunizar-se  contra o que havia descrito como uma febre...
Subiu ao carro e lhe ocorreu uma idia ainda pior. Teria posto em perigo seu trabalho ao entregar-se a ele? Se Matthew, arrependido do o que acontecera, decidia que sua presena o envergonhava podia optar por despedir-la. Ele tinha as rdeas... 
A neve, quebradia e fofa, afundava-se sob as rodas do carro, que Matthew conduzia cuidadosamente para a estrada principal. Tal e como ele havia dito, a estrada estava limpa. Parecia que, para compensar a tormenta do dia anterior, os elementos se puseram de acordo para orquestrar uma manh gloriosa, do sol resplandecente e cu azul profundo.
Chegaram ao chal e Caitlin saiu correndo para receb-los; abraou-se aos joelhos de Caroline e levantou o rosto para receber um beijo. Ela se agachou, para abra-la e beij-la.
-Ol, boneca passaste bem? -Matthew a elevou pelo ar e, com um  rugido, simulou lhe mordiscar a orelha, a menina gritou encantada. Quando a deixou no cho, correu para uma agradvel mulher de meia idade e, agarrando-a pela mo, levou-a at Caroline.
-Esta  Gladys.
Por cima da cabea da menina, as duas mulheres se sorriram.
-Foi tudo bem? -perguntou Matthew.
-Perfeitamente -respondeu Gladys-. Quando a deitei me perguntou onde vocs estavam, mas se tranqilizou quando lhe assegurei que voltariam esta manh... 
Caroline recordou sua suspeita de que Matthew tivesse planejado essa noite juntos e lhe lanou uma rpida olhada, mas estava tranqilo, sem nenhum trao de remorso ou culpa.
-Disse-me que Caro sempre lhe conta a histria de um sapo -continuou Gladys-. Mas como eu no sabia,
conformou-se com as aventuras de um drago chamado Donald...
-J podemos ir? -saltou Caitlin, lhe puxando pela saia.
-Est impaciente para reunir-se com as outras crianas -explicou Gladys-. Mas lhe disse que tnhamos que esperar at que voltassem.
-Podemos ir, papai?
-Sim, podem ir -respondeu ele.
-Quer vir conosco? -Caitlin agarrou a mo de Caroline e a olhou.
-Sim...
-No, hoje no -interrompeu Matthew com firmeza. Caroline tem coisas a fazer -voltou-se para  Gladys e perguntou -. No h escassez de pessoal, verdade?
-Oh, no, h pessoal de sobra e temos o dia organizado -exclamou Gladys com entusiasmo- Todos adoram a aula de pintura, e preparamos os colchonetes elsticos. Depois de comer, montaremos no trem de brinquedo e visitaremos Brinquedolndia, depois lancharemos com Papai Noel,... 
-E com seus duendes e suas renas... -acrescentou Caitlin contente, enquanto colocavam os casacos.
-Vocs a colocaram para dormir esta noite? -inquiriu Gladys. 
-Sim, claro -resmungou Caroline, envergonhada por Gladys lhes tratava como se fossem um casal, em lugar de um chefe e sua empregada. Perguntou-se por que Matthew no havia dito nada que corrigisse essa impresso. 
-Ento a trarei de volta s seis horas.
-No  preciso - disse Matthew-. Eu mesmo irei pegar ela.
-Ento j vamos, anjo -disse Gladys. Depois de recolher o ursinho Barnaby, partiram de mos dadas para o edifcio central.
-Parece que sua creche  um grande xito -comentou Caroline, intranqila por ficar de novo a ss com
Matthew e no poder retomar a seu papel de bab.
-Como te disse, enquanto as crianas aprendem e se entretm, os pais e as babs habituais podem
desfrutar por sua conta... E o que gostaria agora mesmo  tomar uma ducha quente. O que voc acha? -Parece-me uma grande idia.
-Depois, como estamos de frias, pensei que poderamos sair.
-Sair? repetiu ela. 
-Suponho que no pensar em ficar em casa com um dia to precioso.
No, mas... sou  a bab de Caitlin, uma assalariada, e... Caroline calou.
-Depois de ontem  noite, no te parece um pouco tarde para preocupar-se por isso?
-J sei que ests arrependido, e estou de acordo contigo em que no devia ter ocorrido, mas estou disposta a esquecer tudo se voc... -Caroline calou, sem saber como seguir.
-Podes esquec-lo?
-Sim, claro que posso -mentiu dissimulada-. Acredito que o melhor sria que voltssemos a ser simplesmente...
-Patro e empregada? -sugeriu ele, ao v-la hesitar. 
-Sim.
-Quer seguir trabalhando para mim? Seus verdes olhos brilhavam zombadores-. No tem planos de partir ?
Ela negou com a cabea, incapaz de pronunciar uma palavra.
-Bom, se quer seguir trabalhando para mim, tens que recordar que te pago para que faa o que eu quiser. Dentro do razovel -acrescentou com ironia. -Quer dizer, se requeiro sua presena como, digamos, acompanhante, espero consegui-la...
Maldito seja!, pensou Caroline, furiosa. Se no fosse por Caitlin, no suportaria sua arrogncia um segundo mais.
-Est claro?
-Muito claro -respondeu secamente. Ele assentiu com a cabea.
-Como no vamos fazer exerccio, sugiro-te que se agasalhe bem... -o tom de sua voz era mais amvel. E deixe o cabelo solto -sorriu, como se soubesse exatamente o que ela pensava nesse momento e acrescentou. -Por favor.
Caroline, com a cabea confusa, tomou banho e trocou de roupa. Seguia convencida de que tivesse sido
mais seguro voltar atrs na relao, mas no podia evitar sentir-se excitada. Uma excitao cheia de 
insegurana, apreenso e certa confuso e aborrecimento.
Se s desejava companhia, tinha que haver mulheres disponveis em um complexo termal to grande. Mulheres belas e sofisticadas que estariam encantadas de receber os olhares de um homem to atraente como Matthew. Por que teria insistido em que ela o acompanhasse, se nem sequer gostava dela? Fosse qual fosse o motivo, tinha deixado bem claro que estava ao comando, e no tinha mais remdio que danar ao som que ele tocasse.
Quando voltou para a sala, ele estava esperava-a. Tinha posto um casaco de couro e a cabea estava descoberta.
-Isso  o mais quente que tens? -perguntou, olhando seu jaqueto com desaprovao.
-Sim -afirmou ela, inexpressiva.
Ele se encolheu de ombros e saram para fora onde, para surpresa de Caroline, havia um tren puxado  por um cavalo. O jovem que esperava junto ao cavalo lhes entregou as rdeas.
Matthew ajudou Caroline a subir no veculo e depois se sentou a seu lado. Embora o sol brilhasse, o ar era frio e ela agradeceu que a tapasse com uma manta. Matthew deu uma sacudida s rdeas e estalou a lngua. Com um rangido e o alegre tinido das campainhas de arns, o tren comeou a andar e se encaminharam para a beira do lago, atravessando um pitoresco paraso de colinas recobertas de abetos e pinheiros nevados. Era uma experincia  to deliciosa e inesperada que Caroline comeou a sorrir.
-Tinha andado de tren alguma vez em um? -perguntou ele, olhando-a de relance.
-No -replicou ela. Mas acredito que dar um passeio em tren foi uma idia maravilhosa. 
-Ento no te arrepende de ter vindo? 
-No. Era impensvel arrepender-se. 
-A verdade  que tinha pensado em algo mais que dar uma volta.
-Sim? Caroline ficou em guarda.
-No se preocupe... -sorriu zombador - ...me fugir contigo no entra dentro de meus planos. 
-Nunca me ocorreu de pens-lo -objetou ela com altivez. Imediatamente compreendeu que havia voltado  a morder o anzol, e  procurou serenar-se-. Que planos tens?
-Ir s compras.  Amanh  Natal, e ainda no comprei um presente para Caitlin. Me ocorreu que poderia me ajudar a escolher algo. 
-Eu adoraria - disse ela com entusiasmo-. Assim eu tambm poderei comprar algo. De momento, s consegui comprar um livro de contos de fadas e tecer um gorro e um cachecol para o Barnaby.
-Acredito que esse ser o presente que ter mais xito -ele aprovou.
Uns trs quartos de hora depois, chegaram a Winfellows, o hotel principal do pitoresco e turstico Hemslock e, deixando o cavalo nas mos de um moo da cocheira, entraram para comer. A conversa foi leve e pouco pessoal; Matthew se esmerou em ser agradvel e Caroline, relaxada e contente, baixou a guarda e desfrutou de sua companhia.
Assim que acabaram, foram a p para as lojas. Havia adornos natalinos por toda parte, e as vitrines brilhavam, cheios de luzes, msicas e felicitaes festivas de todo tipo. Passaram mais de uma hora na seo de brinquedos das lojas de departamentos Mason, e finalmente se decidiram por vrios brinquedos que encantariam a qualquer menina.
Matthew escolheu um papel de presente com motivos natalinos, e pediu que enrolassem tudo e o enviassem ao hotel; a seguir comentou que faltava algo para comprar. Subiram um andar mais e, compreendendo subitamente que estavam na seo de casacos de pele, Caroline o olhou alarmada.
-Por que vamos... ?
-Porque penso comprar algo que te esquente -a cortou na metade da frase.
-No! -cravou os ps no cho e se negou a mover-se-. No quero que me compre nada.
Matthew a agarrou pelos ombros e, lhe cravando os dedos com fora, olhou-a com tal dureza que ela compreendeu que era uma advertncia.
-Quer me escutar antes de te pr histrica. Caroline? Isto no  um pagamento por servios prestados, se o fosse te compraria um visom; tampouco exijo nada em troca. No  mais que um presente de Natal.
-Odeio as peles -protestou tremente. 
Ento pode escolher algo de pele artificial.
Agarrou-a pelo cotovelo e a obrigou a mover-se. Selecionou um precioso casaco que, a olhos de uma inexperiente como ela, parecia de  visom. Lhe mostrou a etiqueta que dizia Beleza sem Crueldade e garantia que a pele era acrlica cem por cento.
-Prova isso.  
Era leve e suave e deliciosamente quente. O pescoo era muito largo, e ao levant-lo formava uma espcie de capuz que emoldurava o rosto. Embora no era pele de verdade, no cabia dvida de que era muito caro. 
-Ideal -declarou ele-. A no ser que voc goste de outra coisa.
-No, mas de verdade no quero... 
-Ento no o levamos -disse. Uma atendente se materializou junto a eles-. No se incomode em enrolar-lo. Minha noiva o usar agora. 
Aturdida, mas agradecida porque tivesse tido a considerao de lhe dar categoria de noiva, Caroline
seguiu-o at a caixa. Minutos depois, com sua jaqueta em uma bolsa da loja, saram  rua e foram para o hotel.
Uma vez conseguido seu objetivo, Matthew voltou a converter-se na agradvel companhia que tinha feito que dia fosse to especial. Caroline se encontrou respondendo de novo a seu encanto. Tomaram uma taa de ch no Winfellows, depois empilharam suas compras no tren e voltaram pela  tranqila estrada que bordeava o lago. O sol se tinha posto, e o cu havia se tornado de cor prola, com farrapos de nuvens cinzentas aqui e l. Comeava a anoitecer e as luzes do tren brilhavam nos aros contra a neve. Envolta no quente casaco, Caroline desfrutou da paisagem, digno de um carto natalino, e escutou o rudo apagado dos cascos do cavalo, imersa em uma borbulha de felicidade.
-Que idade tinha seu marido quando morreu?
A sbita pergunta fez que a borbulha se rompesse em mil pedaos. 
-Co...como?
Ele repetiu a pergunta.
-Tinha vinte e quatro anos -desconcertada, disse a verdade.
-Era muito jovem -comentou Matthew-. Tony, meu meio-irmo, tinha a mesma idade -continuando, com suavidade, perguntou-. Do que morreu seu marido?
-Tinha uma variedade de cncer pouco comum -respondeu ela rouca, depois de um momento de dvida. Por um momento, Matthew pareceu sobressaltar-se, depois seu rosto se tornou inexpressivo.
-Tony morreu em um acidente de carro. Sua esposa conduzia. S Deus sabe por que o permitiu; nevava e a estrada estava muito mal, e ela no estava em condies de ficar atrs do volante.
-Diz-o como se acreditasse que o acidente fosse culpa dela -disse Caroline, doda.
-No a culpo pelo acidente... isso foi inevitvel. Rodopiaram no gelo e se estrelaram contra o pilar de granito de uma ponte; Tony saiu voando pelo pra-brisa. Quando ela insistiu em conduzir, trocaram de lugar, e ele no fechou o cinto de segurana. Sim a culpo pela sua morte...
Culpo-a pela sua morte... A acusao reverberou na cabea de Caroline, e se apertou as tmporas com os dois dedos. O veredicto de Matthew lhe doeu ainda mais por destroar com a felicidade do momento anterior. Ficou quieta, sentia cada baforada de ar como uma punhalada.
Tony sempre tinha sido muito descuidado com o cinto de segurana, ela normalmente o lembrava. Mas aquela noite no o fez. Assim Matthew tinha razo. De certo modo era culpada da morte de Tony. Lhe escapou um gemido desolado.
-Ests bem? -exigiu Matthew.
-Sim, estou bem -replicou, com os lbios intumescidos.
-No ficaste mal por recordar a seu marido, verdade? 
-S tenho dor de cabea.
-Espero que no seja muito forte -embora solcita, sua voz encerrava uma advertncia velada-. Pensava te levar a festa de Vspera de Natal esta noite.
Cinco minutos atrs, embora no tivesse nada adequado que usar, a idia de ir  festa com ele a teria entusiasmado. Agora, punha-a doente pensar em que teria que atuar como se tudo estava bem. Mas recordou suas palavras daquela manh Se requeiro sua companhia... espero consegui-la , e se mordiscou o lbio, nervosa.
-Quando chegarmos, tomarei um calmante. 
Matthew no  fez nenhum comentrio e, excetuando os rangidos do arns e os rudos do tren, continuaram em silncio absoluto.
Caroline imvel, com os olhos nublados, estava absorta em seus pensamentos. Nunca lhe tinha ocorrido que Matthew pudesse culpar-la pela morte de Tony e o impacto que lhe produziu a acusao foi devastador. No tinha nenhuma possibilidade de defender-se nem de explicar suas aes.
Possivelmente no deveria ter aceito o trabalho, teria se economizado muita dor e sofrimento. Mas no teria conhecido a sua filha, nem desfrutado desses maravilhosos momentos nos braos de Matthew. No, no se arrependia.
Apesar de que a lembrana daquela noite, e do desespero do belo rosto de Tony, havia voltado para angusti-la... Nos primeiros  seis meses de casamento, Tony, esperando com nsia o nascimento de seu filho, perdeu seu ar melanclico.  Apesar do desmantelado apartamento, de sua escassez de recursos e de quanto lhe preocupava que Kate tivesse que trabalhar, estava mais alegre que nunca. 
 bvio que lhe fez bem o casamento. Nunca o vi to feliz -comentava Grace, encantada desde
que se inteirou de que ia ser av. John e Julie Jefferson, um jovem casal amigos de ambos, que vivia no Morningside Heights, tambm comentavam que sua futura paternidade lhe estava fazendo muito bem.
-Estava acostumado a ser um triste diabo no trabalho -comentou John com bom humor-. Agora est que d saltos de alegria.
Mas Kate, finalmente, viu-se obrigada a deixar de trabalhar. Seus problemas financeiros se incrementaram de forma alarmante e Tony recuperou sua palidez e introverso, estava sempre arrasado. Grace, preocupada com os dois e incapaz de compreender por que Tony se negava obstinadamente a pedir ajuda a seu meio-irmo, fez o que pde para ajud-los, mas ele seguiu cansado e doentio.
-A verdade  que tem muito m cara. Eu gostaria que fosse ao mdico -disse Grace a seu filho um domingo que tinha ido visitar-los.
-Levo tempo tentando lhe persuadir -assentiu Kate.- Possivelmente o faa por ti.
-No me passa nada -disse Tony com irritao- S que me canso e me doem os ossos. Ir ao trabalho e voltar de metr  suficiente para esgotar a qualquer um.
-Me acaba de ocorrer uma idia maravilhosa -gritou Grace com entusiasmo-. Ultimamente quando saio quase sempre vou em txi. quase no utilizo o carro. O que te parece se lhe dou ele de presente de Natal? Necessitaro um meio de transporte quando nascer a criana...
-Seria genial ter nosso prprio carro -disse Tony com saudade-. Mas duvido que pudssemos com o gasto
-Eu lhes ajudarei com os gastos de momento -disse-lhe Grace-. Mas s se for ao mdico.
O mdico da famlia o mandou a um especialista e Tony utilizou o carro para ir a uma consulta no hospital Grober, na zona oeste da cidade. Negou-se a mencionar a sua me que tinha que ir ao hospital, para no preocup-la, mas Grace insistiu em saber o que lhe havia dito o mdico. 
-H-me dito que tenho anemia. No  nada grave. 
Na sexta-feira seguinte, o dia que ia receber os resultados dos exames, os Jefferson davam uma festa de Natal, e convidaram Kate e  Tony. Kate, que estava a ponto de dar a luz, desculpou-se, mas animou  Tony para que fosse,  com a esperana de que se relaxasse um pouco.
Na sexta-feira  pela tarde, Tony saiu cedo do escritrio para ir  consulta que tinha com o especialista s quatro horas.
-Acompanharei-te -ofereceu Kate, vendo-o nervoso. 
Ele fez um gesto negativo.
-Estes mdicos to importantes nunca cumprem o horrio. Estar esperando durante horas. Fique aqui e ponha os ps para o alto, como te disse o ginecologista. 
Assim que a  porta se fechou atrs dele, Kate desejou ter insistido mais. Demorou uma  eternidade em voltar e Kate, cada vez mais preocupada  e nervosa, esperava com nsia o rudo da chave na fechadura. Eram mais de sete horas quando chegou, e assim que cruzou a soleira Kate soube que algo ia mal. Tinha a cara  desencaixada e seus olhos pareciam dois buracos negros pintados em um lenol branco.
-Que  que tens? -murmurou. 
Tony se afundou no sof a seu lado.
-Dizem que  uma perniciosa variedade de cncer, pouco comum, e que tenho muito poucas esperanas de viver at que o beb tenha trs meses.
-No...No! Com todos os adiantamentos mdicos tem que haver algo que possam fazer...
-Est claro que o tentaro, mas o especialista se negou a me dar o que denominava falsas esperanas. Kate o rodeou com os braos e embalou sua cabea contra o peito.
-Pois eu no penso em perder a esperana -disse com confiana.- Quero que vivas para ver crescer a nosso beb. 
-Embora o consiga, quero que saiba que me casar contigo  o melhor que tenho feito. Estes ltimos meses foram os mais felizes de minha vida de adulto -disse ele, depois de uns minutos de silncio. Depois, com alegria forada, continuou-. Enfim, se no ficar muito tempo, tenho que aproveit-lo bem. No te importa se sair por algumas horas?
-Aonde vai? -perguntou ela com a boca seca. Tinha notado que o flego cheirava a Bourbon, tinha estado bebendo.
- festa de John e Julie no te lembra?
-Tomar um txi, verdade?
-No temos dinheiro para esbanjar em txis -replicou com expresso teimosa, e ela compreendeu que tinha bebido mais da conta-. Ainda no estou no caixo, sou perfeitamente capaz de dirigir.
-Sabe de uma coisa? Estou farta de estar aqui. Acredito que irei contigo -disse Kate, convencida de que se tentasse persuadi-lo no conseguiria nada. Ele a olhou surpreso.
-Essa  minha garota. Aproveita minha companhia enquanto ainda estou aqui -disse, com uma careta horrvel.
Ela tinha a esperana de que, se fosse com ele, conseguiria convenc-lo a ir de txi, mas ele, ignorando suas splicas, ajudou-a a subir no carro e ficou ao volante. Nevava quando se encaminharam para o Morningside Heights em silncio. De repente era como se no ficasse nada por dizer.
Chegaram ao diminuto apartamento dos Jefferson justo quando a festa comeava a animar-se. Julie, pequena, morena e vivaz, abriu-lhes a porta.
-Entrem, amigos -exclamou, embora a surpreendesse ver Kate ali. Pendurou seus casacos e, depois de um breve e escrutinador olhar a ambos os rostos, levou-se Kate  cozinha enquanto Tony se dirigia para o bar.
-Brigaram? -perguntou Julie, depois de acomod-la em uma cadeira de balano.
-No.
-Ento, o que se passa? Por que Tony saiu correndo como se no pudesse esperar para tomar uma
taa?
Kate intumescida de angstia, lhe contou.
-Oh meu Deus! -sussurrou Julie. -No sei como se vai dizer a sua me. Grace o adora, isto a destroar -de repente, comeou a chorar. -Olhe ser melhor que te deite um momento em minha cama.Eu tenho que fazer o papel de anfitri, mas pedirei a John que fique atento a Tony -ofereceu Julie, quando a Kate j no restavam lgrimas.
Perdida em sua tristeza, Kate se deitou na escurido, com os olhos abertos, escutando a msica, as vozes e as risadas da habitao contgua, at que o rudo comeou a diminuir e Julie voltou para lhe comunicar que a festa estava terminando.
-Temos um pequeno problema. John tentou chamar um txi mas Tony insiste em conduzir. Est
esperando no carro; est muito bbado, tem que lhe impedir.
Kate colocou o casaco e John a acompanhou ao exterior.
-O cho est escorregadio, ser melhor que te apie em meu brao.
Quando chegaram ao carro, o motor estava ligado, e Tony estava meio deitado sobre o volante. 
-Vamos, amigo -urgiu John-. No est em condies de conduzir. Sai e chamarei um txi.
-No penso em sair. Vamos de carro -resmungou Tony em tom beligerante. 
-Ento, passe ao outro assento e me deixe conduzir -suplicou Kate.
Para sua surpresa e alvio, concordou. Seu nico pensamento era lev-lo para casa so e salvo, e desceu  pela rua Tahlequah em direo a ponte elevada... 

-No te importa de voltar a p das cavalarias? -a voz de Matthew irrompeu em seus escuros pensamentos. 
-No, no me importa -replicou Caroline, voltando para presente de repente.
Nesse momento, entravam no centro termal. Chegaram s cavalarias, recolheram os pacotes e, depois de agradecer ao encarregado, foram para o chal.
Quando Matthew abriu a porta da sala, Caroline viu que tinham levado uma rvore de dois metros de altura e uma caixa de enfeites natalinos na sua ausncia.
-Me ocorreu que, quando Caitlin voltar, poderamos decorar a rvore e pr os presentes embaixo -explicou Matthew.
-Sim, ela adorar nos ajudar -Caroline tinha estado desejando aproveitar a festa de Natal, mas agora sua alegria era forada.
-Antes tenho que ir at a recepo. Esta noite espero uma visita, e tenho que me inteirar de que hora chegar -a voz de Matthew tinha um tom estranho. Caroline, inquieta, lanou-lhe um olhar -.  algum que acredito que voc gostaria de conhecer -continuou ele com um sorriso suave, mas ameaador, nos lbios.
Subitamente, sem saber por que, Caroline observando o dirigir-se para a porta, estremeceu-se.



Captulo 7

Quando Matthew partiu, Caroline, com uma enxaqueca terrvel, tomou um par de analgsicos e foi tomar um banho quente, com a esperana de que a relaxasse. Acabava de colocar uma saia de l fina e um suter quando ouviu a voz de Matthew e, um instante depois, a de Caitlin chamando-a com insistncia.
 -Caro, caro, vem em seguida.
Caitlin correu para ela e lhe ps nas mos uma grande caixa envolta com papel de presente vermelho e dourado. 
-Barnaby e eu o temos comprado... e lhe temos escrito um carto -disse, dando-se importncia.
-Ah, obrigado, querida -Caroline, em ccoras, abraou  menina.- So os dois muito bons.  
-Abre-o -urgiu Caitlin dando saltos de alegria. Se for um presente de Natal, ter que p-lo sob a rvore at manh. Papai h dito que o abra agora.
Matthew assentiu com a cabea e Caroline abriu o envelope que havia sob o lao. Havia vrios garranchos retorcidos no carto e, com a firme caligrafia de Matthew uma nota Com carinho de Caitlin e Barnaby P. Urso. 
-Barnaby P.Urso? -perguntou a Matthew, divertida. 
-Deveria saber que todos os ursos americanos tm nome composto.
-E que significa o P? 
-Peludo -asseverou ele com seriedade.
Ela sorriu e, com a ajuda de Caitlin, tirou o lao e o papel da caixa. Em seu interior, envolta em papel de seda, havia uma pea de seda de cor gua-marinha. Caroline, com mos trementes, tirou um vestido de noite at os tornozelos, de corte delicioso, exatamente da cor de seus olhos.
-Voc gosta? -exigiu Caitlin.
- precioso -replicou Caroline.
-Compramos mais, verdade, papai? -Caitlin bailando.
-Pensamos que possivelmente necessitasse de algum acessrio -disse Matthew, como se conhecesse a sobriedade de seus pertences, e lhe entregou uma pequena caixa alargada, envolta do mesmo modo. Continha umas sandlias prateada e uma pequena bolsa combinando.
-Barnaby e eu os elegemos -informou Caitlin com orgulho.
-Obrigado, querida -Caroline beijou a carinha da pequena.
-Beija o Barnaby...
Barnaby recebeu um sonoro beijo em seu nariz preto.
-E ao papai -pediu Caitlin.
-Seu papai  muito grande para que o beijem -objetou Caroline rapidamente.
-No  muito grande... No , papai?
-Certamente que no -disse Matthew, o brilho de seus olhos indicava que era consciente do desconforto de Caroline.
Sem ter outra opo, ficou nas pontas dos ps e acariciou brandamente sua bochecha com os lbios.
-Bom, onde vamos pr a rvore de Natal? No canto ou junto  janela? -perguntou Matthew. Depois de recompens-la com um sorriso zombador.
-Eu acredito que junto  janela.
Caroline se tirou a dor de cabea e, determinada a desfrutar desse momento, ajudou Caitlin a tirar os enfeites natalinos da caixa, enquanto Matthew colocava a rvore.
Entre risadas, enfeitaram-na com rstias de luzes, bolas e brilhantes tiras de espuma. Quando todo os ramos reluziam, Matthew levantou Caitlin para que pudesse colocar a estrela na ponta. Depois, acendeu as luzes e admiraram o mgico efeito antes de colocar os presentes a seu redor.
- hora de deitar-se, boneca -disse Matthew a Caitlin.- Vou levar Caroline para jantar e depois  festa, para que possa estrear seu vestido. Gladys vir para te cuidar at que voltemos.
-Posso dormir com Jane, papai?
-Na creche?
-Sim.
-No vejo por que no... prefere-o?
Caitlin assentiu com deciso.
-Mas Papai Noel saber onde procur-la? -objetou Caroline rapidamente.
-Claro que sim -Matthew dissipou a dvida-. Para facilitar o trabalho dos empregados, e tambm porque os meninos o preferem, est noite dormiro na creche mais de meia dzia de crianas. Todas vo pendurar suas meias para Papai Noel. Na realidade  mais lgico, e assim Gladys no ter que estar aqui s toda a noite. 
Caroline compreendeu que j estava decidido.
-Pela manh, assim que tomemos o caf da manh, iremos te pegar e viremos para abrir todos os presentes que h debaixo da rvore, certo? -disse Matthew a Caitlin. 
A menina assentiu entusiasmada, e ele se voltou para Caroline.
-Poderia ir pegar o pijama de Caitlin e qualquer outra coisa que possa necessitar...? -embora seu tom era de pedido indubitavelmente era uma ordem-. Levarei-a para a creche enquanto voc se prepara.
Caroline no teve mais remdio que obedecer; depois, abrigou bem a Caitlin, beijou  menina e ao urso e os despediu da porta. Demorou meia hora em preparar-se e, quando saiu do dormitrio, encontrou-se com  Matthew que, j de banho tomado e vestido com um impecvel terno de marca, esperava-a.
O olhar de Matthew a percorreu de cima a baixo, e uma chama se acendeu em seus olhos felinos.
O vestido era perfeito e acariciava com sutileza cada uma de suas curvas. A cor verde azulada do tecido era um eco da de seus olhos e fazia que brilhassem como jias. Tinha feito caso omisso a Matthew e, em vez de deixar o cabelo solto, o tinha recolhido em um coque alto, que ressaltava seu pescoo longo e a estrutura de seu rosto. Apesar de todo o ocorrido, desejava estar bela para ele. E lhe teria gostado de ouvir um elogio, ou umas palavras de admirao.
Mas ele, alm do trrido olhar inicial, no deu nenhuma amostra de que gostasse do que via. Com o rosto tenso, ofereceu-lhe o casaco que a tinha presenteado nessa tarde. Sem dizer uma palavra, ela o ps e permitiu que a escoltasse at a porta.
Embora os caminhos principais sempre estavam limpos, nevava brandamente, e no era fcil andar com sandlias de salto alto. Matthew lhe ofereceu seu brao e ela o aceitou agradecida.
O restaurante principal estava cheio de homens bem vestidos e mulheres adornadas com jias, mas o matre os recebeu  porta, murmurou que havia uma mesa reservada para eles e, depois de fazer que se encarregassem de seus casacos, conduziu-os para uma rea se separada do bulcio.
Embora a decorao era singela, Caroline notou que essa aparente simplicidade s podia conseguir-se com muito dinheiro. Quando o garom anotou seu pedido e partiu, Matthew, que parecia mais relaxado, pegou-a pela mo.
-Ainda no te disse que ests encantadora.
-Obrigado -um suave rubor tingiu suas bochechas e, com voz entrecortada, acrescentou-. O devo ao vestido.
-No, com isso no posso estar de acordo -disse o com voz rouca. Poderia no gostar dela, mas no cabia dvida de que sentia uma forte atrao fsica por ela. Enquanto degustavam truta do lago com amndoas, regada por um vinho branco de Napa Valley, Matthew voltou a ser o acompanhante encantador que tinha sido durante a refeio. Relaxado e de bom humor, entreteve-a com vividas descries do Oriente, que conhecia bem. Caroline, embora no tinha recuperado o equilbrio, depois desse dia cheio de desigualdades, esforou-se em apartar o abatido rosto de Tony de sua mente, e logo comeou a sentir-se melhor. Quando terminaram de jantar, estava quase contente e disposta a desfrutar do resto da noite. Seguiram conversando tranqilamente enquanto tomavam o caf e uma taa de branda, at que Matthew olhou seu relgio de pulso e ps ponto final a sobremesa. 
-Ser melhor que vamos  festa. Como te mencionei antes, vir uma pessoa que eu gostaria de te apresentar.
Caroline notou certa tenso em sua voz e o olhou intranqila, mas seu rosto no mostrava nenhuma emoo.
O salo de baile estava profusamente decorado e, quando chegaram, a festa estava muito animada. Havia um balco de bar bem provido e mesas dispersadas ao redor da pista. Uma pequena orquestra interpretava msica de Gershwin sobre um estrado situado ao fundo do salo. A meia luz, vrios casais danavam.
Matthew se voltou para Caroline e, sem trocar uma palavra, ela aceitou seus braos. Nunca tinha danado com ele antes mas, como se fossem feitos um para o outro, seus corpos se uniram em um s ser harmnico e compassado. Caroline se deixou levar pela felicidade do momento, desejando que durasse para sempre, e danaram como se fossem o nico casal da pista. Quando a msica parou, foi como se despertasse de um doce sonho. Piscou e lhe sorriu. Durante um instante, ele a olhou como
na primeira  noite em que estiveram juntos.
Matthew, com um brao rodeando sua cintura, guiava-a para a mesa que tinham reservada, quando algum os chamou.
-Comeava a acreditar que teria que partir sem ver-te.
Caroline se voltou para a voz e se encontrou frente a frente com um fantasma. Tinha aproximadamente a mesma estatura que ela, e um rosto magro e sensvel, cabelo preto e encaracolado e olhos castanhos.
A impresso foi fulminante. Notou um intenso assobio nos ouvidos e tudo se tornou escuro. Unicamente a fora do brao de Matthew impediu que casse ao cho. Caroline abriu os olhos, estava deitada em um sof em uma sala que lhe resultou vagamente familiar. Quando comeou a limpar-se, compreendeu que estavam no apartamento privado de Matthew. Ele estava sentado a seu lado, olhando-a fixamente com o rosto muito tenso.
-Como ests? -parecia transtornado e tinha a voz rouca, com uma curiosa mescla de ira e ansiedade.
-Estou bem -acertou a dizer ela.
-Deste-me um bom susto -resmungou.
Ela tremeu. No podia ser nada comparado com a impresso que tinha recebido ela. Mas no podia admiti-lo.
-Sinto muito... -tentou explicar seu desmaio-. Fazia muito calor e no deveria ter tomado brandy. No tenho cabea para o lcool... -inspirou profundamente e continuou-. Sinto ter dado um espetculo diante de... de todo o mundo.
-No acredito que se fixasse muita gente, alm de Derek.
Derek Newman... O primo de Tony que foi padrinho de seu casamento... A semelhana familiar era to grande que por um momento tinha acreditado ver um fantasma.
-Era a pessoa que queria que conhecesse? -perguntou, com as mos fortemente apertadas.
-Sim -limitou-se a responder Matthew, embora seu rosto tivesse se endurecido. Ela sentiu um calafrio. Teria preparado o encontro de propsito, esperando que se delatasse? No, era impossvel. Isso significaria que conhecia sua identidade. Possivelmente sabia tudo e estava brincando de gato e rato com ela, esperando que ela perdesse a prudncia.
Era possvel que fosse to cruel? Com o corao lhe tamborilando contra o peito, soube que sim. Ele odiava Kate, e  fcil ser cruel com quem se odeia. 
-Derek  segundo primo de Caitlin e, alm de sua me, acredito que  seu parente mais prximo -explicou Matthew. Fazia muito tempo que no o via. Trabalha em Nova Esccia, mas agora ia para o sul; sua noiva vive em Calow, e vai passar o Natal com ela. Quando se inteirou de que eu ia estar em Clear Lake, decidiu fazer uma breve visita a caminho.
-Est aqui ainda? -perguntou Caroline, sentando-se. 
-No, teve que partir. O tempo est piorando e tinha medo de ter problemas.
-Sinto muito ter estragado sua visita -desculpou-se Caroline, tentando ocultar seu alvio por que ele havia ido.
-Cumpriu sua funo... -afirmou Matthew. A ela lhe gelou O sangue nas veias-. Queria trazer um presente de Natal a Caitlin... -um golpe na porta o interrompeu.- Deve ser o ch que pedi -levantou-se e dirigiu-se para a porta.
-Obrigado. Sim, j est bem -Caroline ouviu-lhe dizer-. No, no  preciso que venha o mdico. Foi o calor que fazia no salo.
Voltou com uma bandeja com ch, p-la em uma mesinha baixa e serviu uma taa, acrescentando bastante acar. 
-No tomo com acar -objetou ela. 
-O ch doce  bom para recuperar-se de desmaios e tonturas -asseverou ele com firmeza.
Caroline  aceitou a taa. Lhe fez sentir muito melhor do que esperava e quando o acabou se sentia muito melhor.
Matthew se sentou junto a ela, levantou sua mo e tomou o pulso 
-Isto est muito melhor -murmurou satisfeito-. O pulso se estabilizou e tem um pouco de cor nas bochechas.
Seu escrutnio fez que se ruborizasse. Inquieta por sua proximidade e pelo efeito que lhe causava, apartou a mo.
-Ainda  bastante cedo. Quer voltar para a festa...?
-J no tenho vontade de festa, e voc? 
-Tinha pensado em ir  cama. 
-Isso me parece uma idia excelente -ronronou ele. 
-S preciso me pr o casaco... -ento se deu conta de que estava descala-. E as sandlias.
-Decidi que ficaremos aqui. No quero que tenha que voltar a sair em uma noite to ruim. Com movimento suaves e firmes, comeou a lhe tirar os grampos do cabelo e quando caiu em cascata sobre seus ombros, inclinou-se para beij-la.
Ela fechou os olhos, tentando lutar contra seus sentimentos. Mas a suavidade e gentileza de seu beijo foi tal que ter os olhos fechados s serviu para intensificar a sensao que lhe produziam seus lbios. Apertou os dentes para no render-se, para no derreter-se de amor e desejo.
Sabia que ele no a queria, mas a beijava como se fosse o que mais desejava no mundo e ela desejou acredit-lo. Mas isso era enganar-se a si mesma.
-Por favor Matthew -gritou, apartando o rosto. A sbita e apaixonada splica o pegou de surpresa e segurando-a suavemente pelos ombros, voltou-se para trs para olh-la.
Ela, tremente, tentou liberar-se, mas ele no o permitiu. Abraou-a e a acariciou as costas, tranqilizador.
-Deseja-me tanto como eu a ti. Por que lutar contra isso? Do que tem medo?
De que no me queira. De me sentir ferida. Humilhada. Desprezada. De mil coisas. 
-O que sou para ti? -perguntou-lhe. 
-Todo homem tem sua debilidade -seu rosto se endureceu- Digamos que voc  a minha. 
-No sou simplesmente uma mulher que est disponvel quando deseja uma? 
Durante um instante pareceu zangado, mas depois respondeu quase com inapetncia.
-Se fosse to simples como isso, nenhum dos dois teria que preocupar-se. No h escassez de mulheres disponveis. Por desgraa, parece que nenhuma outra me serve.
Aproximou a boca, severa mas sensual, e ela, involuntariamente, ficou rgida.
-S vou beijar-te, nada terrvel -disse zombador-. Depois, se ainda te ope... -no acabou a frase.
Dessa vez, quando a beijou ela tinha os lbios entreabertos. Persuasivo e ardente, conseguiu que os abrisse mais, aprofundando o beijo. Ela sentiu que o fogo corria por suas veias, derrubando as poucas defesas que restavam. Quando por fim se apartou, ela tinha os olhos fechados.
-Caroline? -sussurrou seu nome e lhe ps a mo na bochecha.
Ela abriu as plpebras pesadas e o olhou. Sua expresso era tensa,  espera. Compreendeu que realmente ia deixar que ela decidisse. Se se rendia agora, estaria perdida para sempre, seria sua escrava. Mas, acaso j no o era? Era dono de seu corao, e nunca poderia amar a outro homem. Com um suave murmrio de assentimento, demonstrou sua entrega lhe beijando a palma da mo. Resplandecente de paixo e triunfo, levantou-a nos braos e a levou a dormitrio que ela recordava de quase quatro anos atrs. Despiu-a com urgncia e a deitou sobre a cama, antes de ele despir-se. Quando se inclinou para beij-la, rodeou-lhe o pescoo com os braos e o aproximou de seu corpo, desejando o contato de suas mos. Nada importava j, nem sua ocasional falta de amabilidade nem sua crueldade deliberada, nem sequer o medo de sentir-se ferida e rechaada, de perder sua auto-estima. Alagou-a uma felicidade selvagem, e s sentia agradecimento porque estivesse ali com ela.
Como se no pudessem cansar-se um do outro, envoltos em uma espiral sem princpio nem fim, fizeram  amor, ardentes de paixo.
Na manh seguinte Caroline despertou e ficou um momento deitada com os olhos fechados, imersa em sua felicidade. A noite passada entre seus braos tinha sido plena, uma unio to espiritual como fsica. Com um suspiro, estendeu a mo para ele, mas estava sozinha na cama.
Apartou o edredom, colocou um robe de seda que havia sobre uma cadeira e se aproximou da janela para correr as cortinas e olhar o branco mundo do exterior. Durante a noite, tinha deixado de nevar e o cu estava limpo. Era a manh de Natal mais maravilhosa de toda sua vida, um presente envolto em felicidade e jbilo.
Com o corao leve como um pssaro, foi ao banheiro, onde conseguiu encontrar uma escova de dentes nova e um tubo de pasta de dente. Escovou os dentes, tomou banho e, depois de passar um pente pelo cabelo, voltou a pr o robe, bastante mais adequada para tomar o caf da manh que um traje de noite.
Matthew, com calas escuras e um pulver de gola alto, estava na cozinha servindo caf. Embora Caroline estivesse descala e no fizesse nenhum rudo, voltou-se quando ela chegou.
-Bom dia -sorriu-lhe ela, com o rosto iluminado de amor e felicidade, disposta a abra-lo.
-Bom dia -replicou ele, com fria formalidade e expresso carrancuda. No havia nem rastro da calidez que ela esperava-. Estava a ponto de te levar uma taa de caf.
-Obrigado -disse, com tom corts, esforando-se para ocultar seu desconcerto, e aceitou a taa que ele lhe oferecia.
-Pedi o caf da manh, para terminar antes... -informou-a. Caroline se tinha feito  idia de lhe preparar o caf da manh e desfrutar de uns minutos de clida intimidade antes de irem juntos pegar Caitlin. Mas segundos depois bateram na porta.
- Entre! -exclamou Matthew.
Um jovem entrou com um carrinho e, com grande eficcia, disps seu contedo sobre a mesa. Quando partiu, Matthew, com estudada cortesia, retirou uma cadeira para Caroline, antes de tomar assento.
O que gosta? -perguntou, como se falasse com uma estranha.
Ela, para ocultar que tinha perdido o apetite por completo, serviu-se de umas fatias de bacon tostado e batatas salteadas, e simulou comer. Matthew se serviu de ovos mexidos e comeu em silncio. Tinha uma expresso distante, e parecia tenso, como uma bomba a ponto de explodir.
-Faz uma manh preciosa -comentou ela depois de um momento, incapaz de suportar a tenso um momento mais.
Ele no respondeu, e lhe lanou um olhar que parecia desqualificar tanto a ela como a sua tentativa de iniciar uma conversa.
-No entendo por que ests to distante, to zangado...-resmungou ela, ferida por sua indiferena. 
Ele levantou a cabea e a olhou fixamente. 
-Ontem  noite pensei que...-perdendo a coragem, no conseguiu acabar.- O que  que vai mal? -perguntou desesperada.
-Nada vai mal, simplesmente a luz do dia faz que se vejam as coisas de outra maneira -replicou ele, com olhos frios e uma careta nos lbios-. Com a volta da prudncia fica claro que o de ontem  noite no devia ter acontecido.
Estava arrependido, assim como tinha feito na outra noite em sua casa. Caroline recordou perfeitamente a conversa, ele tinha perguntado:  Ests arrependida? E quando ela replicou: Deveria est-lo?, ele a amassou com sua resposta: Possivelmente os dois devamos est-lo. Perdendo a esperana, Caroline se sentou, destroada. Tinha sido uma estpida ao supor que a noite passada mudaria as coisas. A sensao de satisfao e amor pleno no tinha sido mtua. Claro que a tinha desejado, mas para ele a satisfao tinha sido meramente fsica. E de curta durao.
-Desde o momento em que te beijei pela primeira vez soube que haveria problemas... e tinha razo. Note ao que nos levou -disse ele friamente, observando-a.
-Diz-o como se me culpasse  -replicou ela cortante, ocultando sua dor.
-Assim .
-Eu no te pedi que me beijasse -protestou ela rouca-. E se a tormenta no nos tivesse pego...
-O caso  que nos pegou.
-Isso no foi minha culpa. Eu queria voltar depois de comer.
-Diz-o como se me culpasse  -mofou-se ele.
-Assim .
-Por interpretar mal o tempo?
-No deveria ter ocorrido.
-Acaso acreditas que o fiz de propsito? Que planejei tudo? -sorriu ele. 
Ela esteve a ponto de dizer que no mas ao ver o brilho zombador de seus olhos, recordou suas suspeitas.
-Acredito que voc o preparou.
-Tens toda a razo -admitiu ele tranqilamente.
-Planejou tudo a sangue frio e me seduziu s para te liberar de um fantasma! -irada, continuou-. Como te atreve a me dar a culpa?
-Os homens levam culpando s mulheres desde que Eva tentou a Ado.
-Mas isso no  justo -gemeu ela.
-Onde est escrito que a vida seja justa? -Matthew, ao ver que no respondia, seguiu com um tom mais calmo. Vers, h um problema: o plano no funcionou. No consegui me liberar do fantasma de Kate...  bem ao contrrio. Mas como... complica muito a vida... 
Convencida de que a coisa no ia ficar a, olhou-o com apreenso enquanto ele voltava a encher as taas de caf. 
-Acredito que te disse que queria adotar Caitlin, no? -com a alma apreensiva, Caroline assentiu com a cabea, e ele continuou com voz seca e decidida-. No quero que me neguem a adoo e no me parece prudente ter uma aventura com sua bab. Voc o que acha?
-Estou de acordo- disse Caroline, depois de tragar saliva-.  o que tentava te dizer ontem.
-Ento, est disposta a que voltemos a ser patro e empregada? A ser simplesmente uma bab?
-Sim -reps ela, sabendo que pisava sobre areia movedia.
-No acredito que funcione.
-Posso fazer que funcione -insistiu ela, assustada.
-Pois eu no -espetou ele-. Inclusive se me casasse, mas como facilitaria muito a adoo, se seguisse vivendo debaixo de meu teto, no poderia resistir a tentao que representa. E, como acabo de dizer, no seria sensato nem desejvel ter uma aventura com a bab de minha filha -seu rosto se
endureceu como se fosse de granito-. Por isso, temo que depois do Natal... -no acabou a frase.
-Quer que me v... -murmurou ela com voz tnue. 
-Darei-te um ms de salrio por no te ter avisado com antecipao, e boas referncias...
Suas palavras a feriram como se a houvesse apedrejado. No, no podia diz-lo a srio... Mas na realidade sabia que sim.
Tinha-lhe parecido um milagre que o destino lhe tivesse oferecido outra oportunidade de estar junto a sua filha mas, por culpa da indmita atrao sexual que seguia existindo entre Matthew e ela, tinha perdido tudo. Queria chorar, suplicar, mas no serviria de nada, e seria muito esclarecedor.
-No vais protestar? -inquiriu ele com olhos zombadores, como se lhe tivesse lido o pensamento-. Nem a me pedir que mude de opinio? 
-Serviria de algo?
-No saber se no o tentar.
-Voc gostaria de me ouvir suplicar, verdade? -acusou-o, levantando o plido rosto. Sabia com certeza que estava brincando com ela.
-Produziria-me um grande prazer -admitiu ele com um sorriso amargo.
-E um prazer ainda maior, te negar, no?
-Adivinhas por que?
-Porque te lembro a... Kate. Como no pode fazer mal a ela, usa-me de bode expiatrio.
-Faz um momento deixou muito claro que, custasse o que custasse, queria seguir trabalhando para mim.
-Voc acaba de deixar muito claro que no seria possvel -replicou ela, tentando manter a voz calma.
-E no o seria. Mas estava disposta a tent-lo. Por que, depois de como te tratei? Qualquer bab normal o teria deixado muito antes.
-Eu... tenho muito carinho a Caitlin.
-Depois de to pouco tempo?
- uma menina adorvel.
-Estou seguro de que, normalmente, as babs procuram no afeioar-se muito.
-s vezes  difcil no faz-lo -sua voz tremeu, era consciente do perigo. Se ele suspeitasse...
-Pensei que possivelmente queria ficar por outra razo.
-Por outra razo? -repetiu ela.
-Outra razo, alm de Caitlin -explicou ele. Ela o olhou fixamente e ele sorriu zombador-. Desde o primeiro momento, sua reao a mim no foi absolutamente como a de uma bab a seu patro...
De repente, Caroline compreendeu que ele lhe estava oferecendo uma via de escape. Se admitia que estava interessada nele...
-Como sabe muito bem,  o tipo de homem que agrada s mulheres -disse com voz entrecortada.
-Insinuas que tens carinho por mim? 
-S  atrao sexual -refutou ela, negando-se a morder o anzol.
-Seja o que for,  bastante explosivo. E mtuo. Quais so suas conseqncias? -antes de que ela pudesse falar, respondeu ele mesmo a pergunta-. Que eu fico sem bab e voc sem trabalho... a no ser que...
-A no ser que...? -repetiu Caroline. No sabia o que podia esperar, e era consciente de que possivelmente ele s estava prolongando sua agonia, mas no pde dissimular o tom esperanoso de sua voz.
-A no ser que resolvssemos nossos problemas nos casando.
Ela o olhou com a boca aberta. Embora tinha falado em casar-se, o que menos se esperava era que sugerisse casar-se com ela.
-Seria a soluo ideal -prosseguiu Matthew-. Facilitaria a adoo e proporcionaria a Caitlin a estabilidade que desejo para ela. Eu ganharia uma esposa e uma bab de confiana. Voc ganharia uma casa e uma menina com a qual j est afeioada -lanou-a um estranho olhar-. E um marido que poderia te fazer feliz... ao menos na cama...
-Ento, no te refere s a um casamento de convenincia?
-Refiro-me a um casamento de verdade.
-Oh...
-O que respondes? -perguntou. Como ela seguiu olhando-o em silncio, impaciente insistiu-: O que?
Seria maravilhoso ser sua esposa mas, a que preo? E ele s queria casar-se com ela para faz-la sofrer? Enquanto Matthew escrutinava seu rosto indeciso, os sentimentos de Caroline oscilavam como um pndulo entre o desejo e o medo.
Durante um segundo, a nica coisa importante era que j no seria uma bab, que podiam despedir a qualquer momento, mas a me de Caitlin e a esposa de Matthew; um segundo depois a invadiam as dvidas, sabia que casar-se com Matthew seria to perigoso como viver no meio de um campo minado...
Havia alternativa?
Podia admitir sua identidade e tentar reclamar a sua filha... Mas no tinha onde viver, nem meios para manter  menina. Seria uma loucura privar Caitlin de um bom lar e de um pai que a queria e que cuidaria bem dela. Tambm era impensvel partir e no ver sua filha, nem ao homem que amava, nunca mais.
Tinha que aceitar a oportunidade que lhe oferecia... Quando levantou os claros olhos gua-marinha, inconscientemente, j tinha decidido e Matthew soube que tinha ganho.
-Sim? -perguntou, com um matiz triunfal em sua expresso.
-Sim, casarei-me contigo -aceitou ela, embora sabia que pagaria um preo muito alto por sua deciso.
-Bem -Matthew assentiu com satisfao-. Agora vou at o chal para te trazer um pouco de roupa. Depois, iremos pegar Caitlin e lhe daremos a boa notcia.




Captulo 8

Tinham fechado as cortinas e abaixado as luzes; o fogo projetava sombras danantes, criando um ambiente ntimo e acolhedor. Caroline estava sentada junto a Matthew no sof, e se ouviam as canes de Natal que estavam cantando ao redor da rvore que havia junto a entrada do edifcio principal.
Caitlin, depois de um dia agitado e divertido, estava na cama profundamente adormecida. Tal e como Matthew havia predito, o que mais iluso lhe fez foi o cachecol e o gorro de riscas vermelhas e verdes para Barnaby. Tinha aceito a notcia de que Caroline ia ser sua nova mame com alegria, mas como se fosse o mais natural do mundo, e depois voltou a concentrar-se nos presentes que lhe tinha deixado Papai Noel.
Em vez de voltar para chal, tal e como Caroline esperava, Matthew tinha dado instrues para que mudassem todas seus pertences, includo a rvore, para sua sute no edifcio principal.
-Como vamos nos casar, que s haja dois dormitrios j no  problema... -seus olhos verdes brilharam com malcia-. A no ser, claro est, que prefira no compartilhar minha cama at que sejamos marido e mulher.
Embora a punha nervosa que a pressionasse, como j havia se comprometido irrevogavelmente e no se sentia capaz de renunciar ao prazer de passar a noite em seus braos, ela negou com a cabea.
Durante s um instante, o rosto de Matthew mostrou seus sentimentos, e Caroline compreendeu que a desejava tanto como ela; mas quando falou o tom de sua voz era prtico e objetivo.
-Ento eu gostaria, por seguir as convenes, comprar um anel. Sugiro que vamos escolher um agora mesmo... Klein Kimberley  a melhor joalheria do centro, vamos ver o que tm?
-Mas estar fechado -disse, aturdida.
- s um negcio privado e no demoraremos muito.
-Mas hoje  Natal.
-O dono  um velho meu amigo. Telefonarei-lhe e pedirei a Gladys que fique com Caitlin durante meia hora. Se se inteira de que nos comprometemos, no demoraro para sab-lo os demais empregados.
Quando chegaram  loja um homem alto e loiro de uns quarenta anos, de aspecto agradvel, esperava-os.
-Parabns! -sorriu abertamente e deu uma palmada nas costas de Matthew-. Que segredo o mantinhas!
-Foi bastante repentino -admitiu Matthew. Continuando, voltou-se para Caroline-. Querida, te apresento ao Robert Klein.
-Encantada -sorriu e lhe deu a mo-. Sinto-me culpada por te incomodar em um dia de festa.
-Nem o pense. Entendo perfeitamente que Matt esteja desejando te pr um anel no dedo -voltou-se para Matthew- No que tinha pensado? Temos uma ou duas gemas excepcionais.
-Acredito que uma gua-marinha.
-Sim -Klein assentiu-. Entendo por que.
Caroline tinha os dedos muito finos, e s havia dois anis de seu tamanho. Um tinha uma nica pedra, o segundo era maior e a pedra estava rodeada de diamantes.
-Qual prefere? -perguntou Matthew.
-O solitrio -murmurou ela.
-Boa escolha -felicitou Klein-. A pedra tem melhor cor e mais qualidade. Matthew lhe ps o anel no dedo e, depois, para alegria dela, levou-se sua mo aos lbios.
-Agora que j  oficial, tenho que te dar um presente de compromisso.
-J me deste mais que suficiente -objetou ela- E eu nem sequer te comprei um presente de Natal.
Ignorando seu protesto, inclinou-se para Klein e lhe murmurou algo ao ouvido.
-Sim, tenho -disse o joalheiro. Desapareceu na parte traseira da loja e voltou pouco depois com um estojo de couro ovalado e plano que Matthew guardou no bolso.
-Obrigado. Assinarei-te um cheque.
-J o fars amanh -replicou Klein, e se estreitaram a mo. Matthew rodeou a cintura de Caroline com um brao e a levou de volta  sute.
Agradeceram a Gladys e lhe mostraram o anel; partiu ruborizada de excitao e encantada de ter jogado um pequeno papel no assunto. Segundos depois bateram na porta; traziam uma garrafa de champanha enfeitada com laos, e uma nota de felicitao dos empregados.
-V, o que te havia dito? -disse Matthew com um sorriso irnico, depois de agradecer ao emissrio. Desarrolhou a garrafa, serviu o champanha e ofereceu uma taa a Caroline.
-Por ns... por que cheguemos a nos conhecer de verdade -brindou.
Esse adendo deveria hav-la prevenido, mas se sentia incrivelmente feliz. Parecia impossvel que estivessem comprometidos e iam casar-se. Estar ali, bebendo champanha, no fazia que a situao fosse mais acreditvel, mas bem ao contrrio; Caroline, como em um sonho, sentia a necessidade de beliscar-se... Inclusive agora, oito horas depois, sentada junto a Matthew escutando canes de Natal, persistia essa sensao de irrealidade.
-Foi um dia muito intenso, e ainda no te dei isto -disse Matthew, como se lhe lesse a mente. Procurou no bolso da jaqueta e tirou a caixa plana e ovalada que lhe tinha entregue Robert Klein.
-No tinha curiosidade por saber o que escolhi especialmente para ti? -perguntou, com os olhos fixos em seu rosto e voz sussurrante-. Qualquer outra mulher me teria recordado isso ou me teria perguntado o que era... -observou Matthew quando ela admitiu que com toda a animao e o prazer de ver Caitlin abrir seus presentes, havia se esquecido por completo.
Abriu a tampa com a unha do polegar e tirou uma gargantilha de ouro cujos elos estavam formados por duas mos unidas.
- preciosa -comentou ela-, e muito original.
-Prove ela. Espero que te sirva.
-No sei como se abre -admitiu ela, depois de examin-la.
-Deixe para mim -momentos depois rodeava comodamente o esbelto pescoo-. Perfeita -aprovou. A expresso de seu rosto, triunfante e um pouco cruel, alarmou Caroline, que se levantou e foi para o espelho.
Ao rodear seu pescoo a gargantilha tinha deixado de ser uma simples jia, convertendo-se em um objeto primitivo, ritual; era como se tivesse posto uma espcie de grilho.
-Nunca vi nada igual -estremeceu-se involuntariamente.
- uma cpia de uma gargantilha matrimonial Inca. Segundo as lendas peruanas, um quchua, um membro da realeza, desenhou-a para sua esposa, como smbolo de posse...
-Por que no um anel? -perguntou, temerosa.
-Porque poderia haver-lo tirado e troc-lo por outro... Ver, era uma mulher como Kate, e no se confiava nela... -fez uma pausa e sorriu com tristeza-. Uma vez fechada, s poderia tirar a gargantilha cortando-a.
-Quer dizer que no se pode tirar? -perguntou Caroline, com um calafrio.
-Ah, esta sim se tira -disse Matthew-. Alm disso, voc no  como Kate, verdade? -continuou com voz sedosa-. S ter que saber como funciona o fecho.
-Pode tirar isso, por favor?
Matthew a agarrou pela mo e a puxou para que se sentasse. Ela se levantou o cabelo e inclinou a cabea.
- incmoda? -perguntou com tom considerado. 
-No -admitiu ela. O desconforto que lhe causava era mental.
-Ento, por que no a deixa posta...? Ao menos at que nos deitemos.
Ela se mordeu o lbio, sabia que esperava seu protesto assim optou por calar. Um momento depois, Matthew deu um desses sbitos giros  conversa que sempre a pegavam de surpresa.
-Agora que estamos sozinhos, deveramos falar sobre o futuro -comentou. Caroline o olhou com apreenso-. Eu gostaria que Caitlin tivesse irmozinhos. Suponho que no tem nenhuma objeo? Na primeira entrevista me disse que voc gostava de crianas.
-Sim, eu adoro -corroborou ela, ainda inquieta. 
-Acredito, entretanto, que antes devemos deixar passar algum tempo para nos converter em uma famlia e deixar que Caitlin te aceite como me -como se preparasse uma emboscada, acrescentou-. Nunca me perguntou o que aconteceu sua verdadeira me... 
-Bom, eu... eu...
-Deve ser a mulher menos curiosa do mundo -sua voz teria cortado o gelo, e a olhava fixamente aos olhos-. Surpreenderia-te saber que simplesmente abandonou  menina?
-No acredito que seja possvel. 
-Pareces muito segura.
-No posso acreditar que alguma mulher abandone voluntariamente a seu prprio filho.
-Ento, por que achas que desapareceu? 
-Devia ter uma boa razo. 
-Falas como se simpatizasse com ela -os lbios de Matthew se curvaram em um gesto de desprezo.
-Sempre h dois pontos de vista para tudo.
-S lhe importava seu prprio ponto de vista. Tony tinha morrido e, em vez de cuidar da menina que ele no chegou a conhecer, partiu e deixou que a av, uma mulher doente do corao, assumisse toda a responsabilidade.
No, no foi assim!, pensou Caroline. No  certo.
-Como pode sentir simpatia por algum assim? -Matthew voltou para ponto de partida e ela, muito afetada, seguiu silenciosa. Lhe lanou um olhar hostil -O que? J no h argumentos para defend-la?
-Pretende dizer que suas aes so totalmente indesculpveis? -perguntou simplesmente.
-Isso exatamente o que digo... -um golpe na porta o interrompeu. Matthew se levantou e foi abrir.
-Sinto muito incomod-lo, senhor Carran -disse uma voz apressada-, mas se incendiou um dos geradores de apoio...
-Ser melhor que v ver-lo -a porta se fechou atrs dele.
Caroline suspirou. A interrupo foi providencial; se tivessem seguido falando, poderia haver-se delatado. Resultava-lhe difcil aceitar que Matthew a tivesse condenado, sem mostrar o mnimo indcio de compreenso ou compaixo.
Aquela poca foi terrvel. Sob presso e uma grande tenso emocional, muito doente para pensar com claridade, fazia o que considerou melhor: para a menina, para a me de Tony, que estava desolada pela morte de seu filho, e para Matthew e a mulher com quem pensava casar-se. Sempre se tinha arrependido de sua deciso, e tinha vivido com a esperana de que algum dia, de algum jeito, as coisas mudariam...
Ainda recordava o trauma que lhe produziu despertar no hospital sem saber quem era ou como tinha chegado ali, que a cuidassem mdicos e enfermeiras que falavam e a tratavam como se fosse um objeto inanimado, mais que uma pessoa. Depois, quando seu crebro comeou a esclarecer-se, comeou a recordar algumas coisas, como peas soltas de um quebra-cabeas... Tony, desolado depois de sua visita ao hospital... Uma festa de Natal... Subir ao carro... Conduzir, apesar de que estivesse grvida, porque Tony tinha bebido... Grvida... Sob os lenis brancos, suas mos se deslizaram pelo estmago plano. Com um ataque de pnico comeou a gritar roucamente.
-Enfermeira... enfermeira...
-Assim por fim ests completamente consciente -disse a enfermeira, inclinando-se para ela.
-Meu beb -soluou-, o que aconteceu a meu beb? 
-No se preocupe, sua filha nasceu no hospital. Pesou trs quilos e meio e  perfeita.
Chorou de alvio, as lgrimas sulcaram as bochechas de um rosto que percebia rgido e estranho. Tony estaria encantado. .. Ele queria uma menina... 
-Onde est? Posso v-la?
-No estava em condies de te ocupar dela, assim que sua sogra a levou a casa.
-Que ocorreu? -perguntou Kate. Ao passar a mo pelo rosto para limpar as lgrimas, tinha notado que suas feies eram diferentes, e tinha ndulos de cicatrizes...
-Teve um acidente de carro, mas no h nada que no possa arrumar-se com um pouco de cirurgia plstica, assim que esteja mais forte.
-Tony... meu marido... Onde est? Est bem?
-Sinto muito -disse a enfermeira, movendo a cabea de lado a lado.
-Quer dizer que morreu?
-Sinto muito -repetiu a enfermeira-. O carro patinou e se estrelou contra um dos pilares da ponte. Morreu instantaneamente...
Ento nunca tinha chegado a ver o beb que tinha aceito como dele... Pobre Tony... E pobre Grace...
-Sua me... como o recebeu? -inquiriu Kate, comeando a chorar de novo.
-Ao princpio a senhora Carran passou muito mal, mas j teve tempo para aceit-lo e as coisas melhoraram um pouco. E,  obvio, o beb deve ser um grande consolo para ela.
J teve tempo para aceit-lo...
-Quanto tempo levo inconsciente? -perguntou Kate, levando uma mo  cabea.
-Tinha uma fratura de crnio, estiveste em coma quase cinco meses...
-Cinco meses!
-Tem sorte de estar viva -disse a enfermeira sobriamente-. Depois de chocar-se contra a ponte, o carro deu um cambalhota e ficou esmagado ao rodar por uma ladeira. Ficou presa em seu interior. Quando lhe tiraram, deram-lhe por morta. Felizmente, trouxeram-lhe para o hospital rapidamente para tentar salvar ao beb.
Ou seja que sua menina, que nunca tinha visto, tinha cinco meses...
-Farei-lhe saber  senhora Carran que recuperaste a conscincia. Ser um grande alvio para ela; embora no pde vir a ver-te, telefonou quase todos os dias para perguntar se havia alguma novidade -com certo acanhamento a enfermeira prosseguiu-. Tenho suposto que no tinha mais familiares. Alm de seu cunhado, claro... 
-Ele h...?
-Bom, no... tenho entendido que esteve muito ocupado -depois acrescentou, mais alegre-. Mas  quem paga sua estadia em uma das melhores habitaes, e todos os gastos mdicos...
Desagradou-a pensar que no era mais que uma carga financeira para um homem que a odiava tanto que nem sequer tinha ido visit-la no hospital.
Grace chegou umas duas horas mais tarde e Kate se impressionou quo piorada estava. Tinha passado de ser esbelta, elegante e juvenil, para parecer encolhida, velha e enfraquecida.
-Querida, que posso dizer? Alm da menina, tudo foi como um pesadelo -murmurou, tomando a mo de Kate entre as suas. Sem lhe dar tempo a formular a pergunta acrescentou-. No a trouxe... A pobrezinha est gripada e no me pareceu boa idia tir-la de casa -continuou precipitadamente-. O mdico me h dito que agora que recuperaste a conscincia poder voltar para casa muito em breve.
-O apartamento segue...?
-Deixamo-lo -Grace negou com a cabea e se ruborizou brandamente-. Estava to grave que no parecia ter nenhum sentido. Mas agora que ocorreu o milagre... Tem idia do que vais fazer quando sair do hospital? -perguntou tremente.
-No tive oportunidade de pensar ainda. 
-Por favor, Kate, vem viver conosco. 
-Sinto muito, mas no posso viver na casa de Matthew. 
-Mas Sara e Matt... 
-Sara?
-A noiva de Matt. Vo casar-se no fim de julho. Sei que os dois estariam encantados de que viesse a... -Grace, vendo que Kate iniciava um gesto negativo, continuou com desespero-. Necessita um lugar onde viver, e no tem meios para manter a um beb... Poderiam passar meses antes que te recupere o suficiente para trabalhar, inclusive para te ocupar dela...Por favor, no leve ela. No sabe quanto desejei ter um neto... -Grace comeou a soluar-. Ela  tudo o que me resta agora que Tony...
-Tem Matthew -disse Kate, com voz quebrada. 
-No  o mesmo. Nunca foi meu. 
-Mas quando Sara e ele se casarem, sem dvida haver mais netos.
-No, no os haver... -Grace inspirou profundamente e se limpou o rosto com um leno-. Sara no pode ter filhos. Quando era muito jovem e atordoada, teve um aborto que foi mal... Mas tanto Matt como ela querem um filho e, se algo te tivesse ocorrido, pensavam adotar  menina... -Grace viu a expresso de sua nora e ficou plida-. Oh, no, querida, no pense nem por um momento que desejamos... rezamos por sua recuperao.
Duas semanas depois, depois de dias e noites de angustiantes pensamentos, que lhe provocavam uma febre muito alta, Kate colocou o folgado vestido de gestante e o pudo casaco, que tinham lavado e guardado em um armrio junto a sua cama, e aproveitou uma mudana do turno de enfermeiras, para sair do hospital.
Caminhava cega e automaticamente, sem saber onde ir; s queria afastar-se o mais possvel daquela luxuosa habitao que havia se convertido em uma priso.
Era uma tarde de maio, fresca e nublada; faiscava brandamente e as gotas brilhavam sobre a calada. como sempre, havia bastante trnsito mas, a essa hora, as pessoas j tinham voltado para casa depois do trabalho e ainda no era hora de jantar, assim que os pedestres escasseavam. Pouco depois comeou a chover com fora, empapando os ombros de seu fino casaco. Embora seguia em estado de choque, com um pouco de juzo compreendeu que tinha que encontrar um lugar onde passar a noite.
No tinha dinheiro na bolsa, s seus cartes de crdito, mas no serviam para nada se depois no podia pagar a dvida. Pensou em procurar um hotel barato para uma ou duas noites, enquanto tentava encontrar um trabalho. Mas soube imediatamente que seria intil. No tinha bagagem e sua roupa estava em mal estado. No a aceitariam em nenhum hotel.
Tinha percorrido algo mais de um quilmetro, por ruas desconhecidas, quando a fadiga a obrigou a parar e apoiar-se em uma parede. A suas costas havia algo que parecia uma capela, e um pster preto com letras douradas que dizia Misso de So Salvador. Morningside Heights. Se tiver fome ou no tem lar, entre. Parecia a resposta a suas preces...
O rudo de uma porta ao fechar-se devolveu Caroline  realidade, Matthew apareceu um momento depois.
-Sinto me haver partido assim -desculpou-se-, mas parecia algo srio.
-Era?
-Poderia ter sido, mas tudo est sob controle. O fogo se extinguiu e um de meus melhores engenheiros est comprovando os danos e a causa do acidente -sentou-se junto a ela e apoiou o brao no respaldo do sof.
-O que pensava quando entrei? Parecia perdida e desolada -comentou, olhando-a.
-No... no me lembro.
-Vamos, no queres me dizer isso-. disse com ironia-. Sempre acreditei que uma esposa no deve  ocultar nada a seu marido.
-Ainda no sou sua esposa -apontou ela, com o corao desbocado.
-Mas logo o ser, e quanto antes, melhor -passou-lhe um dedo brandamente pela bochecha, fazendo-a estremecer-se de prazer e, ao ver que no protestava, continuou falando pensativamente -. No parece ter nenhum objeo em te casar com um homem ao qual mal conhece.
-Deveria ter?
-No tenho inteno de me converter no Barba Azul -sorriu ele.
-Aceitarei sua palavra -disse ela, com rapidez. 
-Embora no posso prometer que nunca te confunda com  Kate... -acrescentou como se fosse uma advertncia. Ela sentiu um calafrio.
-Se sabendo isso, tem a coragem de seguir adiante, eu gostaria que nos casssemos o quanto antes possvel. Ests de acordo?
Ela assentiu com a cabea.
-Ento voltaremos para Nova Iorque amanh e organizarei tudo. Imagino que, como j estiveste casada, no te importar que seja uma cerimnia discreta.
-Parece-me bem.
-E na ltima vez?
-A ltima vez? -repetiu ela alarmada.
-Celebraram um grande casamento?
-No.
-Mas, foi de branco?
-No.
-Onde se casaram? Na igreja?
-Foi uma cerimnia civil -replicou ela.
Ele assentiu, como se estivesse satisfeito, e deslizou os dedos sob seu cabelo, para lhe acariciar a nuca.
-Me diga Caroline, como era seu marido?
Caroline, desconcertada pela sbita pergunta, simplesmente o olhou. Ele arqueou, uma sobrancelha.
-No pode ter esquecido, no?
-No, no me esqueci -disse com voz rouca-. S tento no pensar muito no passado.
-Suponho que  natural, era to jovem quando morreu. .. Disse-me que foi em um acidente de transito, como meu meio-irmo, no?
-No. Disse que tinha um tipo de cncer pouco comum -corrigiu ela, e o olhou. Tinha o rosto sombrio e zangado-. Mas preferiria no falar dele, se no te incomodar. Ainda me di.
-Depois de tanto tempo?
-Sim.
-Aquela noite, na casa, disse-me que lhe tinha tido carinho. Suponho que ainda o tem, no?
-Sim -acertou a dizer ela. 
-No sei por que, mas me parece difcil acreditar que o mero carinho possa provocar um sentimento to forte -com um brilho de desprezo em seus olhos listrados acrescentou-. Se tivesse sido o tipo de obsesso que eu sentia, que ainda sinto, por Kate... -estendeu a mo e comeou a brincar com a gargantilha - Quer que te fale de Kate? 
-J o tens feito -disse, gelada.
-No  que haja muito que contar -prosseguiu ele como se no a tivesse ouvido-. Passamos muito pouco tempo juntos; na realidade s foi um dia e duas noites. Mesmo assim nunca me livrei dela. No me deixa escapar...
-No ser voc que no quer escapar? -Caroline desejou haver-se mordido a lngua.
-No  fcil esquecer a algum que se odeia. Odiaste alguma vez?
-No -murmurou ela.
-O dio  uma emoo muito forte. A outra cara do amor.
 -Quo nico sei  que pode deformar e destruir  pessoa que o sente -asseverou ela.
-Ento, acha que deveria tentar deixar de odi-la? -inquiriu ele, irnico. Caroline no respondeu-. Como me recomenda que o consiga?
-Possivelmente no deveria culpar-la de tantas coisas -sugeriu ela com impotncia.
-De quais?
-Bom... da morte de seu meio-irmo..., de abandonar Caitlin...
Ele baixou as plpebras, e seus longos e espessos clios ocultaram a expresso de seus olhos.
-O que te faz acreditar que a culpo dessas coisas? -perguntou com voz sedosa.
-Voc o h dito -respondeu, sobressaltada.
-O que te faz acreditar que a esposa de Tony e Kate so a mesma mulher?
-Que...O que? -gaguejou ela, sentindo-se como se casse por um precipcio. Ele repetiu a pergunta com voz dura como o ao.
-Imaginei-me isso pelas coisas que dizia...
-Estou seguro de que no indiquei, em nenhum momento, que fossem a mesma mulher.
-No sei por que me deu essa impresso...Sinto muito, devo te ter entendido mal. Foi uma estupidez.
-Ao contrrio, demonstra que  muito perspicaz. Kate , ou era minha cunhada. Possivelmente isso seja o que mais me di. Embora tivesse se deitado comigo, preferiu a meu meio-irmo -seu rosto denotava amargura-. No me resta dvida de que, moralmente, era o justo; ao fim e ao cabo foi dele antes que fosse minha.
Caroline deu a calada por resposta e Matthew mudou de tema.
-Tudo isso forma parte do passado, no pode alterar-se. Temos todo o futuro pela frente -disse.
Que tipo de futuro podia ser esse, se se casava com ela porque recordava a uma mulher que odiava?, perguntou-se Caroline.
-Pode ser que nosso matrimnio no seja o ideal dos contos de fadas, mas com tal de que ambos consigamos o que esperamos... -disse Matthew, lendo sua expresso.
-O que espera voc deste matrimnio? -perguntou ela, preocupada.
-Uma amante apaixonada, uma esposa agradvel, uma me para Caitlin e para meus prprios filhos... -replicou ele com afabilidade, embora seguia zangado-. E voc, Caroline, que esperas deste matrimnio?
-Um lar e uma famlia... -respondeu timidamente.
-No mencionaste um marido.
-Isso se subentende.
-Se pudesse pedir uma bno muito especial, qual seria?
Pediria que me quisesse. Uma coisa muito simples, mas to impossvel que era como pedir a lua.
-No sei. Possivelmente a capacidade de contentar-se com o que se tem -disse em voz alta. 
-J vejo que me caso com uma filsofa -declarou rudemente, observando seu perfil-. E uma muito bela -moveu a mo com a qual tinha acariciado sua nuca e, tomando-a pelo queixo, voltou seu rosto para ele.
Tudo em Matthew era duro e atraente: a marcada estrutura ssea, o nariz reto, o queixo firme e os lbios finamente desenhados. Tinha a expresso de um caador, alerta e desumana e, embora o ocultasse, ela percebeu sua ira.
Caroline admitiu inconscientemente que lhe tinha medo e se passou a lngua pelos lbios. Ele seguiu o movimento com os olhos.
-Por favor, Matthew... -murmurou. Estava fsica e emocionalmente esgotada, s desejava dormir. Ele ignorou sua splica e inclinou a cabea para ela.
Tomou seus lbios sem piedade, a ela lhe escapou um suave gemido, e arqueou o corpo como se estivesse a ponto de ser torturada.
Ele a beijou profundamente, explorando e aproveitando-se da doura de sua boca. Era um beijo selvagem e punitivo; no havia rastro de ternura, s uma espcie de violncia controlada, como se se tivesse feito viciado em algo que no fundo desprezava.
Mas ela sabia que antes era um amante sensvel e terno. Se agora era duro e cruel, ela era a causadora. Essa era uma culpa que devia assumir.
Pouco depois o beijo, ainda apaixonado, fez-se mais suave, procurando e exigindo uma resposta que no lhe pde negar. Rodeou-lhe o pescoo com os braos e, com o corao transbordante de amor, beijou-o apaixonadamente, enquanto ele comeava a acarici-la.
Quase imediatamente, esqueceu-se de tudo menos do prazer de suas carcias. J no sentia medo nem apreenso; j no havia nem passado nem futuro, s o presente.
-Pronta para ir  cama? -sussurrou Matthew em seu ouvido. Ela assentiu e se levantou. Matthew foi ver se Caitlin estava bem e depois foi ao banheiro do quarto de hspedes, enquanto Caroline, no banheiro do dormitrio, tomava banho e se preparava para deitar-se.
Ao olhar-se no espelho se deu conta de que ainda usava a gargantilha de ouro. Os traumticos acontecimentos do dia se faziam sentir, e tinha o rosto tenso e plido, os olhos imensamente grandes. Ver-se obrigada a usar a gargantilha a deixou fora do normal. Com ambas as mos, percorreu cada elo para encontrar o fecho oculto. No o conseguiu.
Se corria a procurar Matthew, demonstraria-lhe quanto a incomodava. Decidiu esperar que voltasse e lhe pedir, com despreocupao, que o desabotoasse.
Algum tinha guardado sua roupa interior e de dormir na cmoda. Procurou a camisola mais bonita, a ps e se meteu na cama para esperar Matthew. Quando ele chegou, nu, e se deitou a seu lado, voltou-se para ele com desejo. Lhe apartou uma sedosa mecha de cabelo do rosto e escrutinou seu rosto.
-Foi um dia muito comprido. Parece muito esgotada para fazer outra coisa que dormir em meus braos.
Possivelmente acreditou que seu leve suspiro era de alvio, porque a aproximou a ele e fez que recostasse a cabea sobre seu ombro, como se quisesse confort-la.
-Matthew... -Caroline se revolveu inquieta.
-Humm? -olhou-a.
-A gargantilha...
-Disse que no era incmoda.
-No o , mas...
-Ento te relaxe; te fica muito bem -disse, e a beijou com suavidade.
Mas nem sequer esse gesto serviu para apagar a suspeita de Caroline: que ele sabia exatamente que efeito estava tendo sobre ela, e que isso formava parte de seu plano.



Captulo 9

Casaram-se na cidade de Nova Iorque trs semanas depois, em uma bela igreja situada entre dois enormes arranha-cus de vidro e cimento. Houve muito poucos presentes a breve e singela cerimnia.
Nevava quando saram da igreja, ligeiramente separados um do outro, como se no se conhecessem, e os brancos flocos fizeram as vezes de confete.
O jipe de Matthew, com a bagagem no porta-malas, estava l fora; iam voltar para Clear Lake, a desfrutar de uma breve lua-de-mel. Caroline no o tinha sabido at a noite anterior.
-Pensei que depois da cerimnia podamos ir passar uns dias no centro termal -anunciou Matthew, saindo de seu escritrio.
-Quer que te faa a bagagem? -ofereceu ela.
-Ests ansiosa por cumprir com seus deveres conjugais? -burlou-se, quase com desdm.
-Absolutamente -ruborizou-se-. Se prefere faz-lo voc, eu prepararei minhas coisas e as de Caitlin.
-Caitlin no vem.
-Oh, mas...
-No  usual levar os filhos a lua-de-mel -assinalou ele-. E gostaria de desfrutar de minha esposa durante uns dias, antes de que nos convertamos em uma famlia. Caitlin estar perfeitamente bem com a senhora Monaghan.
-Mas poder a senhora Monaghan... ?
- de plena confiana, e adora cuidar da menina. Alm disso Caitlin gosta de ficar com ela. Agora, com flocos de neve sobre seu escuro cabelo, Matthew abriu a porta do carro e esperou educadamente que sua esposa se sentasse. Assim que ela se fechou o cinto de segurana, se sentou ao volante e comearam sua silenciosa viagem.
Ningum poderia adivinhar, por seu aspecto e sua forma de atuar, que eram recm-casados, pensou Caroline com tristeza. Matthew nem sequer a tinha beijado ao finalizar a cerimnia. Se, como parecia, arrependia-se de sua precipitada proposta matrimonial, por que tinha seguido adiante com o casamento? Provavelmente as razes que lhe tinha dado seguiam de p, mas, at na noite anterior, tinha comeado a duvidar inclusive de que a desejasse.
Aquela ltima noite que passaram no centro termal, depois de cair adormecida entre seus braos, despertou sozinha na cama. Foi busc-lo e o encontrou na cozinha, preparando o caf da manh para  Caitlin e Barnaby.
-Bom dia -saudou-a direto, deixando claro que tinha trocado de humor e que a gentileza da noite anterior havia se convertido em brusca eficcia.
Mesmo assim, quando voltaram para Nova Iorque nessa tarde, ela sups que, depois de hav-la obrigado a compartilhar sua cama, levaria as malas de ambos a seu dormitrio. Mas ele, sem dizer uma palavra, levou a dela  sute que havia junto ao quarto da menina. Em Clear Lake, alm de assegurar-se de que usava seu anel, no se tinha preocupado muito pela tica da situao, mas agora que estava em casa parecia disposto a observar todas as convenes.
A primeira noite que passou sozinha em seu quarto, consolou-se com esse pensamento. Mas os dias passaram e ele se concentrou totalmente em seu trabalho, quase no o via; era bvio que a estava evitando e se sentiu ferida e confusa. Os dias eram felizes e passavam rapidamente, porque tinha Caitlin, mas as noites, insones e solitrias, faziam-se eternas, e logo seus belos olhos estiveram rodeados de escuras e profundas olheiras. Embora ele insistisse em que usasse o anel e informou pessoalmente  senhora Monaghan sobre seu compromisso, para todos os efeitos Caroline voltava a ser a bab, enquanto que ele, frio e reservado, construa uma muralha de gelo a seu redor.
Se no fosse pelo anel, e porque quando falava com Caitlin se referia a ela como mame, Caroline teria chegado a pensar que a proposta de casamento era coisa de sua imaginao.
Mas por fim, na noite anterior, ela tinha levantado a vista e o tinha surpreendido observando-a, tinha visto a chama ardente de desejo de seus olhos antes de que ele se desse a volta e partisse.
Recordando as solitrias noites, que passavam separados, perguntou-se se estaria tentando demonstrar-se algo. Ou possivelmente s queria castig-la e castigar-se? A ela porque recordava a Kate; a ele mesmo porque odiava essa obsesso da qual no podia livrar-se. Caroline sentiu pena por ele, pois compreendia que sua irritao era comparvel a que ela tinha sentido pela gargantilha, at que ele concordou a tirar-lhe.
Mas quando essa obsesso se curasse, o que ocorreria? Que outra coisa havia entre eles? Possivelmente amabilidade e um certo grau de carinho... Se era sua esposa, e a me de seus filhos, por fora teria que chegar a sentir algo por ela.
Tentou agarrar-se a essa idia enquanto viajavam mas, no fundo de seu corao, sabia que o passado pendurava sobre eles como uma espada de Damocles, e que no era provvel que voltassem a ser felizes juntos. Finalmente, embalada pelo movimento do carro e pelo som do limpador de pra-brisas, adormeceu.
Despertou sobressaltada quando chegaram ao centro termal. Olhou de esguelha e viu que Matthew a observava com uma estranha e sombria expresso no rosto. Ele saltou do carro e foi abrir-lhe a porta, ainda dormitada, tropeou ao descer, e lhe rodeou a cintura com o brao. Era a primeira vez que a tocava em semanas, alm de lhe pr a aliana no dedo.
O cu se limpou e fazia uma noite preciosa, a lua, quase cheia, brilhava por cima dos pinheiros e a neve, ainda recente, rangia sob seus ps.
-Boa noite, senhor Carran... senhora Carran. Parabns! -saudou corts a senhorita Deering, que estava no balco da recepo.
Assim sabiam sobre o casamento, pensou Caroline assombrada, enquanto um mensageiro ia recolher sua bagagem.
-Se tiver um minuto, senhor Carran -disse a senhorita Deering-, o diretor gostaria de falar com voc. Est em seu escritrio.
Matthew assentiu. Sem soltar Caroline, foi para sua sute e abriu a porta. Um momento depois, um mensageiro levou a bagagem e partiu apressado.
-Sugiro que v diretamente  cama -disse Matthew, a ponto de sair da habitao.
-Mas vais voltar, verdade? -perguntou ela com ansiedade, pois notou algo estranho em sua voz.
- obvio. O que pensaria o pessoal se te deixasse sozinha em nossa noite de npcias? -acrescentou com ironia. Um momento depois a porta se fechou atrs dele.
Caroline pendurou o traje de l cor berinjela que tinha usado para casar-se, desempacotou a camisola, tomou banho e se meteu na cama; tinha passado uma meia hora e Matthew ainda no havia retornado.
Para evitar dormir, tomou banho com gua temperada e, em vez de deitar-se, selecionou um livro ao azar e se sentou na cama, com a luz acesa. Estava to cansada que as letras danavam ante os olhos. Mas ele tinha prometido voltar e queria estar acordada quando o fizesse.
Durante a viagem se perguntou o que ocorreria quando ele se livrasse de sua obsesso. Agora estava muito mais preocupada com o futuro imediato. Estava convencida de que ainda a desejava, desde que percebeu esse olhar de paixo abrasadora, mas o autocontrole de Matthew era entristecedor, e isso a assustava.
Havia dito que desejava ter famlia mas e se tinha mudado de opinio? E se, odiando-a e desprezando-se a si mesmo, tinha decidido negar-se a satisfazer os desejos de ambos? At que, com o passar do tempo, cercassem outro tipo de relao, quo nico compartilhavam era esse vnculo fsico e se Matthew seguia empenhado em ignor-la, sua vida seria uma tortura, embora pudesse desfrutar de Caitlin.
Quando lhe ofereceu a oportunidade de estar com ele, foi como se seu desejo tivesse se realizado, mas j a advertia a tradio popular: Tome cuidado com o que desejas, pode chegar a cumprir-se. Tremendo, decidiu que de algum jeito tinha que derreter o muro de gelo com o qual ele havia se rodeado. Se no o conseguisse nessa noite, possivelmente nunca o obteria.
Essa idia a aterrorizou. despertou na escurido, no se ouvia nem um rudo. Ao princpio, desorientada, no sabia onde estava. De repente recordou. Estava em Clear Lake em lua-de-mel e essa era sua noite de npcias. Mas, onde estava Matthew? Os ponteiros de relgio digital indicavam que eram duas e meia da manh, mas estava sozinha na cama.
Incorporou-se bruscamente. A luz de lua que iluminava a habitao confirmou que no havia ningum ao seu lado, o travesseiro estava liso, sem marcas. Estava claro que at nesse momento tinha dormido sozinha. Mas algum tinha entrado, colocado o livro na mesinha e apagado a luz.
Olhou-se a aliana e a invadiu a desolao. Estava casada com Matthew, mas no era sua esposa. O que podia fazer? Submeter-se a sua vontade? No, ela tambm tinha suas armas e j era hora de comear utilizar-las.
Saiu da cama e saiu ao corredor nas pontas dos ps. No havia nenhuma luz acesa. Deteve-se ante a porta do outro dormitrio e escutou atentamente. Apesar do silncio, seu instinto lhe disse que estava ali. Abriu a porta e entrou. Seus olhos se adaptaram  escurido do corredor, e o dormitrio lhe pareceu brilhantemente iluminado pela luz da lua.
Estava na cama, com as mos entrelaadas atrs da cabea. Aproximou-se dele e viu o brilho de seus olhos; estava completamente acordado.
-Ora, ora, ora... -murmurou brandamente, zombador-, Mas  a noiva.
-Queria te esperar, mas devo ter adormecido -disse, lutando contra o impulso de sair correndo da habitao-. Quando despertei, perguntei-me onde estavas -como o no replicou, decidiu agarrar o touro pelos chifres de uma vez por todas-. Por que decidistes dormir aqui?
-Pus-me a pensar em seu primeiro matrimnio. Nunca me agradou... como express-lo... a mercadoria de segunda mo...
Consciente de que tentava feri-la, ela levantou o queixo com determinao.
-Isso no te impediu de fazer amor comigo antes de que nos casssemos -espetou. Notou, por sua expresso, que no tinha esperado que se defendesse.
-Sugiro-te que voltes para a cama antes de que comece a ter frio -disse ele secamente.
-J tenho frio... -concentrou-se no apaixonado olhar que tinha captado, para dar-se coragem. A luz da lua fazia que sua fina camisola ficasse transparente, provando que dizia a verdade-. Tinha a esperana de que me fizesse sentir calor, como naquela noite na casa.
-Advirto-lhe isso, Caroline -avisou com aspereza-, se no te partir agora mesmo, arrisca-te a receber muito mais do que esperas.
-Arriscarei-me.
-Muito bem -apertou os dentes e ordenou-. Tire-lhe isso.
- O que?
-A camisola. Tire ela. Se te empenhar em ficar, no a vais necessitar.
S hesitou um momento, logo deslizou as alas para baixo e deixou que a pea casse a seus ps; nua e iluminada pela lua parecia uma esttua prateada. Matthew, olhou-a fixamente, imvel, assim Caroline deixou a camisola no cho e se deitou junto a ele.
Estava quieto e rgido e, temendo que mudasse de opinio e a enviasse de volta a sua habitao, comeou a acarici-lo, deslizando a mo por seu peito e seu ventre liso.
Ouviu o suave assobio de sua respirao quando ele tragou ar, e apoiando-se em seu corpo, percorreu a pele de seu ombro com suaves beijos; a seguir esfregou o rosto contra sua garganta, lhe acariciando com a ponta da lngua.
Seguia imvel e comeou a depositar beijos em sua mandbula, spera com um princpio de barba. Inclusive quando o beijou nos lbios, provocadora, no houve reao. Jogando a ltima cartada, tomou seu lbio inferior entre os dentes e o mordiscou com delicadeza.
Consciente de que tinha perdido a partida ao no obter resposta a to clara provocao, estava a ponto de dar a volta quando, de repente, com uma espcie de rugido, ele girou e a apanhou com seu corpo. Segurou-lhe os braos com as mos e procurou seu seio com a boca. Ela gemeu quando se fechou sobre um mamilo e comeou a chup-lo, provocando, com lbios, dente e lngua, uma exploso de sensao to intensa que era quase dolorosa.
Ele atuava de forma temerria, quase selvagem, e isso deveria hav-la assustado, mas a dominava uma sensao de triunfo por ter conseguido romper seu frreo controle.
O amante gentil e considerado se esfumou, ali havia um homem ao qual tinha empurrado alm de seus limites. Sem nenhum preldio, sem apartar a boca de seu seio, penetrou-a com paixo feroz e descontrolada. No fez concesses, nem ela as pediu; aceitou-o de igual a igual, equiparando-se a sua paixo e, sem guardar-se nada, entregou-se por completo. Possivelmente ele s tinha desejado roubar, mas no  possvel roubar algo que se entrega livremente e com generosidade.
Quando acabaram, embalou com ternura a escura cabea que jazia pesada sobre seu seio, enquanto lgrimas de agradecimento se deslizavam silenciosamente por suas bochechas. Pouco depois, ambos caram vencidos pelo sono e, pela primeira vez em sua relao, era ela quem o tinha abraado.
Quando despertou, o sol brilhava alegremente. Filtrava-se atravs das cortinas e caa como uma fina capa de ouro sobre o cho de madeira encerada. Ficou quieta um momento, depois, lentamente, voltou a cabea. Estava sozinha e, a julgar pela temperatura dos lenis, estava sozinha a bastante tempo.
Saltou da cama, recolheu a camisola do cho e foi ao outro dormitrio. Tomou banho e se vestiu rapidamente, escovou o cabelo e, deixando-o solto, foi a sala. Com o corao desbocado, perguntou-se se sorriria ao v-la ou se a trataria com frieza. Foi uma grande decepo que no houvesse nem rastro dele. A casa estava em silncio. Desiludida, preparou-se uma taa de caf instantneo e uma torrada.
Eram quase dez e meia, assim Matthew, que era madrugador, devia estar acordado a horas. Duvidava que tivesse sado do centro. Embora s fosse para manter as aparncias, no teria partido sem ela. Provavelmente sua ausncia se devia a algo relacionado com o balnerio.
Caroline tinha vontade de fazer um pouco de exerccio e recordou a piscina com saudade. Quando Matthew voltasse, sugeriria-lhe que fossem nadar um momento. Embora teria que tomar cuidado de no faz-lo muito bem.
Mais de uma hora depois, impaciente e irritada por que a tratasse assim quando se supunha que estavam em lua-de-mel, dirigiu-se ao balco da recepo.
-Sabes onde est meu marido? -perguntou com ar despreocupado.
-Sinto muito, no sei, senhora Carran -disse a garota-. Mas se quiser posso fazer algumas chamadas e tentar localiz-lo.
-No, no, obrigado -rechaou Caroline rapidamente- No  nada importante.
Depois de esperar meia hora mais, procurou o traje de banho, o robe e umas sandlias planas e, de mau humor, foi para as piscinas e se trocou. Tentando esquecer-se de tudo menos do prazer que antecipava, Caroline se dirigiu ao lago piscina, que era muito profunda, de tamanho olmpico e que contava com ondas de verdade.
Quase tinha chegado quando um homem de cabelo loiro passou a sua frente. Usava tnis, um robe curto e um traje de banho azul. Em um bolso levava uns culos de natao. Ao passar a seu lado, jogou-lhe uma olhada e sorriu abertamente.
-Ora, ol! A senhorita Hunter, no? No, claro, agora  a senhora Carran -corrigiu-se.
Ela demorou um ou dois segundos em reconhecer a Brett Colyer, seu professor de natao. Devolveu-lhe o sorriso.
-Ol.. .est de planto?
- minha tarde livre -sorriu como um menino-. J vs a que vou dedicar meu tempo livre. Vai nadar, ou s deitar-se junto  piscina?
-Tenho inteno de nadar.
-Sozinha?
-Sim -admitiu. Ao ver seu olhar de dvida, mentiu um pouco-. Pratiquei muito desde a ltima vez que me viu.
-E que tal vai?
-Muito bem.
-Mas, no estar pensando em meter-se na lagoa? -inquiriu ele, com tom preocupado. 
-Sim, pensava em fazer isso.
-Na realidade  s para nadadores experientes, e agora mesmo no h nenhum salva-vidas de planto.
Sem dvida era um homem agradvel, que tomava seu trabalho muito a srio. Desejou lhe confessar que tinha experincia, mas sabia que no era conveniente.
-Bom, terei muito cuidado -prometeu.
-Eu no gosto da idia de que entre sozinha -disse Brett, incmodo-.  a hora de comer e no h muita gente por aqui. Acredito que deveria acompanh-la.
-No h razo para preocupar-se.
-Posso lhe perguntar algo? -sua voz soava ainda mais incmoda-. O senhor Carran sabe que vai nadar sozinha?
-Bom, no...
-Olhe, senhora Carran, no quero lhe impor minha companhia, mas se lhe ocorrer algo seu marido nunca me perdoar -com bom humor, acrescentou-. E preferiria no ficar sem trabalho.
Caroline, incomodada por ter perdido sua liberdade, mas consciente de que era culpa dela, concordou  amavelmente.
-Parece-me uma lstima que tenha que passar sua tarde livre cuidando da mulher do chefe, mas se isso te faz mais feliz...
-Certamente que sim -sorriu aliviado.
-Ento aceito sua companhia.
-J  uma hora... Pensava em comer antes?
-J comeste?
-Pensava tomar um bocado no bar da lagoa -replicou ele.
-Faamos isso ento. Ai.
-Ocorre algo?
-No levo dinheiro comigo.
-No  problema -assegurou ele-. Porei-o em minha conta.
Uma vez que aceitou que lhe tinham arruinado a tarde, descobriu que a comida era uma agradvel surpresa. Quando estava com Matthew sempre havia certa tenso no ambiente, mas Brett era aberto, pouco complicado e divertido, e Caroline desfrutou enormemente de sua cmoda e relaxada companhia.
-Como te converteu em monitor de natao? -perguntou-lhe.
-Por pura casualidade -admitiu ele-. Comecei a estudar Medicina, mas minha me adoeceu e necessitava minha ajuda, assim depois de uns anos me vi forado a deixar a carreira. Naquela poca abriu o centro termal. A natao sempre foi meu esporte favorito, assim aproveitei a oportunidade para vir aqui...
-Acredito que tomarei esse banho agora -disse ela quando acabaram a rpida refeio-. Assim, quando me tiver visto sair s e salva, ficar tempo para que se dedique a treinar a srio.
Dirigiam-se para o fundo da piscina, bordeada por rochas autnticas que desciam at a gua, quando, sem prvio aviso, dois garotos que se perseguiam, passaram correndo junto a eles. O segundo se chocou contra Caroline, fazendo que perdesse o equilbrio. A sandlia escorregou na rocha molhada e ela caiu ao cho com fora. Brett chamou a dupla furioso, mas sem resultado.
-Malditos idiotas! -exclamou-. Deveriam ter mais cuidado -com voz preocupada acrescentou- Ests bem? -Sim, estou bem -conseguiu balbuciar ela. Mas quando a ajudou a ficar em p deu um grito de dor.
-O que ocorre? -urgiu ele- Onde lhe di?
-Machuquei o ombro -admitiu- e o brao ficou como morto. Brett murmurou algo entre dentes.
-Minha habitao est justo no outro lado dessas portas de vidro que tm o letreiro de S empregados. Se pode chegar at ali, olharei o que pode ser feito e, se precisar, chamarei a seu marido.
Embora a habitao estivesse bastante perto, quando chegaram Caroline se mordia o lbio de dor. 
-Di muito, no? -comentou Brett, pormenorizado. 
-Agora comea a me doer o brao, mas acredito que no tenho quebrado nada.
-Isso espero... -abriu a porta de um cmodo estdio e a ajudou a entrar-. Ser melhor que d uma olhada, especialmente ao ombro. Poderia estar deslocado -rodeou-a com um brao para que se apoiasse-. Deixe que a ajude a tirar o robe...
No chegou a terminar a frase. Justo quando comeava a lhe tirar o robe dos ombros, a porta se abriu de repente e Matthew entrou em grandes pernadas. Olhou a cena e seu rosto se converteu em uma branca mscara de ira.
-Tire as mos de cima da minha mulher -embora no elevasse a voz, a ordem soou como uma chicotada.
-Brett s estava... -comeou a protestar Caroline. Matthew a agarrou pela mo e a puxou. Quando chegou  porta, voltou-se para Brett.
- melhor que faa as malas e te parta daqui, Colyer, antes de que sinta a tentao de te quebrar a cara.
-Mas, Matthew, no entende que... 
-Senhor Carran, deixe que o explique... -disse Brett ao mesmo tempo-. amos nadar e sua mulher se viu envolta em um acidente, eu ia a...
-J ouviste o que eu disse -grunhou Matthew-. Se no ter desaparecido quando voltar, no me considerarei responsvel por meus atos.
Fechou a porta e quase arrastou Caroline pelo corredor. Para alvio desta, no cruzaram com ningum. Quando chegaram  sute, ela estava sem flego, e tinha a testa molhada de suor frio.
-Como te atreve a me maltratar assim? -gritou ela, soltando-se de um puxo, assim que havia fechado a porta.
-Estou pensando em te pr sobre meus joelhos e te aoitar -disse Matthew furioso, com um brilho perigoso nos olhos. 
-Mas no tenho feito nada de mal, nem tampouco Brett -a ponto de comear a chorar, engasgou-se-. Como pudeste trat-lo assim?  um homem bom e amvel e...
-Por isso correste para seus braos assim que te dei as costas?
-No tenho feito nada assim -negou-. Encontramo-nos na piscina por acaso.
-Te economize as desculpas.
-Matthew, por favor, me escute -suplicou, sentando-se na cadeira mais prxima-. Brett s tentava me ajudar. Preocupava-lhe que no fosse suficientemente boa nadadora. Simplesmente se ofereceu a me acompanhar  piscina e...
-Almoaram juntos.
-Sim, mas...
-E pouco depois te encontro em sua habitao, e ele te ajuda a te despir.
-Oh, no seja ridculo! -saltou ela zangada. Suas palavras terminaram com um grito de dor. Matthew se aproximou e agarrando-a pelos ombros a ps em p bruscamente.
- uma arpa -grunhiu-. Devia imaginar que te chame Kate, ou Caroline, no mudaste.
O impacto de suas palavras foi catico, o corao lhe deu um tombo e ficou sem flego.
-Acreditava que no sabia? -perseguiu-a, vendo seu rosto ficar branco como um lenol- Pode ser que tenha trocado de aparncia, mas esses olhos so inconfundveis. No pode troc-los. Nem tampouco seu carter -soltou uma spera gargalhada- No ficou satisfeita ontem  noite? No podia esperar a ver se esta noite o fazia melhor?
Ela, com os lbios brancos, no foi capaz de responder.
- bvio que no. Teve que agarrar ao primeiro homem que encontrou. Foi uma vagabunda quando te conheci e segue sendo uma vagabunda agora. 
-Isso no  verdade.
-Se chegasse um minuto depois, os teria encontrado...
-Teria encontrado Brett Colyer, que, por certo,  muito melhor pessoa do que voc chegar a ser alguma vez, comprovando se tinha alguma leso. Me machuquei o brao, e pensou que podia ter o ombro deslocado.
-O que? -exigiu Matthew. Soltou-a, e ela se afundou na cadeira de novo. Apesar de que estivesse tonta de dor, levantou o queixo e o olhou aos olhos.
-Os dois tentamos te explicar que tive um acidente, mas te negaste a escutar. Est to cheio de preconceitos que preferiste acreditar no pior. No me importa tanto por mim, estou acostumada, mas Brett atuou com a melhor das intenes. Fez o que pde para cuidar de mim...
-Estou seguro de que sim -assentiu Matthew com voz sedosa.
-No esquea que ele no sabe que sou uma nadadora com experincia e no podia dizer-lhe -continuou ela, ignorando seu sarcasmo-. Perguntou-me se voc sabia que ia nadar sozinha e quando admiti que no me disse Olhe, senhora Carran, no quero lhe impor minha companhia, mas se lhe ocorrer algo seu marido nunca me perdoar.... Tentou me ajudar -gritou com paixo-, e este  o agradecimento que vai receber.
-Mais vale que me conte o que ocorreu -disse Matthew, com o rosto rgido.
-Tentei te contar isso e voc no me escutou.
-Agora te escuto.
Fazendo um esforo por manter a voz tranqila, contou tudo. Matthew, inexpressivo, escutou-a em silncio at o final.
-Ser melhor que d uma olhada nesse brao -disse depois, com tom grave. Ela levantou uma mo para apartar o robe -. Eu o farei -ficou de ccoras e, com cuidado, o retirou dos ombros. Quando viu os machucados, soltou o ar entre dentes, lentamente, com uma espcie de assobio. Depois, comeou a amaldioar com violncia.
-Eu adoraria agarrar aos idiotas que foram responsveis por isto.
-Foi um acidente -disse ela, tremente.
-Um acidente que no devia ter acontecido. Se no tivessem desobedecido as mais elementares normas de... -interrompeu-se e Caroline observou como fazia um esforo visvel para recuperar seu autocontrole. Quando o conseguiu, terminou de lhe examinar o brao e o ombro, com suavidade.
-Bom, o ombro no est deslocado, graas a Deus, mas no resta dvida de que a dor vai te impedir de qualquer atividade.
Levantou-se e se aproximou de um armrio; voltou um momento depois com um estojo de primeiro socorros.
-J te convenceste? -perguntou ela, enquanto ele estendia um creme anti-inflamatrio pelas contuses.
-Convencido? -olhou-a com surpresa.
-De que Brett e eu no estvamos a ponto de... digamos. .. nos deitar juntos?
-Parece que desta vez me equivoquei -disse Matthew, com os lbios apertados- Mas qualquer um que saiba como  na realidade, teria chegado  mesma concluso.
-Exceto voc no sabe como sou. Nunca o soubeste.
-Bom, minha querida esposa, como no tenho inteno de te perder de vista nem um momento durante o resto de nossa lua-de-mel, ter tempo de sobra para me contar isso.
Contemplou seu rosto desdenhoso e a invadiu o desespero. Podia contar-lhe mas conseguiria convencer-lo para que lhe acreditasse?



Captulo 10

Caroline comeou a sentir os efeitos retardados da comoo e, apesar da calefao e do fogo, comeou a tremer de modo incontrolvel.
-Ser melhor que te tire o traje de banho e ponha um pouco de roupa -aconselhou Matthew. Desapareceu em direo ao dormitrio e voltou um momento depois com roupa debaixo limpa e um roupo suave e solto. Ajudou-a a vestir-se e a instalou no sof, ante o fogo-. A seguinte prioridade  que tome algo quente e um par de calmantes.
-No estou de acordo -objetou ela. Ele a olhou com curiosidade-. Acredito que a seguinte prioridade  que chame Brett e impeas que ele parta.
Matthew pareceu furioso durante uns segundos, mas depois levantou o telefone.
-Colyer, sou Matthew Carran. Acredito que te devo uma desculpa... Sim, est bem, obrigado. Depois irei falar contigo.
Depois de desligar o telefone ficou em p e foi  cozinha. Voltou pouco depois com ch e um frasco de aspirinas. Fez-a tomar um par de comprimidos e em seguida se sentou frente a ela.
-Como soube onde me encontrar? -pergunto curiosa Caroline.
-Quando retornei, a recepcionista mencionou que tinhas estado me procurando. Acrescentou que tinha ido em direo  piscina. Estava percorrendo todas as piscinas quando me encontrei com um empregado que me perguntou se te procurava. Disse que sim, e mencionou que te tinha visto almoando com Colyer - sua expresso se endureceu.-Um momento depois, por pura casualidade, vi vocs desaparecer atrs das portas que levam s habitaes do pessoal. Supus que se sentia abandonada.
-Se tivesse sido o caso, dificilmente poderia me culpar por isso -Caroline, sabendo que no tinha nada a perder, devolveu o golpe-. Supe-se que estamos de lua-de-mel, e me trata como se... como se fosse um objeto sem importncia.
-Que  exatamente o que s.
-Se me despreza tanto, por que te casou comigo? -perguntou com uma careta de dor.
-Porque Caitlin necessita de uma me -replicou ele sinceramente-. O dia que viestes para a entrevista vi como lhe enchiam os olhos de lgrimas ao v-la. Isso me fez pensar que possivelmente merecias uma segunda oportunidade.
-Depois de me evitar durante toda a manh, por que veio me procurar?
-No te estava evitando. Tive que solucionar um problema.
De repente, Caroline no pde conter um bocejo.
-Pareces esgotada. Assim que faam efeito os calmantes, ser melhor que te deite e tente dormir um momento.
Sim, estava esgotada, mas tinha muitas coisas na cabea para poder dormir. Coisas que queria saber, coisas que precisava perguntar. Reuniu toda sua coragem.
-Matthew, desde quando sabe que sou Kate? Pensei que se o descobrisse... -hesitou e se passou a lngua pelos lbios ressecados-. Reconheceu-me desde o comeo?
-No te reconheci absolutamente. Exceto pelos olhos. Mas sabia quem eras inclusive antes de que viesse  entrevista. Eu preparei tudo.
-Como se inteirou? -perguntou ela com o corao acelerado.
-Quando o hospital nos informou que te tinha partido, pus-me furioso. Contratei a uma agncia de detetives particulares para que lhe procurassem, mas parecia ter esfumado. No lhe teriam encontrado jamais se te tivesse desfeito dos cartes de crdito. Embora no os usasse muito, notificou aos emissores sua mudana de endereo. Ento, j eras a bab dos Amesbury.
Decidi pensar com calma, e pedi aos detetives que estivessem atentos. Faz seis meses me trouxeram a notcia de que os Amesbury voltavam para Califrnia. Ao princpio no sabia se pensavam te levar com eles. Isso teria sido um problema...
-Um problema? -ela franziu o sobrecenho.
-No estava disposto a permitir que fosses -disse, olhando-a friamente aos olhos. Ela sentiu um calafrio-. Um ms depois da morte de Grace, deram-me a data definitiva da mudana e me comunicaram que voc ficava aqui. Por pura casualidade, naquele momento necessitava de uma bab, e organizei de maneira que uma amiga mtua, Sally Denvers, entrasse em contato com a senhora Amesbury e te oferecesse o trabalho. No sabia se te atreverias a aparecer; dependia do quanto tinha mudado e de quanto desejasse ver sua filha.
-Embora tivessem passado quase quatro anos desde a ltima vez que te vi, imaginei que tentaria alterar sua aparncia. Mas quando entrou fiquei aniquilado. Durante um momento acreditei que a agncia de detetives tivesse se equivocado e eras outra mulher. No demorei a descobrir que, apesar das mudanas, seguia existindo uma forte qumica sexual entre ns... Mesmo assim, para me convencer, tinha que ver-te os olhos.
Ela respirou entrecortadamente, recordando como tinha se inclinado para ela, lhe tirando os culos.
-Ento...
-Sem mais perguntas at que tenhas descansado um momento -disse ele com firmeza, ao fixar-se em seus ombros cados e sua extrema palidez. Gostaria de deitar-se, mas no queria se apartar do fogo. Interpretando seu rosto corretamente Matthew continuou-. Se no querer ir  cama, estar cmoda no sof. Deixa que te d uma mo.
Ajudou-a a deitar-se de lado, sobre o brao bom, e a agasalhou com uma manta. Ela tinha tantas coisas na cabea que no acreditou poder dormir, mas foi um grande alvio estirar-se e fechar os olhos. Sentia o calor do fogo no rosto, e ouvia o rangido dos troncos ao assentar-se e o discreto tictac do relgio... Quando se estirou e abriu os olhos, Matthew a observava em silncio.
-Quanto tempo levo dormindo? -perguntou, sentando-se.
-Quase trs horas. Comeava a pensar que dormiria at amanh. Como te encontra?
-Muito melhor -era a verdade. A sesta a tinha descansado muito.
-Como est o ombro?
-Um pouco dolorido, mas nada mais.
-Tens fome?
-Estou morta de fome.
-Vou pedir que nos tragam a comida.
-Eu gostaria de me arrumar um pouco antes de jantar.
-Necessita de ajuda?
-No, obrigado, posso me arrumar sozinha.
Dirigiu-se ao banheiro, percebendo com alvio que, embora sentia os machucados, j no doam tanto. Quando voltou, um carrinho com o jantar esperava ante o fogo, e se sentaram a comer em silncio. Assim que fizeram justia a excelente comida, Matthew apartou o carrinho e voltou a instalar Caroline no sof. Ele se sentou em uma poltrona e a estudou durante uns minutos.
-Me diga, por que decidiste te mudar o rosto? -perguntou. Ela o olhou desconcertada, e ele insistiu- Por que fizeste a cirurgia plstica?
-Porque no acidente quebrei o nariz e fiquei desfigurada e cheia de cicatrizes...
Sem dvida ele sabia. Por que a olhava como se no pudesse dar crdito a seus ouvidos?
-Nunca teria podido pagar uma cirurgia plstica, mas quando estava na Misso...
-Misso? -interrompeu ele cortante - Que Misso?
-A Misso de So Salvador. Morningside Heights.
-Posso saber por que estava em um lugar assim?
-Quando sa do hospital, no tinha dinheiro nem aonde ir -explicou ela com calma, sem nenhum sinal de autocompaixo-. Vi um pster que dizia Se estiver faminto ou no tem lar, entre. Chovia e estava desesperada, assim entrei. Estive muito doente durante vrias semanas, mas me ofereceram uma cama e cuidaram de mim. Comportaram-se maravilhosamente. .. -tremeu-lhe a voz pela primeira vez. Tragou saliva e continuou - Os Amesbury colaboravam economicamente com a Misso. Foi ali onde os conheci. O senhor Amesbury, que  um brilhante cirurgio plstico, alm de ser uma pessoa excelente, teve piedade de mim e me arrumou o rosto gratuitamente.
-Assim foi por isso que acabou trabalhando para os Amesbury... -murmurou Matthew. Depois, com olhos irados, atacou-. Se estava to se desesperada como diz, por que no foi procurar a mim?
-Teria preferido morrer a me arrastar ante um homem que me odiava e desprezava. Quando descobri que era voc quem pagava as contas do hospital, me senti em uma priso.
-Mas sem dvida uma priso de luxo, no? -seus olhos cintilaram.
-Luxuosa ou no a odiava!
-Pois ento te custaria muito agentar ali tanto tempo -disse ele, com sarcasmo.
-No tive muita opo. Quando despertei, disseram-me que estava em coma h quase cinco meses -replicou serena. Observou que Matthew ficava paralisado.
-Repete isso -ordenou.
-Disseram-me que tinha sofrido uma fratura de crnio muito grave e estava em coma por quase cinco meses.
-Que conto de fadas  esse?
-Ma...mas voc tinha que saber, no? -gaguejou, assombrada por sua ira.
-Ningum sabia nada de que estivesse em coma.
-Grace sabia.
-Grace sabia? -soava estupefato-. Ento, por que diabos no disse nada? S me contou que tinha leses mltiplas?
-No sei por que no disse nada -admitiu Caroline com impotncia-. A enfermeira me contou que chamava quase diariamente para saber se havia alguma mudana. Quando por fim recuperei a conscincia, chamaram-na e ela veio para ver-me.
-Diz que esteve em coma por quase cinco meses?
-Se no me acredita, pode comprov-lo no hospital.
-Se no estava consciente quando nasceu Caitlin, isso explica que no soubesse que era seu aniversrio. Pensei que era porque no te importava o suficiente -disse ele um momento depois, como se pensasse em voz alta-. Conta-me tudo -ordenou, com os dentes apertados.
-Ao princpio, no sabia quem era nem onde estava. Depois, a memria voltou pouco a pouco. Recordei que estava grvida, e que conduzia o carro em direo a casa... Perguntei por meu beb. Disseram-me que tinha nascido no hospital e que estava s... Quis v-la, mas me disseram que Grace a tinha levado porque eu, em coma, no podia me ocupar dela.
-Durante todos esses meses, Grace me fez acreditar que se ocupava da menina porque voc no se sentia capaz de faz-lo -disse Matthew, plido, com voz rouca-. Diz que foi ver-te. Levou a menina? -inquiriu, cortante.
-No. Disse-me que a pobrezinha estava gripada. Sofri uma grande desiluso. 
-Ento, quando viu a menina pela primeira vez?
-Aquele dia, em seu apartamento de cobertura.
Matthew, entre dentes, resmungou algo que soou como Oh, Meu deus. Depois de um momento, urgiu-a a que continuasse.
-Quando me disseram que era uma menina, alegrei-me muito. Tony queria uma menina. Perguntei se ele estava bem... Ento, deram-me a notcia de que tinha morrido no acidente sem chegar a saber-lo...
-De verdade lhe importavam Tony e a menina? -perguntou Matthew com brutalidade, ao ver seus olhos encher-se de lgrimas.
-Sim, importavam-me -sua singela resposta foi mais reveladora que qualquer protesto-. Durante um instante desejei ter morrido com ele. Depois, pensei no beb e me alegrei de ter sobrevivido...
-Como posso acreditar em ti? -perguntou Matthew atormentado-. H dito tantas mentiras. Quando te perguntei por seu marido, disse que tinha morrido de cncer.
-Disse que tinha cncer, e  a verdade. Levava semanas sentindo-se doente e esgotado...
-Grace acreditava que tinha anemia.
-Isso  o que ele lhe contou. No queria que se preocupasse com ele...No dia do acidente tinha ido ao hospital Grober  pegar o resultados de um exame. Disseram-lhe que restavam menos de trs meses de vida. Chegou em casa completamente destroado. Falamos um momento, e depois disse que ia a uma festa a qual estvamos convidados. Eu queria que pedisse um txi, mas insistiu em levar o carro. O flego cheirava a Bourbon, assim decidi ir com ele. Quando terminou a festa, embora estivesse toda a noite bebendo sem parar, e se no me acredita pode perguntar aos anfitries da festa, colocou-se ao volante e insistiu em conduzir. Consegui lhe persuadir de que se colocasse a um lado e me deixasse conduzir ... -levantou o rosto, plido e dolorido-. Mas me esqueci de lhe recordar que fechasse o cinto de segurana -admitiu-, assim de certo modo tinha razo ao dizer que eu era culpada de sua morte.
-Nunca deveria ter dito isso -Matthew moveu a cabea - No foi s cruel, foi imperdovel. Mas me sentia to dodo que procurava formas de te devolver o golpe.
Seguiu um longo silncio. Ela viu o reflexo do fogo iluminar seu rosto, dando relevo a seus traos e deixando seus olhos na sombra.
-H algo que no consigo entender... -disse ele cansativamente, olhando-a-. Se te importava a menina, por que a abandonou?
-Naquele momento fiz o que me pareceu melhor para todos.
-Para todos? -perguntou com voz crispada - Seguro que no quer dizer para ti?
-No queria deix-la mas, tal e como apontou Grace, no tinha meios para manter a um beb, e podiam passar meses at que estivesse em condies de trabalhar ou de me ocupar dela... O pior de tudo era que no tinha casa, Grace me disse que tinha deixado de alugar o apartamento... -retorceu-se as mos.  Depois de que o mdico falasse com ela e lhe dissesse que poderia ir para casa logo, sentiu-se mal porque...
-Insinuas que no queria que voltasse para casa? -Matthew, zangado, levantou a cabea.
-No, absolutamente. Suplicou-me que fosse viver com ela. Disse-me que voc ia se casar em poucos meses, e tentou me convencer de que sua noiva e voc estariam encantados de que vivesse ali. Desgostou-se muito quando me neguei.
-Era um lar para ti e para sua filha, por que o rechaou? No, no me diga isso. Adivinho-o. Porque era minha casa... no sabia que me odiasse tanto.
-Foi ao contrrio. No podia suportar a idia de estar em dvida com um homem que me odiava. 
-Abandonou a sua filha simplesmente por orgulho!
-No foi s isso. Havia outras razes...
-Como quais?
-Estava claro que ningum contava com meu restabelecimento, e que recuperasse a conscincia, longe de ser uma bno, complicou as coisas...
-No entendo o que quer dizer... -negou ele com brutalidade.
-Quando Grace se inteirou de que no pensava viver em sua casa, comeou a chorar e me pediu que no lhe tirasse  menina, disse-me:  No sabe quanto desejei ter um neto... Ela  tudo o que resta agora que Tony se foi... Disse-lhe que quando voc se casasse teria mais netos. Ento me contou sobre a Sara...
-O que te contou da Sara?
-Que no podia ter filhos.
-O que disse Grace exatamente? -Matthew estava como paralisado, e seu olhar era implacvel. Caroline, alarmada, hesitou-. No o recorda?
-Sim, claro que sim -no esqueceria essa conversa com sua sogra embora vivesse cem anos -. Grace disse: Sara no pode ter filhos. Quando era muito jovem e atordoada, teve um aborto que foi mal... Mas tanto ela como Matt querem um filho e, se algo te tivesse ocorrido, pensavam adotar  menina... Ento foi quando compreendi que teria sido melhor se tivesse morrido.
-No te ocorra dizer isso!
- o que senti ento.
-Grace te mentiu -Matthew soltou uma maldio entre dentes - No havia nenhuma razo pela qual Sara e eu no pudssemos ter filhos -acrescentou, sombrio.
-M...mas, no entendo -gaguejou Caroline- por que ia mentir sobre uma coisa como essa?
-Pela mesma razo pela que me mentiu. Fez-me acreditar que no queria  menina... Sara e eu falamos de adot-la para que tivesse um lar e um futuro... Est claro que Grace mentiu a todos porque no suportava a idia de separar-se da filha de Tony. De seu ponto de vista, a nica maneira de consegui-lo era que voc renunciasse a ela e que eu a adotasse. Ao partir do hospital sem deixar rastro, fez-lhe o jogo... -Matthew suspirou profundamente.
-Entretanto, eu sou o maior culpado. Se tivesse ido ver-te, ou me tivesse informado, teria compreendido a verdade e nada disto teria ocorrido. Mas deixei tudo nas mos de Grace, e acreditei no que ela me dizia... -seus olhos se obscureceram-. Suponho que agora que sabe tudo, deve odi-la, no?
-No posso odi-la -replicou Caroline, descobrindo que s sentia compaixo-. Adorava ao Tony, e perd-lo a rompeu seu corao...
Assim como  ela perder a sua filha.
-Inclusive engoliste a histria sobre a Sara, resulta-me difcil acreditar que estivesse disposta a me ceder  menina quando se negava a pr um p em minha casa... Suponho que o fez porque era filha de Tony.
-No, no foi essa a razo - negou Caroline. Matthew, com os olhos fixos nela, esperou. Tinha chegado a hora da verdade, mas insegura sobre qual seria sua reao, decidiu dar um rodeio -.Quando disse que no pensava me casar com Tony, dizia-o a srio...
-J sei -interrompeu Matthew-. Fui a seu dormitrio pela manh e li a nota que lhe deixou: Tem que aceitar que no posso me casar contigo, e recorda que nunca disse que o faria.... Compreendi que me havia dito a verdade, e que no estavam comprometidos.
-Mas, j no te importava? -suspirou ela.
-Sim, claro que me importava. Decidi que quando Tony se sentisse melhor, iria te buscar... -para Caroline essas palavras foram como uma punhalada no corao-. Como um estpido, acreditava que entre ns havia algo especial, quase mgico. Imagine como me senti quando, poucas semanas depois, anunciou que iam se casar... por que mudou de opinio? 
-Por dois motivos...
-Acredito que um eu adivinho. Aceitou te casar porque estavas grvida.
-Sim -admitiu-. Como sabe?
-S estavam sete meses casados quando tiveram o acidente, mas deu a luz a uma menina perfeitamente formada... -observou-. Se no tinha inteno de te casar com Tony -acrescentou, com raiva repentina-, devia ter sido mais cuidadosa.
-Caitlin no  filha de Tony -admitiu ela, sua voz no foi mais que um sussurro. Matthew levantou a cabea e lhe lanou um olhar glacial.
-Ento, de quem  filha? Ou acaso no sabe?
-Sim, sei -Caroline apertou as mos com fora-.  tua. Por isso permiti que ficasse com ela.
-As datas encaixam mas, como pode estar segura de que  minha, se te deitava com os dois?
-S me tinha deitado contigo.
-Se isso for verdade, Tony sabia que o beb no era dele. Ou  que no sabia que estava grvida? -perguntou Matthew, muito afetado.
-Sim, sabia. Tambm sabia que no era dele; mas no de quem era.
-E mesmo assim, quis casar-se contigo? Deus, devia estar perdidamente apaixonado! -a fria o invadiu por completo-. Se sabia que era meu, como pde te casar com outro? E para piorar mais as coisas, com meu meio-irmo. Isso  o que no posso te perdoar.
-Ao princpio me neguei. Mas seguiu me pressionando, e ento lhe disse que estava grvida. Em lugar de zangar-se, adorou a idia. Disse: Parece-me um milagre.  a resposta a minhas preces... Diremos a todo mundo que o beb  meu. Eu me ocuparei de vocs. Seremos uma famlia.... Eu segui me negando e ento me disse algo que nunca havia dito a ningum. Queria levar o que ele considerava uma vida normal -viu que Matthew a olhava como se nunca a tivesse visto. -Na realidade, no era capaz de aceitar sua homossexualidade, e estava desesperado por ocult-la, especialmente a sua me, que no fazia mais que insistir para que arrumasse uma noiva e que se casasse. Sentia-se acossado, e por isso insistiu tanto em que eu a conhecesse. Quando o pressionei, admitiu que a razo fundamental para casar-se comigo, era tirar a sua me de cima dele.
-Pobre diabo -murmurou Matthew.
-Acredito que sua me agia assim porque tinha suas suspeitas, e quando nos casamos no s dava impresso de alegria, mas tambm de alvio.
-Sim -aceitou Matthew-, tudo encaixa. Esfregou-se os olhos com as mos e acrescentou, com tristeza-.  estranho no dar-se conta de algo to bvio, at que algum lhe mostre isso... Mas no entendo como Tony acreditou, nem por um momento, que um casamento como esse pudesse funcionar.
-Fiz-lhe essa pergunta... -Caroline sorriu foradamente- Parece que lhe dava a impresso de que era fria e assexual, bem frgida. Acreditou que me conformaria com lar e um pouco de companhia. Quando segui me negando a aceitar, porque s lhe tinha carinho, e isso no me parecia suficiente, disse-me: Para mim , no quero uma grande paixo. Lhe disse que eu sim, e me respondeu... No seja boba, querida.  muito sensata e equilibrada. Se algum te oferecesse uma grande paixo, sairia correndo.
-Est claro que no te conhecia absolutamente -comentou Matthew. Ela, ao recordar a noite anterior, ruborizou-se.
-Assim que seu matrimnio foi s de papel?
-Sim -Caroline o olhou e captou um brilho de satisfao, quase selvagem, cruzar seu olhar.
-O que fez que uma mulher como voc se conformasse com uma existncia to vazia? -perguntou ele, com voz controlada, mas curiosa.
Sentia pena por ele e parecia uma boa soluo para os dois.
-E se mais adiante te tivesse apaixonado por outro? -perguntou. Ela negou com a cabea - No  impossvel, sabe?
-Sabia que no me ia apaixonar por outro.
-Por que no?
-Quando estava no hospital, por que no foi alguma vez me visitar? Foi porque seguia me odiando? -perguntou ela, em vez de responder a sua pergunta.
-Dizia a mim mesmo que essa era a razo, mas a verdade era que era incapaz de ir. Estava muito dodo, zangado e ciumento. No podia te perdoar que tivesse preferido Tony, que tivesse tido uma filha dele...
Caroline respirou entrecortadamente. Se ainda tinha cimes do passado, devia sentir algo por ela.
-Tentei esquecer trabalhando todas as horas do dia, e passava o maior tempo possvel em viagens de negcio. Se tivesse sabido que estava em coma... -Matthew afundou o rosto entre as mos. Ela se levantou com cuidado e se aproximou dele.
-No te culpe. Tudo comeou por minha culpa. Se te tivesse contado sobre Tony quando me perguntou se havia algum em minha vida.... Mas temi..., bom estragar tudo. J sabia que, acontecesse o que acontecesse entre ns, no podia me comprometer com Tony. Por isso segui para Nova Iorque, para terminar com ele de uma vez por todas.
-Se te tivesse acreditado -sua voz soava atormentada.
-No  mais que o passado, j se acabou. Temos o futuro pela frente.
-Oh, sim, o futuro -Matthew deixou cair as mos e elevou a cabea-. Forada a te casar com um homem com o qual no queria te casar, s para poder estar com sua filha... -disse sombrio-. Tenho que admitir que entre Grace e eu conseguimos te arruinar a vida -inquieto, levantou-se e se apoiou contra o suporte da lareira. Sei que  um pouco tarde para retificar, mas j conhece o dito Mais vale tarde que nunca... Se quer me deixar e levar Caitlin, comprarei-te uma casa e manterei s duas. 
- isso o que quer? -perguntou Caroline, rezando por que no fosse assim.
-No, claro que no... -seus olhos refletiam sua angstia-. Mas agora s importa o que voc quer.
-Bom, a no ser que seja inevitvel, eu no gosto da idia de formar uma famlia sozinha. Acredito que Caitlin deve ter um pai, e eu, certamente, quero um marido.
-De acordo, se no futuro te apaixonar por algum e desejar te casar, concederei-te o divrcio -aceitou ele, apertando os dentes. Ela fez um movimento negativo com a cabea.
-Faz um momento, quando te disse que sabia que no me voltaria a apaixonar, perguntou-me por que. Agora responderei sua pergunta... -comeou ela. Matthew, completamente rgido, esperou-. Foi o primeiro homem com o qual me deitei, e no ficou s em sexo. Apaixonei-me por ti e nunca deixei que te querer.
-Ests segura? -gemeu ele, abraando-a.
-Completamente segura -respondeu ela serena.
Apertou-a com mais fora e ela gemeu. Imediatamente, afrouxou o abrao.
-Devo ter mais cuidado -murmurou ele-. J te tenho feito muito dano. Depois de como te tratei,  difcil acreditar que...
-Sabia ao que me arriscava quando fui  entrevista -disse ela brandamente, para tranqiliz-lo e lhe devolver a confiana em si mesmo-, mas fui incapaz de resistir. No s desejava ver Caitlin desesperadamente... Voc mesmo se deu conta imediatamente que seguia havendo algo entre ns...
-Mas eu acreditei que, ao menos de sua parte, era meramente atrao sexual -disse Matthew.
-O que quer dizer com ao menos de sua parte -perguntou ela, quase sem respirar.
-Quero dizer que, assim que te vi, apaixonei-me perdidamente... Estive a ponto de te pedir que te casasse comigo na primeira noite mas, por precauo, decidi esperar um pouco, at que nos conhecssemos melhor. Mas, em s um dia, convenci-me de que eras a esposa que eu desejava... Tinha tudo o que eu queria em uma mulher: calidez, doura e paixo, senso de humor e coragem, e alm disso, como um presente inesperado, resplandecia de inocncia. -Em Nova Iorque, foi como se o mundo casse em cima de mim. Depois me convenci de que o que havia sentido, e seguia sentindo, no era mais que uma espcie de obsesso. ..
-Segue acreditando nisso ainda?
-Importaria-te se fosse assim?
-No, se o soletrar a-m-o-r -sorriu ela. Matthew a beijou com paixo.
-Caroline, ficars comigo?
-Como poderia te abandonar no meio da lua-de-mel? -brincou ela -E, falando em lua-de-mel... -deliberadamente apertou sua esbelta figura contra ele.
-E o brao e o ombro? -perguntou ele, inseguro.
-Esto como novos -assegurou ela. Ao v-lo hesitar, perguntou-. Importaria-te de abaixar a cabea para que eu possa te beijar?
Ele obedeceu.
-Ajuda-me a voltar para sof... ? -murmurou colada a seus lbios-. Acredito que preciso me deitar de novo. E teria menos frio se o compartilhar comigo.
-Acaso tenta me tentar?
-Estou conseguindo? -olhou-o e ele riu com jbilo.
-Me d um minuto e lhe demonstrarei isso.

Fim
